Domingo, 30 de Setembro de 2012

Recordando... Álvaro Neto

UMA SÓ VIDA NÃO CHEGA

 

Uma só vida não chega

nem outra nem outra ainda

para dizer que te amo

meu amor meu só amor.

 

E quando a morte vier

inevitável e certa

que seja eu o primeiro

a ficar no livro inscrito.

 

Que ali discreto seja

e feliz por ter amado

a mulher por que morri

 

vivendo. Nada mais quero.

Se de seu amor morri

morrendo volto a viver.

 

 

In “Sequências”

Livros Horizonte

 

Álvaro Neto **

N.1935

 

 

** Pseudónimo de Liberto Cruz

 

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Terça-feira, 25 de Setembro de 2012

Recordando... José Emílio-Nelson

AUTOBIOGRAFIA

 

Algumas poucas tabernas, velho armário,

cão de folhas,

árvores do escuro ladram,

eu corro pelas páginas no focinho do cão.

A garrafa. O gin gira

e fere-me lábios e aviva o vinho velho.

Velho vidro. Espalha o espelho (as palavras

no charco do álcool).

Nunca o coração bebe,

a árvore ondulante bebe,

o coração obscuro vive a violência

do meu ponto de vista,

mas habita-me

na confissão

se os cães da retórica velhos

correm contra a pele,

quando as lágrimas os soltam

e as páginas inesperadamente se derramam.

E o meu armário fala, fantasma arborescente.

Em vez de um lírio, as minhas fezes na boca,

a espuma da copa. Álcool.

É o mar.

Choro assombrado.

 

 

In “Vida Quotidiana e Arte Menor “ – 1993

Editora Gota de Água

 

José Emílio-Nelson **

N. 1948

 

 

** Pseudónimo literário de José Emílio de Oliveira Marmelo e Silva,

 

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Quarta-feira, 19 de Setembro de 2012

Recordando... José Fanha

EU SOU PORTUGUÊS AQUI

 

Eu sou português

aqui

em terra e fome talhado

feito de barro e carvão

rasgado pelo vento norte

amante certo da morte

no silêncio da agressão.

 

Eu sou português

aqui

mas nascido deste lado

do lado de cá da vida

do lado do sofrimento

da miséria repetida

do pé descalço

do vento.

 

Nasci

deste lado da cidade

nesta margem

no meio da tempestade

durante o reino do medo.

Sempre a apostar na viagem

quando os frutos amargavam

e o luar sabia a azedo.

 

Eu sou português

aqui

no teatro mentiroso

mas afinal verdadeiro

na finta fácil

no gozo

no sorriso doloroso

no gingar dum marinheiro.

 

Nasci

deste lado da ternura

do coração esfarrapado

eu sou filho da aventura

da anedota

do acaso

campeão do improviso,

trago as mão sujas do sangue

que empapa a terra que piso.

 

Eu sou português

aqui

na brilhantina em que embrulho,

do alto da minha esquina

a conversa e a borrasca

eu sou filho do sarilho

do gesto desmesurado

nos cordéis do desenrasca.

 

Nasci

aqui

no mês de Abril

quando esqueci toda a saudade

e comecei a inventar

em cada gesto

a liberdade.

 

Nasci

aqui

ao pé do mar

duma garganta magoada no cantar.

Eu sou a festa

inacabada

quase ausente

eu sou a briga

a luta antiga

renovada

ainda urgente.

 

Eu sou português

aqui

o português sem mestre

mas com jeito.

Eu sou português

aqui

e trago o mês de Abril

a voar

dentro do peito.

 

 

In “Eu sou português aqui”

Obras de José Fanha nº 1

Editora Ulmeiro

 

José Fanha

N. 1951

 

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Quinta-feira, 13 de Setembro de 2012

Recordando... António Aleixo

 

MOTE

 

Fui uma noite pintar

Com um caneco emprestado;

Eu pintei sem reparar,

Pintei e fiquei pintado.

 

GLOSAS

 

Eu comecei com jeitinho

A compor o ramalhete;

Primeiro foi com azeite

E depois foi com cuspinho.

No começo era estreitinho,

Custava o pincel a entrar...

Começa a dona a gritar:

"Não me parta a tigelinha",

Mas que coisa engraçadinha,

Fui uma noite pintar...

 

Comecei devagarinho...

Quando fui ao outro mundo

Meti o pincel ao fundo

E parti o canequinho.

Até mesmo o pincelinho

Veio de lá todo pintado,

Eu já estava desmaiado,

Perdendo as cores do rosto;

Mas pintei com muito gosto

Com um caneco emprestado.

 

Vem a mãe toda zangada:

"Tem que pagar-me a vasilha...

No caneco da minha filha

Não pinta você mais nada...

... Lá isto, a moça deitada,

Sem poder levantar-se,

Com tanta tinta a pingar

No lugar da rachadela!..."

"Diga lá, que desculpe ela,

Eu pintei sem reparar!"...

 

Pra que vejam que sou pintor

E meu pincel nunca deixo;

Pra que saibam que o Aleixo

Não é somente cantor...

Também pinto qualquer flor

E faço qualquer bordado;

Mas aqui o ano passado,

Perdi, de pintar, o tino...

Fui pintar, fiz um menino,

Pintei e fiquei pintado.

 

 

In "Este Livro que Vos Deixo..." – Inéditos 

Volume II – 3ª edição

Editorial Notícias

António Aleixo

1899 – 1949  

 

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Sexta-feira, 7 de Setembro de 2012

Recordando... Paulino António Cabral

AMOR, É UM ARDER, QUE SE NÃO SENTE

 

Amor, é um arder, que se não sente;

É ferida que dói, e não tem cura;

É febre, que no peito faz secura;

É mal, que as forças tira de repente.

 

É fogo, que consome ocultamente;

É dor, que mortifica a Criatura;

É ânsia a mais cruel, e a mais impura;

E frágua, que devora o fogo ardente.

  

É um triste penar entre lamentos;

É um não acabar sempre penando;

É um andar metido em mil tormentos.

   

É suspiros lançar de quando, em quando;

E quem me causa eternos sentimentos;

É quem me mata, e vida me está dando.

   

 

In "366 Poemas Que Falam de Amor"

Antologia organizada por Vasco Graça Moura,

Editora Quetzal 

 

Paulino António Cabral

(Abade de Jazente)

1719 – 1789  

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Sábado, 1 de Setembro de 2012

Recordando... Liberto Cruz

POEMA CONTRA A CIDADE

 

Aqui na cidade nossos dedos não acabam gestos

E a incauta presença nos suga

O esforçado mel de todos os dias.

 

São inúteis todos os rios de resina,

Todas as amoras maduras

Que pisámos, bravas,

No intervalo das estações.

 

As primeiras chuvas são apenas

Primeiras chuvas

E as crianças brincando são apenas

Crianças brincando.

 

Punhais de duas lâminas nos correm nas veias

E cavalos selvagens penetram

Em nosso corpo, até à raiz dos ossos.

 

Falsos, caminhamos, esmagados os olhos

Pela indiferença das árvores,

Pelo silêncio dos cisnes.

 

Aqui na cidade, talvez tudo seja o contrário,

Do que digo, do que escrevo,

Mas a amada perde-se em florestas de ar puro

E meus dedos não acabam gestos,

Não conseguem a calma da sua presença.

 

 

In “Poesia Reunida (1956 – 2011)”

Editora Palimage

 

Liberto Cruz

N. 1935

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