Sábado, 31 de Março de 2012

Recordando... Manuel Alegre

CANÇÃO TÃO SIMPLES

 

Quem poderá domar os cavalos do vento
quem poderá domar este tropel
do pensamento
à flor da pele?

Quem poderá calar a voz do sino triste
que diz por dentro do que não se diz
a fúria em riste
do meu país?

Quem poderá proibir estas letras de chuva
que gota a gota escrevem nas vidraças
pátria viúva
a dor que passas?

Quem poderá prender os dedos farpas
que dentro da canção fazem das brisas
as armas harpas
que são precisas?

 

 

In “O Canto e as Armas”

Publicações Dom Quixote

 

 

Manuel Alegre

N. 1936

 

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Domingo, 25 de Março de 2012

Recordando... Guilherme Braga

SÓ DEUS

 

Quem manda ao peregrino, afadigado

Das lides da romagem,

Um perfume da pátria, misturado

Doutros climas na aragem?

 

Quem lhe diz «Lá te espera o teu albergue

E os filhinhos e a esposa

Que a Deus por ti as mãos trémulas ergue

Em prece fervorosa?»

 

Quem ao nauta, perdido entre a procela,

Longe nos horizontes,

Mostra do raio à luz, rápida e bela,

Da sua aldeia os montes?

 

Quem lhe diz «No Senhor tem fé e espera

Que não tarda a bonança,

E sempre, mais e mais, nos seios gera

Nova, fecunda esperança?»

 

Quem aos órfãos do mundo abandonados,

Envia docemente,

Para aquecer-lhe os membros congelados,

Do sol um raio ardente?

 

Quem à viúva infeliz enxuga o pranto

Co’a mão da caridade

E lhe leva um consolo sacrossanto

Às trevas da orfandade?

 

Ao cativo, que chora entre as algemas

De infame tirania,

Quem diz «Bem cedo há-de raiar, não temas,

Da liberdade o dia?»

 

Vãs perguntas: Seu nome não se esconde,

Em tudo está presente...

Não ouves uma voz que te responde:

«É Deus! é Deus somente?!»

 

In ”A Grinalda”  *

 

Guilherme Braga

1845 – 1874  

 

* Foi um antigo (1855-1859) jornal portuense de poesia romântica.

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Segunda-feira, 19 de Março de 2012

Recordando... António Nobre

A NOSSA SENHORA

 

Ó mystica mulher, nascida na Judeia,

Phantasma espiritual da legenda christã!

Imperatriz do Céu, que para Além se alteia,

A Nação de que a Terra é uma pequena aldeia,

E simples logarejo a Estrella-da-manhã!

Morena aldeã dos arredores de Belem!

Mãe admiravel! Mãe do Soffrimento humano!

Mãe das campínas! Mãe da Lua! Mãe do Oceano!

Ó Mãe de todos nós! Ó Mãe de minha Mãe!

Vela do Altar! Caza de Oiro! Arca da Alliança!

Rede do Pescador! Lanterna do ceguinho!

Ó meu primeiro amor! Minha ultima Esperança!

Amparo de quem vae pela existencia, e cança!

Oblação pura! Silva de ais! Vela de Moinho!

Meu Sete Estrello! Mar de leite! Meu Thesoiro!

Palacio de David! Ó Torre de Marfim!

Anjo da Perfeição! cujo cabello loiro,

Caído para traz, lembra uma vinha de oiro,

Que eu desejara vêr aos cachos sobre mim…

Grão das searas! Sol d’Abril! Luar de Janeiro!

Luar que ruge os cravos, sol que faz corar a vide…

Alimento dos Bons! Farinha do moleiro!

Auxilio dos christãos! Vela do marinheiro!

Porta do Céu! Gloria da caza de David!

Sol dos soes! Ancora eburnea! Águia do Immenso!

Vinho de uncção! Pão de luz! Trigo dos Eleitos!

Ideal, por quem, a esta hora, em todo o Mundo, eu penso,

No Ar se ergue, em espiraes, um nevoeiro de incenso,

E desgraçados, aos milhões, batem nos peitos…

Ó Fonte de Bondade! Ó Fonte de meus dias!

Vaso de insigne Devoção! Onda do Mar!

Corôa do Universo! Aza das cotovias!

Ogiva ideal! Cauza das nossas alegrias!

Ó Choupo sancto! Ó Flôr do linho! Ó nuvem do Ar.

Carne, de Christo! Cidadella de altos muros!

Sanctuario da Fé. Lancha de Salvação!

Alma do Mundo! Avó dos seculos futuros!

Fortaleza da Paz! Via-Lactea dos Puros!

Monte de Jaspe! Roza mystica! Alvo Pão!

Sangue do leal Jezus! Cadeira da Verdade!

