Quinta-feira, 30 de Junho de 2011

Recordando... Álvaro de Campos/Fernando Pessoa

BICARBONATO DE SODA

 

Súbita, uma angústia... 
Ah, que angústia, que náusea do estômago à alma! 
Que amigos que tenho tido! 
Que vazias de tudo as cidades que tenho percorrido! 
Que esterco metafísico os meus prpósitos todos! 

 

Uma angústia,  
Uma desconsolação da epiderme da alma,  
Um deixar cair os braços ao sol-pôr do esforço... 
Renego. 
Renego tudo. 
Renego mais do que tudo. 
Renego a gládio e fim todos os Deuses e a negação deles. 
Mas o que é que me falta, que o sinto faltar-me no estômago e na circulação do sangue? 

Que atordoamento vazio me esfalfa no cérebro? 

 

Devo tomar qualquer coisa ou suicidar-me? 
Não: vou existir.  Arre!  Vou existir. 
E-xis-tir... 

E--xis--tir ... 

 

Meu Deus!  Que budismo me esfria no sangue! 
Renunciar de portas todas abertas, 
Perante a paisagem todas as paisagens, 

Sem esperança, em liberdade, 
Sem nexo, 

Acidente da inconsequência da superfície das coisas, 
Monótono mas dorminhoco, 
E que brisas quando as portas e as janelas estão todas abertas! 
Que verão agradável dos outros! 

 

Dêem-me de beber, que não tenho sede!

 

 

Poesias de Álvaro Campos

 

In “Fernando Pessoa – Antologia Poética” – 3ª. Edição

Biblioteca Ulisses de Autores Portugueses

Editora Ulisses

 

Álvaro de Campos/Fernando Pessoa

1890 – 1935

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Sábado, 25 de Junho de 2011

Recordando... Fernando Pessoa

BÓIAM LEVES, DESATENTOS

 

Bóiam leves, desatentos

Meus pensamentos de mágoa,

Como, no sono dos ventos,

As algas, cabelos lentos

Do corpo morto das aguas.

 

Bóiam como folhas mortas,

À tona de águas paradas.

São coisas vestindo nadas,

Pós remoinhando nas portas

Das casas abandonadas.

 

Sono de ser, sem remédio,

Vestígio do que não foi,

Leve mágoa, breve tédio,

Não sei se para, se flui,

Não sei se existe ou se dói.

 

 

“Cancioneiro”

 

In “Fernando Pessoa – Antologia Poética”

3ª. Edição – Biblioteca Ulisses de Autores Portugueses

Editora Ulisses

 

Fernando Pessoa

1888 – 1935

 

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Domingo, 19 de Junho de 2011

Recordando... Alberto Caeiro/Fernando Pessoa

SE DEPOIS DE EU MORRER

 

Se depois de eu morrer, quiserem escrever a minha biografia, 
Não há nada mais simples
Tem só duas datas – a  da minha nascença e a da minha morte.  
Entre uma e outra coisa todos os dias são meus.

Sou fácil de definir.
Vi como um danado.
Amei as cousas sem sentimentalidade nenhuma. 
Nunca tive um desejo que não pudesse realizar, porque nunca ceguei. 
Mesmo ouvir nunca foi para mim senão um acompanhamento de ver.   
Compreendi que as coisas são reais e todas diferentes umas das outras; 
Compreendi isto com os olhos, nunca com o pensamento. 
Compreender isto corri o pensamento seria achá-las todas iguais. 

Um dia deu-me o sono como a qualquer criança. 
Fechei os olhos e dormi. 
Além disso, fui o único poeta da Natureza. 

 

 

“Poemas Inconjuntos”

 

In “Fernando Pessoa – Antologia Poética”

3ª. Edição – Biblioteca Ulisses de Autores Portugueses

Editora Ulisses

 

Alberto Caeiro/Fernando Pessoa

1889 – 1915

 

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Segunda-feira, 13 de Junho de 2011

Recordando... Fernando Pessoa

O ANDAIME

 

O tempo que eu hei sonhado
Quantos anos foi de vida!
Ah, quanto do meu passado
Foi só a vida mentida
De um futuro imaginado! 

 

Aqui à beira do rio
Sossego sem ter razão.
Este seu correr vazio
Figura, anónimo e frio,
A vida vivida em vão. 

 

A 'sp'rança que pouco alcança!
Que desejo vale o ensejo?
E uma bola de criança
Sobe mais que minha 's'prança,
Rola mais que o meu desejo. 

 

Ondas do rio, tão leves
Que não sois ondas sequer,
Horas, dias, anos, breves
Passam – verduras ou neves
Que o mesmo sol faz morrer.  

 

Gastei tudo que não tinha.
Sou mais velho do que sou.
A ilusão, que me mantinha,
Só no palco era rainha:
Despiu-se, e o reino acabou.  

