Sexta-feira, 31 de Agosto de 2012

Recordando... Pedro Homem de Mello

POVO

 

Povo que lavas no rio
Que vais às feiras e à tenda
Que talhas com teu machado
As tábuas do meu caixão,
Há-de haver quem te defenda,
Quem turve o teu ar sadio,
Quem compre o teu chão sagrado,
Mas a tua vida não!

 

Meu cravo branco na orelha!
Minha camélia vermelha!
Meu verde manjericão!
Ó natureza vadia!

Vejo uma fotografia...
Mas a tua vida, não!

Fui ter à mesa redonda,
Beber em malga que esconda
Um beijo, de mão em mão...
Água pura, fruto agreste,
Fora o vinho que me deste,
Mas a tua vida não!

 

Procissões de praia e monte,
Areais, píncaros, passos
Atrás dos quais os meus vão!
Que é dos cântaros da fonte?
Guardo o jeito desses braços...
Mas a tua vida, não!

 

Aromas de urze e de lama!
Dormi com eles na cama...
Tive a mesma condição.
Bruxas e lobas, estrelas!
Tive o dom de conhecê-las...
Mas a tua vida, não!

 

Subi às frias montanhas,
Pelas veredas estranhas
Onde os meus olhos estão.
Rasguei certo corpo ao meio...
Vi certa curva em teu seios...
Mas a tua vida, não!

 

Só tu! Só tu és verdade!
Quando o remorso me invade
E me leva à confissão...
Povo! Povo! eu te pertenço.
Deste-me alturas de incenso.
Mas a tua vida, não!

 

 

In “Miserere” – 1948

Editora Portugália

 

Pedro Homem de Mello

1904 – 1984

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Sábado, 25 de Agosto de 2012

Recordando... Herberto Hélder

FONTE II

 

No sorriso louco das mães batem as leves

gotas de chuva. Nas amadas

caras loucas batem e batem

os dedos amarelos das candeias.

Que balouçam. Que são puras.

Gotas e candeias puras. E as mães

aproximam-se soprando os dedos frios.

Seu corpo move-se

pelo meio dos ossos filiais, pelos tendões

e órgãos mergulhados,

e as calmas mães intrínsecas sentam-se

nas cabeças filiais.

Sentam-se, e estão ali num silêncio demorado e apressado,

vendo tudo,

e queimando as imagens, alimentando as imagens,

enquanto o amor é cada vez mais forte.

E bate-lhes nas caras, o amor leve.

O amor feroz.

E as mães são cada vez mais belas.

Pensam os filhos que elas levitam.

Flores violentas batem nas suas pálpebras.

Elas respiram ao alto e em baixo. São

silenciosas.

E a sua cara está no meio das gotas particulares

da chuva,

em volta das candeias. No contínuo

escorrer dos filhos.

As mães são as mais altas coisas

que os filhos criam, porque se colocam

na combustão dos filhos, porque

os filhos estão como invasores dentes-de-leão

no terreno das mães.

E as mães são poços de petróleo nas palavras dos filhos,

e atiram-se, através deles, como jactos

para fora da terra.

E os filhos mergulham em escafandros no interior

de muitas águas,

e trazem as mães como polvos embrulhados nas mãos

e na agudeza de toda a sua vida.

E o filho senta-se com a sua mãe à cabeceira da mesa,

e através dele a mãe mexe aqui e ali,

nas chávenas e nos garfos.

E através da mãe o filho pensa

que nenhuma morte é possível e as águas

estão ligadas entre si

por meio da mão dele que toca a cara louca

da mãe que toca a mão pressentida do filho.

E por dentro do amor, até somente ser possível

amar tudo,

e ser possível tudo ser reencontrado por dentro do amor.

 

 

“A Colher na Boca” – 1961

Editora Ática

 

In “Ler Por Gosto”

Areal Editores

 

Herberto Hélder

N. 1930

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Domingo, 19 de Agosto de 2012

Recordando... Ana Marques Gastão

ALIMENTO IMPERFEITO

 

Possa eu tornar-me pedra,

da pedra areia, da rocha

grão, do diamante brilho.

 

Endureça eu como concha

de água matricial, minério

de cobre, coração cristalino.

 

Seja eu alimento imperfeito

de clareza perfeita, mar denso,

condensado, astral e puro.

 

Seja eu mel coagulado

d’orvalho e ouro vivo.

 

 

In “Adornos”

Editorial Dom Quixote

 

Ana Marques Gastão

N. 1962

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Segunda-feira, 13 de Agosto de 2012

Recordando... Cristovam Pavia

ECLOGA OU

CANÇÄO ABANDONADA

 

Na folha bailada

Levada

No vento,

Vai meu pensamento…

 

Na cinza delida

Espargida

Pelo rio,

Vai meu olhar frio…

 

E no teu sorriso

Da mais lisa

Quietação...

O meu coração…

 

 

In “As Folhas de Poesia Távola Redonda"

Fundação Calouste Gulbenkian

Boletim Cultural – Série VI – n.º 11 – Outubro de 1988

 

Cristovam  Pavia  **

1933 – 1968

 

** Pseudónimo de Francisco António Lahmeyer Flores

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Terça-feira, 7 de Agosto de 2012

Recordando... Alberto Serpa

POEMA III

 

Como tu embriagas!

Vens, ó Poesia!, ou tumultuosa ou mansa,

Cerras o nosso olhar a estes tempos em chagas,

E canta dentro em nós uma esperança.

 

És uma irmã que deixa

A fresca mão na nossa testa ardente,

Depois da luta que engrandece a queixa

Que temos sempre contra tanta gente.

 

És aquela que chega

— Se o tédio em nossas almas se insinua —

Sempre fácil e pronta para a entrega

Mais total e mais nua.

 

És tu, poesia, quem

— Quando nos prendem boca, mãos e pés —

A coragem raivosa nos mantém,

Ciciando-nos: “Talvez...”

 

Que bem hajas! Aqui

E em toda a parte, nossos passos guia!

Por cada hora, sejamos mais de ti,

E tu, mais nossa, Poesia!

 

 

In “Pregão”1952

Edições Saber

 

Alberto Serpa

1906 – 1992

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Quarta-feira, 1 de Agosto de 2012

Recordando... Ana Luísa Amaral

ENCENAÇÕES E QUASE VOOS

 

Uma luz construída

ilumina

esses santos,

cada um sem o halo,

mas pombo circundante

na cabeça

 

São quatro santos no cimo

da igreja,

e cada um dos pombos escolheu

a face mais marcada,

os caracóis de pedra

que fossem mais macios

 

Talvez não sejam santos,

mas apóstolos, tão de barroco,

e o seu gosto a vestir:

um excesso de desvio

quase pecado

 

Apóstolos ou santos,

os pombos circundantes na cabeça

são halos delicados

que, julgando-se em céu,

vêem quase metade da cidade,

a meio: o rio e os telhados

de casas

 

Fingindo-se de mão a abençoar,

são adereço de um teatro

inteiro:

caos encenado

ou um perfil egípcio

 

E os caracóis solenes e sombrios

convidam ao pecado

e convocam-me aqui: noite de verão,

a liquidez do olhar:

 

Eu não poder,

em pedra,

abrir as asas

 

 

In “Se Fosse Um Intervalo”

Edições Dom Quixote

 

Ana Luísa Amaral

N. 1956

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