Quarta-feira, 30 de Novembro de 2011

Recordando... José Alberto de Oliveira

A REGRA DO JOGO

 

Adivinham-se tempos difíceis:
a obsessão apoderou-se das tribos;
uma vírgula pode ser um crime,
a ameaça esconde-se numa frase incompleta.
Os jornais encheram-se de notícias peregrinas,
os editoriais ponderam. Murmura-se
nas fileiras, a especulação prospera.
Com um salário que é como mau tecido,
depois da primeira lavagem, o funcionário público
poupa na fruta, no tabaco, no queijo. Amanhã,
de comboio, a História enfrentará o seu destino,
ou, pelo menos, uma cópia que levará tempo
(medido em lustros) a rasurar.

 

 

In “Nada Tão Importante, Que Não Possa Ser Dito”

Assírio & Alvim – 2007  

 

José Alberto de Oliveira

N. 1952

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Sexta-feira, 25 de Novembro de 2011

Recordando... António Ferreira

Ó ALMA PURA ENQUANTO CÁ VIVIAS

(À morte da esposa)

Ó alma pura enquanto cá vivias,
Alma, lá onde vives, já mais pura,
Porque me desprezaste? Quem tão dura
Te tornou ao amor, que me devias?

Isto era, o que mil vezes prometias,
Em que minh’alma estava tão segura,

Que ambos juntos da hora desta escura
Noute nos subiria aos claros dias?

Como em tão triste cárcere me deixaste?
Como pude eu sem mim deixar partir-te?
Como vive este corpo sem sua alma?

Ah! que o caminho tu bem mo mostraste,
Porque correste à gloriosa palma!
Triste de quem não mereceu seguir-te!

 

 

In “Poemas Lusitanos” – 1598

Mandado publicar por seu filho, Miguel Leite Ferreira

 

António Ferreira

1528 – 1569

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Sábado, 19 de Novembro de 2011

Recordando... Mário Dionísio

UMA SOMBRA OUTRA SOMBRA A NOITE DESCE

 

Uma sombra outra sombra a noite desce
uma sombra a noite desce
sobre telhados que não vejo
entra nas casas onde a esperam sem saber
da solidão gomosa que as trespassa e me trespassa
a mim que não a espero e não desejo

e a sinto sem a ver descer entre altos ramos
ouvindo um fio de musgo e susto que em seguida
me faz olhar o céu

Céu de incerteza beleza mutilada
na mesma claridade que floresce um só instante mais
enquanto morre

Céu de sereno sono com clarões baços e abandono e medo
e a vagarosa trémula, neblina que escorre e se desprende
o só calor real e só possível do que é imenso e impossível
no ansioso terror de nunca mais

Iluminam-se as ruas
enquanto sobre nós e em nós a noite desce cresce
e nos envolve e nos liberta e prende

Mas aqui onde estamos
já não estamos
que sem cartão de identidade e de mãos nuas
desafiando a noite e a confusão tentacular dos ramos
onde julgam que estamos
sem princípio e sem fim anónimos voamos


(Memória Dum Pintor Desconhecido)

 

In “Poesia Incompleta”

Publicações Europa-América

 

Mário Dionísio

1916 – 1993

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Domingo, 13 de Novembro de 2011

Recordando... Maria Irene Costa

CHUVISCO

 

Que saudade, meu amor,

Daquela chuva miudinha

Que era tua e era minha,

Que molhava nosso rosto,

Em pleno mês de Agosto!

 

Hoje deitado à lareira,

Ping, ping na caleira

Contigo ao fogo enlaçado,

Sonho ainda acordado,

Com as lágrimas na folhagem,

Ping, ping, não é miragem

(Que felizes, Deus meu!).

 

E a chuva miudinha

Continua tua e minha,

Mas já não molha nosso rosto

E não estamos em Agosto!

 

 

In “O Livro da Nena” – Fevereiro de 2008

Papiro Editora

 

Maria Irene Costa

N. 1951

 

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Segunda-feira, 7 de Novembro de 2011

Recordando... Anrique Paço D’Arcos

SAUDADE É O QUERER VIVER O JÁ VIVIDO

 

Saudade é querer viver o já vivido,
Querer amar e ter amado já…
Sentindo o coração anoitecido,
Querer beijar a luz que o sol lhe dá.

Saudade é ver fugir o bem perdido,
Não podendo ir com ele onde ele vá;
Ai, saudade afinal é ter nascido
Na certeza que a vida acabará!

Horizontes sem fim, novas paisagens…
Saudade é vago espelho onde as imagens
Têm vida para além da realidade.

Saudade é tudo enfim que me rodeia;
Um relevo de passos pela areia;
A morte, a vida, o amor, tudo é saudade…

 

 

Divina Tristeza – 1926

 

 

In “Poesia Completa” – 2.ª edição

(Biblioteca de Autores Portugueses)

Imprensa Nacional – Casa da Moeda

 

Anrique Paço D’Arcos*
1906 – 1993

 

 

 

* (Pseudónimo de Henrique Belford Correia da Silva – Conde de Paço D’Arcos)

 

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Terça-feira, 1 de Novembro de 2011

Recordando... Daniel Faria

HÁ UMA MULHER A MORRER SENTADA

 

Há uma mulher a morrer sentada
Uma planta depois de muito tempo
Dorme sossegadamente
Como cisne que se prepara
Para cantar

Ela está sentada à janela. Sei que nunca
Mais se levantará para abri-la
Porque está sentada do lado de fora
E nenhum de nós pode trazê-la para dentro

Ela é tão bonita ao relento
Inesgotável

É tão leve como um cisne em pensamento
E está sobre as águas
É um nenúfar, é um fluir já anterior
Ao tempo

Sei que não posso chamá-la das margens


In “Dos Líquidos”

Fundação Manuel Leão – Porto – 2000

 

Daniel Faria

1971 – 1999

 

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