Terça-feira, 31 de Maio de 2011

Recordando... António Aleixo

MOTE

Tu és pura e imaculada,
Cheia de graça e beleza;
Tu és a flor minha amada,
És a gentil camponesa.

GLOSAS

És tu que não tens maldade,
És tu que tudo mereces,
És, sim, porque desconheces
As podridões da cidade.
Vives aí nessa herdade,
Onde tu foste criada,
Aí vives desviada
Deste viver de ilusão:
És como a rosa em botão,
Tu és pura e imaculada.

És tu que ao romper da aurora
Ouves o cantor alado...
Vestes-te, tratas do gado
Que há-de ir tirar água à nora;
Depois, pelos campos fora,
É grande a tua pureza,
Cantando com singeleza,
O que ainda mais te realça,
Exposta ao sol e descalça,
Cheia de graça e beleza.

Teus lábios nunca pintaste,
És linda sem tal veneno;
Toda tu cheiras a feno
Do campo onde trabalhaste;
És verdadeiro contraste
Com a tal flor delicada
Que só por muito pintada
Nos poderá parecer bela;
Mas tu brilhas mais do que ela,
Tu és a flor minha amada.

Pois se te tenho na mão,
Inda assim acho tão pouco,
Que sinto um desejo louco:
Guardar-te no coração!...
As coisas mais belas são
Como as cria a Natureza,
E tu tens toda a grandeza
Dessa beleza que almejo,
Tens tudo quanto desejo,
És a gentil camponesa

 

In "Este Livro que Vos Deixo..." – Inéditos 

Volume II – 3ª edição

Editorial Notícias

António Aleixo

1899 – 1949  

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Quarta-feira, 25 de Maio de 2011

Recordando... Cesário Verde

HUMILHAÇÕES

 

Esta aborrece quem é pobre. Eu, quase Job,
Aceito os seus desdéns, seus ódios idolatro-os;
E espero-a nos salões dos principais teatros,
Todas as noites, ignorado e só.

Lá cansa-me o ranger da seda, a orquestra, o gás;
As damas, ao chegar, gemem nos espartilhos,
E enquanto vão passando as cortesãs e os brilhos,
Eu analiso as peças no cartaz.

Na representação dum drama de Feuillet,
Eu aguardava, junto à porta, na penumbra,
Quando a mulher nervosa e vã que me deslumbra
Saltou soberba o estribo do coupé.

Como ela marcha! Lembra um magnetizador.
Roçavam no veludo as guarnições das rendas;
E, muito embora tu, burguês, me não entendas,
Fiquei batendo os dentes de terror.

Sim! Porque não podia abandoná-la em paz!
Ó minha pobre bolsa, amortalhou-se a ideia
De vê-la aproximar, sentado na plateia,
De tê-la num binóculo mordaz!

Eu ocultava o fraque usado nos botões;
Cada contratador dizia em voz rouquenha:
— Quem compra algum bilhete ou vende alguma senha?
E ouviam-se cá fora as ovações.

Que desvanecimento! A pérola do Tom!
As outras ao pé dela imitam de bonecas;
Têm menos melodia as harpas e as rabecas,
Nos grandes espectáculos do Som.

Ao mesmo tempo, eu não deixava de a abranger;
Via-a subir, direita, a larga escadaria
E entrar no camarote. Antes estimaria
Que o chão se abrisse para me abater.

Saí; mas ao sair senti-me atropelar.
Era um municipal sobre um cavalo. A guarda
Espanca o povo. Irei-me; e eu, que detesto a farda,
Cresci com raiva contra o militar.

De súbito, fanhosa, infecta, rota, má,
Pôs-se na minha frente uma velhinha suja,
E disse-me, piscando os olhos de coruja:
— Meu bom senhor! Dá-me um cigarro? Dá?...