 

Leve som das águas lentas,
Gulosas da margem ida,
Que lembranças sonolentas
De esperanças nevoentas!
Que sonhos o sonho e a vida! 

 

Que fiz de mim? Encontrei-me
Quando estava já perdido.
Impaciente deixei-me
Como a um louco que teime
No que lhe foi desmentido. 

 

Som morto das águas mansas
Que correm por ter que ser,
Leva não só lembranças,

Mas as mortas esperanças –
Mortas, porque hão de morrer. 

 

Sou já o morto futuro.
Só um sonho me liga a mim –  
O sonho atrasado e obscuro
Do que eu devera ser – muro  
Do meu deserto jardim. 

 

Ondas passadas, levai-me
Para o olvido do mar!
Ao que não serei legai-me,
Que cerquei com um andaime
A casa por fabricar. 

 

 

“Cancioneiro”

 

In “Fernando Pessoa – Antologia Poética”

3ª. Edição – Biblioteca Ulisses de Autores Portugueses

Editora Ulisses

 

Fernando Pessoa

1888 – 1935


 

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Terça-feira, 7 de Junho de 2011

Recordando... Ricardo Reis/Fernando Pessoa

ACIMA DA VERDADE

 

Acima da verdade estão os deuses.

A nossa ciência é uma falhada cópia

Da certeza com que eles

Sabem que há o Universo.

 

Tudo é tudo, e mais alto estão os deuses,

Não pertence à ciência conhecê-los,

Mas adorar devemos

Seus vultos como às flores,

 

Porque visíveis à nossa alta vista,

São tão reais como reais as flores

E no seu calmo Olimpo

São outra Natureza.

 

 

Odes de Ricardo Reis

 

In “Fernando Pessoa – Antologia Poética” – 3ª. Edição

Biblioteca Ulisses de Autores Portugueses

Editora Ulisses

 

Ricardo Reis/Fernando Pessoa

1887 – 1935

 

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Quarta-feira, 1 de Junho de 2011

Recordando... Fernando Pessoa

O ÚLTIMO SORTILÉGIO

 

"Já repeti o antigo encantamento,
E a grande Deusa aos olhos se negou.
Já repeti, nas pausas do amplo vento,
As orações cuja alma é um ser fecundo.
Nada me o abismo deu ou o céu mostrou.
Só o vento volta onde estou toda e só,
E tudo dorme no confuso mundo.

 

"Outrora meu condão fadava as sarças
E a minha evocação do solo erguia
Presenças concentradas das que esparsas
Dormem nas formas naturais das coisas.
Outrora a minha voz acontecia.
Fadas e elfos, se eu chamasse, via,
E as folhas da floresta eram lustrosas.

 

"Minha varinha, com que da vontade
Falava às existências essenciais,
Já não conhece a minha realidade.
Já, se o círculo traço, não há nada.
Murmura o vento alheio extintos ais,
E ao luar que sobe além dos matagais
Não sou mais do que os bosques ou a estrada.

 

"Já me falece o dom com que me amavam.
Já me não torno a forma e o fim da vida
A quantos que, buscando-os, me buscavam.
Já, praia, o mar dos braços não me inunda.
Nem já me vejo ao sol saudado erguida,
Ou, em êxtase mágico perdida,
Ao luar, à boca da caverna funda.

 

"Já as sacras potências infernais,
Que, dormentes sem deuses nem destino,
À substância das coisas são iguais,
Não ouvem minha voz ou os nomes seus,
A música partiu-se do meu hino.
Já meu furor astral não é divino
Nem meu corpo pensado é já um deus.

 

"E as longínquas deidades do atro poço,
Que tantas vezes, pálida, evoquei
Com a raiva de amar em alvoroço,
Inevocadas hoje ante mim estão.
Como, sem que as amasse, eu as chamei,
Agora, que não amo, as tenho, e sei
Que meu vendido ser consumirão.

 

“Tu, porém, Sol, cujo ouro me foi presa,
Tu, Lua, cuja prata converti
Se já não podeis dar-me esta beleza
Que tantas vezes tive por querer,
Ao menos meu ser findo dividi –
Meu ser essencial se perca em si,
Só meu corpo sem mim fique alma e ser!

 

"Converta-me a minha última magia
Numa estátua de mim em corpo vivo!
Morra quem sou, mas quem me fiz e havia,
Anónima presença que se beija,
Carne do meu abstracto amor cativo,
Seja a morte de mim em que revivo;
E tal qual fui, não sendo nada, eu seja!"

 

 

Cancioneiro

 

In “Fernando Pessoa – Antologia Poética”

3ª. Edição – Biblioteca Ulisses de Autores Portugueses

Editora Ulisses

 

Fernando Pessoa

1888 – 1935

 

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