Quarta-feira, 31 de Outubro de 2012

Recordando... Mário de Sá-Carneiro

ANTO
 
Caprichos de lilás, febres esguias,
Enlevos de ópio — Íris-abandono...
Saudades de luar, timbre de Outono,
Cristal de essências langues, fugidias...

 

O pajem débil das ternuras de cetim,
O friorento das carícias magoadas;
O príncipe das Ilhas transtornadas —
Senhor feudal das Torres de marfim...

 

(Indícios de Ouro – 1915)

 

In “Signos”

Lisboa Editora

 

Mário de Sá-Carneiro

1890 – 1916

 

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Quinta-feira, 25 de Outubro de 2012

Recordando... Alberto Pereira

PRESÍDIO

 

Tenho séculos submersos no teu corpo.

Apalpo a trovoada despida no olhar,

há aves que voam rente ao tempo cruel

relampejando geadas inesperadas.

Há abismos insurrectos

a transbordar champanhe nocturno.

Bebo o sorriso afogado

em luminosos cálices de trevas,

escuto chicotes ungindo labaredas

nos canais sombrios da alma.

 

 

Tenho séculos submersos no teu corpo.

Não sei como selar a decepção

que arde nos sulcos do desespero.

Colocaste-me grades na boca,

é insuportável o sangue descalço

que dança nuvens na garganta.

Trouxeste nos gestos ogivas lancinantes

a transplantar milénios de abandono.

Desmorono-me em silêncio

perseguido pelo assédio atómico

que flutua no encanto.

 

Anoitece em mim,

surtos desolados

escavam neblina na eternidade,

tudo grita o fim.

 

 

In "O áspero hálito do amanhã"

Edium Editores

 

Alberto Pereira

N. 1970

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Sexta-feira, 19 de Outubro de 2012

Recordando... Manuel Maria de Barbosa du Bocage

TRIBUTO EM AIS NO CORAÇÃO GERADOS

 

Tributo em ais, no coração gerados

Não dês à cara cinza, aflito Espôso;

Roçam da Vida o circulo afanoso

Caminhos florescentes, e estrelados.

 

Espiritos gentis, por Jove amados,

Volvendo a seu princípio luminoso,

Olham Sol não crestante, e mais formoso,

Vagueiam sem temor por entre os Fados.

 

Com alta fantasia, e rosto enxuto,

Vê nos Eliseos a imortal consorte.

Vê da Virtude a flor tornar-se em fruto.

 

Doce, augusta verdade Amor conforte;

Em vós, ó ímpios, a existência é luto,

E nos eleitos um sorriso a Morte.

 

 

In "Clássicos Portugueses – Trechos Escolhidos”

Século XVIII – Poesia – Bocage – Sonetos

Introdução, selecção e notas de Vitorino Nemésio

Liv. Clássica Editora – Lisboa – 1943

 

Manuel Maria de Barbosa du Bocage

1765 – 1805

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Sábado, 13 de Outubro de 2012

Recordando... António Luís Moita

FÓSSIL

 

As arestas da pedra são redondas
na mão desprevenida que as recebe
evaporadas, gastas pelas ondas
milenárias da praia que amanhece.

Mas são arestas quando, além da polpa
dos dedos mornos, outros dedos frios
aram na pedra o que na pedra é sombra,
numa cadência grave de navios.

Que mar antigo se dilata dentro
do fóssil mudo que já foi bivalve
e surge, aos olhos, coração cinzento,
sedento de uma nova humanidade?

Oiço-lhe o longo, longo chamamento...

– E, de repente, a pedra liquefaz-se.

 

 

In “Cidade Sem Tempo”

Edição do Autor – Lisboa – 1985

 

António Luís Moita

N. 1925

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Domingo, 7 de Outubro de 2012

Recordando... Maria Eugénia Cunhal

BASTASTE TU

 

Bastou aquele gesto
Da tua mão tocar tão docemente a minha
Pra nascerem raízes
Que me prendem à terra e me alimentam
Nas horas mais vazias

Bastou aquele olhar
- O teu olhar tão brando, prolongando-se um pouco sobre o meu –
Para iluminar as noites em que a lua se esconde
E a escuridão envolve um mundo sem sentido.

Bastou esse teu jeito de sorrir,
Um sorriso em que vejo despontar a confiança
Na vida não vivida, nas emoções ainda não sentidas,
Nos passos que ressoam noutros passos

Bastaste tu.


In “Silêncio de Vidro”

Editorial Escritor

 

Maria Eugénia Cunhal

N. 1927

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Segunda-feira, 1 de Outubro de 2012

Recordando... Anrique Paço D’Arcos

SAUDADE MINHA

 

Minha saudade as cousas transfigura 
num estranho delírio semelhante 
ao desse eterno cavaleiro-andante 
paladino do sonho e da loucura:

minha saudade é fonte que murmura 
e em seu cantar humilde e marulhante
mata a sede que abrasa o caminhante 
só de o embalar na líquida ternura...

Minha saudade os mundos alumia
os mortos ressuscita e é um sol-nascente
dourando ainda as trevas da agonia;

minha saudade é a força misteriosa
que torna cada cousa em mim presente
e a minha dor presente em cada cousa.

 

 

MORS – AMOR  (1928)

 

In “Poesia Completa” – 2.ª edição

(Biblioteca de Autores Portugueses)

Imprensa Nacional – Casa da Moeda

 

Anrique Paço D’Arcos*

1906 – 1993

 

 

* (Henrique Belford Correia da Silva – Conde de Paço D’Arcos)

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