Terça-feira, 31 de Janeiro de 2012

Recordando... Sebastião da Gama

SOMOS ASSIM AOS DEZASSETE

 

Somos assim aos dezassete.

Sabemos lá que a Vida é ruim!

A tudo amamos, tudo cremos.

Aos dezassete eu fui assim.

 

Depois, Acilda, os livros dizem,

Dizem os velhos, dizem todos:

«A Vida é triste! A Vida leva,

A um e um, todos os sonhos.»

 

Deixá-los lá falar os velhos,

Deixá-los lá… A Vida é ruim?

Aos vinte e seis eu amo, eu creio.

Aos vinte e seis eu sou assim.

 

 

In “Pelo Sonho é que Vamos”

Editora Ática

 

Sebastião da Gama

1924 – 1952

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Quarta-feira, 25 de Janeiro de 2012

Recordando... Afonso Duarte

CABELOS BRANCOS

 

Cobrem-me as fontes já cabelos brancos,
Não vou a festas. E não vou, não vou.
Vou para a aldeia, com os meus tamancos,
Cuidar das hortas. E não vou, não vou.

Cabelos brancos, vá, sejamos francos,
Minha inocência quando os encontrou
Era um mistério vê-los: Tive espantos
Quando os achei, menino, em meu avô.

Nem caiu neve, nem vieram gelos:
Com a estranheza ingénua da mudança,
Castanhos remirava os meus cabelos;

E, atento à cor, sem ter outra lembrança,
Ruços cabelos me doía vê-los...
E fiquei sempre triste de criança.

 

In "Ossadas" – 1947

Afonso Duarte

1884 – 1958 

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Quinta-feira, 19 de Janeiro de 2012

Recordando... Maria do Rosário Pedreira

NÃO ADORMEÇAS

 

Não adormeças: o vento ainda assobia no meu quarto

e a luz é fraca e treme e eu tenho medo

das sombras que desfilam pelas paredes como fantasmas

da casa e de tudo aquilo com que sonhes.

 

Não adormeças já. Diz-me outra vez do rio que palpitava

no coração da aldeia onde nasceste, da roupa que vinha

a cheirar a sonho e a musgo e ao trevo que nunca foi

de quatro folhas; e das ervas húmidas e chãs

com que em casa se cozinham perfumes que ainda hoje

te mordem os gestos e as palavras.

 

O meu corpo gela à míngua dos teus dedos, o sol vai

demorar-se a regressar. Há tempo para uma história

que eu não saiba e eu juro que, se não adormeceres,

serei tão leve que não hei-de pesar-te nunca na memória,

como na minha pesará para sempre a pedra do teu sono

se agora apenas me olhares de longe e adormeceres.

 

 

In “A Casa e o Cheiro dos Livros”

Edições Quetzal – 1996

 

Maria do Rosário Pedreira

N.1959

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Sexta-feira, 13 de Janeiro de 2012

Recordando... Natália Correia

SETE LUAS

 

Há noites que são feitas dos meus braços
e um silêncio comum às violetas
e há sete luas que são sete traços
de sete noites que nunca foram feitas

Há noites que levamos à cintura
como um cinto de grandes borboletas.
E um risco a sangue na nossa carne escura
duma espada à bainha de um cometa.

Há noites que nos deixam para trás
enrolados no nosso desencanto
e cisnes brancos que só são iguais
à mais longínqua onda de seu canto.

Há noites que nos levam para onde
o fantasma de nós fica mais perto:
e é sempre a nossa voz que nos responde
e só o nosso nome estava certo.

 

 

Dimensão Encontrada – 1957  

Edição da Autora

 

Natália Correia

1923 – 1993

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Sábado, 7 de Janeiro de 2012

Recordando... Soror Violante do Céu

SE POR NÃO ME LEMBRAR DE UM CROCODILO

Se por não me lembrar de um crocodilo,
Que matar-me intentou com falso pranto,
Pudera sujeitar-me a rigor tanto,
Que habitara com os mais no egípcio Nilo.

 

Se por não me acordar daquele estilo,
Que foi já por meu mal infausto encanto,
Pudera padecer, causando espanto,
Quantos tormentos inventou Perilo.

 

Tudo passara enfim, tudo fizera
Por não me vir jamais ao pensamento
Quem fingindo chorou, matou fingido.

 

Mas que raro tormento não quisera,
Quem julga só pelo maior tormento,
A lembrança menor de um fementido.

 

 

In "Antologia da Poesia do Período Barroco",

Moraes Editores, 1982 – Lisboa, Portugal.

 

Soror Violante do Céu
1602 – 1693

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Domingo, 1 de Janeiro de 2012

Recordando... Adolfo Casais Monteiro

VEM VENTO, VARRE

 

Vem vento, varre

sonhos e mortos. 

Vem vento, varre

medos e culpas. 

Quer seja dia,

quer faça treva,

varre sem pena,

leva adiante

paz e sossego,

leva contigo

nocturnas preces,

presságios fúnebres,

pávidos rostos

só covardia.

Que fique apenas

erecto e duro

o tronco estreme

de raiz funda. 

Leva a doçura,

se for preciso:

ao canto fundo

basta o que basta.                  

 

Vem vento, varre!   

 

 

In “Noite Aberta Aos Quatro Ventos – Líricas Portuguesas”

Portugália Editora

 

Adolfo Casais Monteiro

1908 – 1972

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