 

 

In “Cânticos do Realismo e Outros Poemas – 32 Cartas”

Edição: Teresa Sobral Cunha

Relógio D’Água Editores – Março 2006

 

Cesário Verde

1855 – 1886

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Quinta-feira, 19 de Maio de 2011

Recordando... Adília Lopes

NÃO GOSTO TANTO

 

Não gosto tanto
de livros
como Mallarmé
parece que gostava
eu não sou um livro
e quando me dize
gosto muito de seus livros
gostava de poder dizer
como o poeta Cesariny
olha
eu gostava
é que tu gostasses de mim
os livros não são feitos
de carne e osso
e quando tenho
vontade de chorar
abrir um livro
não me chega
preciso de um abraço
mas graças a Deus
o mundo não é um livro
e o acaso não existe
no entanto gosto muito
de livros
e acredito na Ressurreição
dos livros
e acredito que no Céu
haja bibliotecas
e se possa ler e escrever.


In “De Florbela Espanca espanca”

Black Sun Editores

 

Adília Lopes

N. 1960

 

 

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Sexta-feira, 13 de Maio de 2011

Recordando... Alberto de Serpa

MAR MORTO

 

A noite caiu sobre o cais, sobre o mar, sobre mim...

As ondas fracas, contra o molhe, são vozes calmas de afogados.

O luar marca uma estrada clara e macia nas águas,

mas os barcos que saem podem procurar mais noite,

e com as suas luzes vão pôr mais estrelas além ...

O vento foi para outros cais levar o medo,

e as mulheres, que vêm dizer adeus e cantar,

hoje sabem canções com mais esperança,

canções mais fortes que a ressaca,

canções sem pausas onde passe uma sombra da morte...

Velhos marítimos — a terra é já a sua terra —

olham o mar mais distante e têm maior saudade...

Pára o rumor duns remos...

Não vão mais às estrelas as canções com noite, amor e morte...

Penso em todos os que foram e andam no mar,

em todos os que ficam e andam no mar também ...

E a luz do farol, lá longe, diz talvez...

 

 

In “Pregão” – 1952

Edições Saber

 

Alberto de Serpa

1906 – 1992  

 

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Sábado, 7 de Maio de 2011

Recordando... Alexandre O'Neill

HÁ PALAVRAS QUE NOS BEIJAM

 

Há palavras que nos beijam

Como se tivessem boca.

Palavras de amor, de esperança,

De imenso amor, de esperança louca.

 

Palavras nuas que beijas

Quando a noite perde o rosto;

Palavras que se recusam

Aos muros do teu desgosto.

 

De repente coloridas

Entre palavras sem cor,

Esperadas inesperadas

Como a poesia ou o amor.

 

(O nome de quem se ama

Letra a letra revelado

No mármore distraído

No papel abandonado)

 

Palavras que nos transportam

Aonde a noite é mais forte,

Ao silêncio dos amantes

Abraçados contra a morte.

 

 

In “No Reino da Dinamarca”

Editora Relógio D'Água

 

Alexandre O'Neill

1924 – 1986  

 

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Domingo, 1 de Maio de 2011

Recordando... António de Sousa

CANTATA DO MAU MARINHEIRO

 

Em Calicut, uma vez,

o grande Vasco da Gama

pôs-me a ferros no porão.

Não por pena de traição

mas por eu passar na cama

trinta dias, cada mês.

 

Se retroava a bombarda

para acossar a moirisma

– a cambulhada casmurra -

eu dedilhava a bandurra,

recatando a minha cisma

ao anjo da minha guarda.

 

Quando o Santelmo chispava,

nos tops de popa a proa,

agoiros de calmaria,

eu ao bailique pedia

o caminho de Lisboa

e o corpo da minha escrava.

 

Quando a água escasseou,

a bolacha criou bicho

e o vinho já ia azedo,

eu nunca tremi de medo:

fiquei-me em santo de nicho

que a si mesmo se salvou.

 

Mas se o mar fazia espuma,

o vento cuspia pragas

e a nau parecia um trambolho,

já, do sono, abria um olho,

piscava-o de manso às vagas

– Que, enfim, a vida é só uma!

 

(Sei que a morte me não quer

enquanto andar embarcado,

só pecando em pensamento.

Porém sou primo do vento

e no seu corpo salgado

o mar é minha mulher...)

 

Não fui herói como os mais,

mas o almirante do rei

acabou por perdoar.

É que eu tinha de ficar

só nos trabalhos que sei

p`ra lhe dar estes sinais!

 

(A nau voltou a Belém

e eu, felizmente, estou bem!)

 

 

In “Jangada”

Coimbra Editor

 

António de Sousa

1898 – 1981  

 

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