Segunda-feira, 28 de Fevereiro de 2011

Recordando... Manuel Maria de Barbosa du Bocage

LIBERDADE, ONDE ESTÁS?...

 

Liberdade, onde estás? Quem te demora?
Quem faz que o teu influxo em nós não caia?
Porque (triste de mim!), porque não raia
Já na esfera de Lísia a tua aurora?


Da santa redenção é vinda a hora
A esta parte do mundo, que desmaia.
Oh! Venha… Oh! Venha, e trémulo descaia
Despotismo feroz, que nos devora!


Eia! Acode ao mortal que, frio e mudo,
Oculta o pátrio amor, torce a vontade,
E em fingir, por temor, empenha estudo.


Movam nossos grilhões tua piedade;
Nosso númen tu és, e glória, e tudo,
Mãe do génio e prazer, oh Liberdade!

 

 

In "Clássicos Portugueses – Trechos Escolhidos – Sonetos"

Liv. Clássica Editora – Lisboa – 1961 

 

Manuel Maria de Barbosa du Bocage

1765 – 1805

 

Númem: Divindade, Deus

 

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Sexta-feira, 25 de Fevereiro de 2011

Recordando... Luís de Camões

SE A NINGUÉM TRATAIS COM DESAMOR

Se a ninguém tratais com desamor,
Antes a todos tendes afeição,
E se a todos mostrais um coração
Cheio de mansidão, cheio de amor;

Desde de hoje me tratai com desfavor,
Mostrai-me um ódio esquivo, uma isenção,
Poderei acabar de crer então
Que somente a mim me dais favor.

Que se tratais a todos brandamente,
Claro é que aquele é só favorecido
A quem mostrais irado o continente.

Mal poderei eu ser de vós querido
Se tendes outro amor nalgum presente,
Que amor é um, não pode ser partido.

 

 

In “Sonetos Amorosos”

Livraria Estante Editora – Abril de 1987

 

Luís de Camões

1524? – 1580

 

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Segunda-feira, 21 de Fevereiro de 2011

Recordando... Adília Lopes

A PROPÓSITO DE ESTRELAS

Não sei se me interessei pelo rapaz
por ele se interessar por estrelas
se me interessei por estrelas por me interessar
pelo rapaz hoje quando penso no rapaz
penso em estrelas e quando penso em estrelas
penso no rapaz como me parece
que me vou ocupar com as estrelas
até ao fim dos meus dias parece-me que
não vou deixar de me interessar pelo rapaz
até ao fim dos meus dias
nunca saberei se me interesso por estrelas
se me interesso por um rapaz que se interessa
por estrelas já não me lembro
se vi primeiro as estrelas
se vi primeiro o rapaz
se quando vi o rapaz vi as estrelas


In “Quem Quer Casar Com a Poetisa?”
Quasi Edições

Adília Lopes

N. 1960

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Quinta-feira, 17 de Fevereiro de 2011

Recordando... Alberto de Serpa

INCERTZA

 

Nem ilusão, nem
vida. De ilusão,
este amor não tem
os sonhos em vão.

E não tem, da vida,
caminho da morte:
sempre de subida,
sem nuvem que importe.

Assim, não acerto
no estado em que ando:
se sonho desperto
se vivo sonhando

 

In “Poemas Portugueses”

Antologia da Poesia Portuguesa

do Séc. XIII ao Séc. XXI

Porto Editora

 

Alberto de Serpa

1906 – 1992

 

 

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Domingo, 13 de Fevereiro de 2011

Recordando... Nuno Júdice

SONHEI CONTIGO

 

Sonhei contigo embora nenhum sonho
possa ter habitantes tu, a quem chamo
amor, cada ano pudesse trazer
um pouco mais de convicção a
esta palavra. É verdade o sonho
poderá ter feito com que, nesta
rarefacção de ambos, a tua presença se
impusesse - como se cada gesto
do poema te restituísse um corpo
que sinto ao dizer o teu nome,
confundindo os teus
lábios com o rebordo desta chávena
de café já frio. Então, bebo-o
de um trago o mesmo se pode fazer
ao amor, quando entre mim e ti
se instalou todo este espaço -
terra, água, nuvens, rios e
o lago obscuro do tempo
que o inverno rouba à transparência
da fontes. É isto, porém, que
faz com que a solidão não seja mais
do que um lugar comum saber
que existes, aí, e estar contigo
mesmo que só o silêncio me
responda quando, uma vez mais
te chamo.