Vime celeste! Agoa do Mar! Pérola Unica!

Mulher com vinte seculos de edade

E sempre linda mocidade

Pelas ruas do céu, passas, cingindo a tunica…

Cesto de Flôres, Advogada Nossa!

Alveu de espuma! Cotovia dos Amantes!

Escada de Jacob! Sol da Sabedoria!

Rainha dos Mundos! Pão nosso de cada dia!

Ó veu das noivas! Ó Pharol dos navegantes!

Ó Leme da Arca-Sancta! Ó Cruz dos sitios ermos!

Toalha de linho! Hostia de luz! Cálix da Missa!

Modelo da Pureza! Espelho da Justiça!

Estrella da Manhã! Saude dos enfermos!

Ó Virgem Poderoza! Ó Virgem Clementissima!

Ó Virgem Soffredora! Ó Virgem Protectora!

Ó Virgem Piedoza! Ó Virgem Perfeitisima!

Virgem das Virgens! Minha Mãe! Nossa Senhora!

 

 

Coimbra, 1889

 

In “Primeiros Versos” – 2ª edição

Biblioteca de Iniciação Literária

Lello e Irmão – 1984 

 

António Nobre

1867 – 1900

 

 

MANTÉM A GRAFIA ORIGINAL

 

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Terça-feira, 13 de Março de 2012

Recordando... Guilherme de Azevedo

EIS A VELHA CIDADE!

 

Eis a velha cidade! a cortesã devassa,
A velha imperatriz da inércia e da cubicar,
Que da torpeza acorda e á pressa corre á missa!
Baixando o olhar incerto em frente de quem passa!

Ella estreita no seio a velha populaça,
Nas vis dissoluções da lama e da preguiça,
E nunca o santo impulso, o grito da Justiça,
Lhe fez estremecer a fibra inerte e lassa!

E póde receber o beijo e a bofetada
Sem que sinta o rubor da cólera sagrada
Acender-lhe na face as duas rosas belas!

Somente d'um sorriso alvar e desonesto,
Ás vezes, acompanha o provocante gesto
Quando soa a guitarra, á noite, nas vielas!

 

 

In “A Alma Nova”

I. N. – Casa da Moeda

 

Guilherme de Azevedo

1839 – 1882  

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Quarta-feira, 7 de Março de 2012

Recordando... João de Deus

BEIJO

 

Beijo na face
Pede-se e dá-se:
   Dá?
Que custa um beijo?
Não tenha pejo:
   Vá!

 

Um beijo é culpa,
Que se desculpa:
   Dá?
A borboleta
Beija a violeta
   Vá!

 

Um beijo é graça,
Que a mais não passa:
   Dá?
Teme que a tente?
É inocente...
   Vá!

 

Guardo segredo,,
Não tenha medo...
   Vê?
Dê-me um beijinho,
Dê de mansinho,
   Dê!

 

Como ele é doce!
Como ele trouxe,
   Flor!
Paz a meu seio;
Saciar-me veio,
   Amor!

 

Saciar-me? louco...
Um é tão pouco,

   Flor!
Deixa, concede
Que eu mate a sede,
   Amor!

 

Talvez te leve
O vento em breve,
   Flor!
A vida foge,
A vida é hoje,
   Amor!

 

Guardo segredo,
Não tenhas medo
   Pois!
Um mais na face,
E a mais não passe!
   Dois...

 

Oh! dois? piedade!
Coisas tão boas...
   Vês?
Quantas pessoas
Tem a Trindade?
   Três!

 

Três é a conta
Certinha e justa...
   Vês?
E o que te custa?
Não sejas tonta!
   Três!

 

Três, sim. Não cuides
Que te desgraças:
   Vês?
Três são as Graças,
Três as Virtudes,
   Três.

 

As folhas santas
Que o lírio fecha,
   Vês?
E não o deixam
Manchar, são... quantas?
   Três!

 

 

In “Flores do Campo”

2ª edição – 1876

Livraria Universal de Magalhães & Moniz, Editores

 

João de Deus

1830 – 1896

 

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Quinta-feira, 1 de Março de 2012

Recordando... Rosa Lobato de Faria

BOM  DIA

 

Não há magia como Bom dia

Para começar bem a manhã.

Dá alegria, dá energia

esta magia feliz e sã.

 

Bom dia Mãe, Bom dia Pai.

Bom dia Avó, Bom dia Avô.

Bom dia manos, Bom dia Gato.

Bom dia, dia que começou.

 

E aquele velhinho que não tem nada

que anda perdido pelo caminho

ouviu Bom dia, ficou calado

mas já se sente menos sozinho.

 

 

In “ABC das Coisas Mágicas”

Edições ASA

 

Rosa Lobato de Faria

1932 – 2010

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