 

 

In “Poesia Reunida 1967-2000”

Publicações D. Quixote

 

Nuno Júdice

N. 1949

 

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Quarta-feira, 9 de Fevereiro de 2011

Recordando... Reinaldo Ferreira

PASSEMOS, TU E EU, DEVAGARINHO

 

Passemos, tu e eu, devagarinho,

Sem ruído, sem quase movimento,

Tão mansos que a poeira do caminho

A pisemos sem dor e sem tormento.

 

Que os nossos corações, num torvelinho

De folhas arrastadas pelo vento,

Saibam beber o precioso vinho,

A rara embriaguez deste momento.

 

E se a tarde vier, deixá-la vir

E se a noite quiser, pode cobrir

Triunfalmente o céu de nuvens calmas

 

De costas para o Sol, então veremos

Fundir-se as duas sombras que tivemos

Numa só sombra, como as nossas almas.

 

 

In “Poemas”

Livro IV – Dispersos

Imprensa Nacional de Moçambique

 

Reinaldo Ferreira

1922 – 1959

 

 

 

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Sábado, 5 de Fevereiro de 2011

Recordando... Matilde Rosa Araújo

OS DIREITOS DA CRIANÇA 

 

A criança

Toda a criança.

Seja de que raça for

Seja negra, branca, vermelha ou amarela,

Seja rapariga ou rapaz.

Fale a língua que falar,

Acredite no que acreditar,

Pense o que pensar,

Tenha nascido seja onde for,

Ela tem direito…

 

…A ser para o homem a

Razão primeira da sua luta.

O homem vai proteger a criança

Com leis, ternura, cuidados

Que a tornem livre, feliz,

Pois só é livre, feliz

Quem pode deixar crescer

Um corpo são,

Quem pode deixar descobrir

Livremente

O coração

E o pensamento.

Este nascer e crescer e viver assim

Chama-se dignidade.

E em dignidade vamos

Querer que a criança

Nasça

Cresça,

Viva…

 

E a criança nasce

E deve ter um nome

Que seja o sinal dessa dignidade.

Ao sol chamamos Sol

E à vida chamamos Vida

Uma criança terá o seu nome também.

E ela nasce numa terra determinada

Que a deve proteger.

Chamemos-lhe Pátria a essa aterra,

Mas chamemos-lhe antes Mundo…

 

…E nesse mundo ela vai crescer:

Já a sua mãe teve o direito

A toda a assistência que assegura um nascer perfeito.

E, depois, a criança nascida,

Depois da hora radial do parto,

A criança deverá receber

Amor,

Alimentação

Casa,

Cuidados médicos,

O amor sereno de mãe e pai.

Rir,

Brincar,

Crescer,

Aprender a ser feliz…

 

…Mas há crianças que nascem diferentes

E tudo devemos fazer para que isto não aconteça.

Vamos dar a essas crianças um amor maior ainda.

 

E a criança nasceu

E a desabrochar como

Uma flor

Uma árvore,

Um pássaro,

E

Uma flor,

Um a árvore,

Um pássaro

Precisam de amor – a seiva da terra, a luz do sol.

De quanto amor a criança não precisará?

De quanto amor a criança não precisara?

De quanta segurança?

Os pais e todo o mundo que rodeia a criança

Vão participar na aventura

De uma vida que nasceu.

Maravilhosa aventura!

Mas se a criança não tem família?

Ela tê-la-á sempre: numa sociedade justa

Todos serão sua família.

Nunca mais haverá uma criança só

Infância nunca será solidão.

 

E a criança vai aprender a crescer.

Todos temos de ajudar!

Todos!

Os pais, a escola, todos nós!

E vamos ajudá-la a descobrir-se a si própria

E aos outros.

Descobrir o seu mundo,

A sua força,

O seu amor,

Ela vai aprender a viver

Com ela própria

E com os outros:

Vai aprender a fraternidade,

A fazer fraternidade

Isto chama-se educar:

Saber isto é aprender a ensinar.

 

Em situação de perigo

A criança, mais do que nunca,

Está sempre em primeiro lugar…

Será o sol que não se apaga

Com o nosso medo,

Com a nossa indiferença:

A criança apaga, por si só,

Medo e indiferença das nossas frontes…

 

A criança é um mundo

Precioso

Raro

Que ninguém a roube,

A negoceie,

A explore

Sob qualquer pretexto.

Que ninguém se aproveite

Do trabalho da criança

Para seu próprio proveito.

São livres e frágeis as suas mãos,

Hoje:

Se as não magoarmos

Elas poderão continuar

Livres

E ser a força do mundo

Mesmo que frágeis continuem…

 

A criança deve ser respeitada

Em suma,

Na dignidade do seu nascer,

Do seu crescer,

Sado seu viver.

Quem amar verdadeiramente a criança

Não poder

Á deixar de ser fraterno:

Uma criança não conhece fronteiras,

Nem raças

Nem classes sociais:

Ela é o sinal mais vivo do amor,

Embora, por vezes, nos possa parecer cruel.

Frágil e forte, ao mesmo tempo,

Ela é sempre a mão da própria vida

Que se nos estende, nos segura

E nos diz:

Sê digno de viver!

Olha em frente!

 

In “As Crianças, Todas as Crianças”

Editora Livros Horizonte

 

Matilde Rosa Araújo

1921 – 2010

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Terça-feira, 1 de Fevereiro de 2011

Recordando... Afonso Duarte

PROVENÇAL

 

Em um solar de algum dia
Cheiinho de alma e valia,
Foi ali
Que ao gosto de olhos a vi

Como dantes inda vasto
Agora
Não tinha pombas nem mel.
E à opulência de outrora,
Esmoronado e já gasto,
Pedia mãos de alvenel.

Foi ali
Que ao gosto de olhos a vi.

O seu chapéu, que trazia
Do calor contra as ardências,
Era o que a pena daria
Num certo sabor e arrimo
Com jeitos de circunferências
A morrer todas no cimo.

Davam-lhe franco nos ombros
As pontas do lenço branco:
E sem que ninguém as ouça,
Eram palavras da moça
Com a voz alta de chamar;

Palavras feitas em gesto,
Igualzinho e manifesto,
Como um relance de olhar.

E bela, fechada em gosto,
Fazia o seu rosto dela
A gente mestre de amar.

Foi num solar de algum dia,
Cheiinho de alma e valia,
Que eu disse de mim para ela
Por este falar assim:

Vem, meu amor!

E os dois iremos juntos pelos montes;
E o Sol abençoará, nosso tesoiro,
A seara, o pão da terra, o trigo loiro,
E como nós hão-de falar as fontes.

Vem, meu amor!

E terás os meus cantos, o que eu valho;
Vem: serás do meu sangue e meu suor!
Dê-me beijos e graça o teu amor
E encherás de ternura o meu trabalho.

Vem, meu amor!

E o fim do nosso dia, o sol poente,
Sem más obras na mente e coração,
Há-de sorrir à nossa casa, à gente.

Vem, meu amor!

Vem como o Sol doirado quando brilha
De juntinho da terra e em devoção
Ele a beija e fecunda à maravilha.


In "Ritual do Amor"

 

Afonso Duarte

1884 – 1958  

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