Quarta-feira, 29 de Dezembro de 2010

Recordando... José Carlos Ary dos Santos

O POEMA ORIGINAL

 

Original é o poeta
que se origina a si mesmo
que numa sílaba é seta
noutro pasmo ou cataclismo
o que se atira ao poema
como se fosse um abismo
e faz um filho ás palavras
na cama do romantismo.
Original é o poeta
capaz de escrever um sismo.

Original é o poeta
de origem clara e comum
que sendo de toda a parte
não é de lugar algum.
O que gera a própria arte
na força de ser só um
por todos a quem a sorte faz
devorar um jejum.
Original é o poeta
que de todos for só um.

Original é o poeta
expulso do paraíso
por saber compreender
o que é o choro e o riso;
aquele que desce á rua
bebe copos quebra nozes
e ferra em quem tem juízo
versos brancos e ferozes.
Original é o poeta
que é gato de sete vozes.

Original é o poeta
que chegar ao despudor
de escrever todos os dias
como se fizesse amor.
Esse que despe a poesia
como se fosse uma mulher
e nela emprenha a alegria
de ser um homem qualquer
.

 

In “Resumo”

Sem indicação da Editora – 1972

Distribuído por Livraria Quadrante – Lisboa

 

José Carlos Ary dos Santos

1937 – 1984

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Sábado, 25 de Dezembro de 2010

Recordando... José Régio

LITANIA DO NATAL

 

A noite fora longa, escura, fria.
Ai noites de Natal que dáveis luz,
Que sombra dessa luz nos alumia?
Vim a mim dum mau sono, e disse: «Meu Jesus…»
Sem bem saber, sequer, porque o dizia.

 

E o Anjo do Senhor: «Ave, Maria!»

 

Na cama em que jazia,
De joelhos me pus
E as mãos erguia.
Comigo repetia: «Meu Jesus…»
Que então me recordei do santo dia.

 

E o Anjo do Senhor: «Ave, Maria!»

 

Ai dias de Natal a transbordar de luz,
Onde a vossa alegria?
Todo o dia eu gemia: «Meu Jesus…»
E a tarde descaiu, lenta e sombria.

 

E o Anjo do Senhor: «Ave, Maria!»

 

De novo a noite, longa, escura, fria,
Sobre a terra caiu, como um capuz
Que a engolia.
Deitando-me de novo, eu disse: «Meu Jesus…»

E assim, mais uma vez, Jesus nascia.

 

 

In “Filho do Homem”
Portugália Editora

 

José Régio

1901 – 1969

 

 

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Terça-feira, 21 de Dezembro de 2010

Recordando... Maria Almira Medina

QUANDO EU FOR GRANDE

 

Ó mãe,

Quando for grande.

Hei-de agarrar aquela estrela além,

A mais pequenina,

Que treme de medo por cima do Forte

De Santa Catarina;

Tadinha da estrela, ó mãe!...

Faz-lhe medo o mar,

Sempre a ralhar, sempre a ralhar...

Quando for grande,

Hei-de pedir às ondas barulhentas

Que batam devagar,

Devagarinho,

Devagarinho como a tua voz

A adormecer o teu menino...

Olha, vê,

Não chego à estrela, não.

Sou pequenino;

Quando for grande,

(Amanhã já vou grande, mãe?...),

Vou ao barquito do «Pereirão» de Buarcos,

E bato no mar

Até ele chorar...

E a estrela, sem medo,

Há-de deixar-se agarrar,

Porque eu sou grande,

Bati no mar!...

Quando fores rezar

Á capela do Forte

Hei-de ir de mansinho,

Mais de mansinho que as ondas a chorar,

E ponho a estrela pequenina

No teu cabelo...

Hás-de parecer Santa Catarina,

Inda mais linda!...

Depois fujo a buscar mais estrelinhas

Medrosas

E atiro-as às redes dos pescadores pobrinhos,

...   ...   ...   ...   ...   ...   ...   ...   ...   ...   ...   ...   ...   ...

 

Tás a chorar?!...

Aquela estrela não é linda se calhar...

Deixa lá, mãezinha;

Quando for grande,

Levo-te ao céu e escolhes uma maiorzinha...

(Amanhã já sou grande, mãe?...).

 

 

In “Leituras” – (Segundo Tomo) – 1.ª Edição

 

Maria Almira Medina

N. 1920

 

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Sexta-feira, 17 de Dezembro de 2010

Recordando... Miguel Torga

HISTÓRIA ANTIGA

 

Era uma vez, lá na Judeia, um rei,

Feio bicho, de resto:

Um cara de burro sem cabresto

E duas grandes tranças.

A gente olhava, reparava e via

Que naquela figura não havia

Olhos de quem gosta de crianças.

 

E na verdade, assim acontecia,

Porque um dia,

O malvado,

Só por ter o poder de quem é rei

Ou não ter coração,

Sem mais nem menos,

Mandou matar quantos eram pequenos

Nas cidades e aldeias da Nação.

 

Mas,

Por acaso ou milagre, aconteceu

Que, num burrinho pela areia fora,

Fugiu

Daquelas mãos de sangue um pequenito

Que o vivo sol da vida acarinhou;

E bastou

Esse palmo de sonho

Para encher este mundo de alegria;

Para crescer, ser Deus;

E meter no inferno o tal das tranças,

Só porque ele não gostava de crianças.    

 

 

In “Antologia Poética”

Edição do Autor – Coimbra – 1981

 

Miguel Torga

1907 – 1995

 

 

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Segunda-feira, 13 de Dezembro de 2010

Recordando... Gil Vicente

ADORAI, MONTANHAS

 

Adorai, montanhas,

o Deus das alturas,

também das verduras.

 

Adorai, desertos

e serras floridas,

o Deus dos secretos,

o Senhor das vidas.

Ribeiras crescidas,

louvai nas alturas

Deus das criaturas.

 

Louvai, arvoredos

de fruto prezado,

digam os penedos:

Deus seja louvado!

E louve meu gado,

nestas verduras,

o Deus das alturas.

 

Auto da Feira

 

Gil Vicente

1465 – 1536?

 

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Quinta-feira, 9 de Dezembro de 2010

Recordando... Sidónio Muralha

ROMANCE

 

Depois daquela noite os teus seios incharam;

as tuas ancas alargaram-se;

e os teus parentes admiraram-se

e falaram, falaram…

 

Porque falaram de uma coisa tal bela,

tal simples, tão natural?

Tu não parias uma estrela

nem uma noite de vendaval…

 

Mas tudo terminou porque falaram.

Tu fraquejaste e tudo terminou.

– Os teus seios desincharam;

só a tristeza ficou.

 

Ficou a tristeza de uma coisa tão bela,

tão simples, tão natural…

 

– Tu não parias uma estrela,

nem uma noite de vendaval…

 

 

In “Passagem de Nível”

Portugália Editora

 

Sidónio Muralha

1920 – 1982

 

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Domingo, 5 de Dezembro de 2010

Recordando... Soror Violante do Céu

SERÁ BRANDO O RIGOR

Será brando o rigor, firme a mudança,
Humilde a presunção, vária a firmeza,
Fraco o valor, cobarde a fortaleza,
Triste o prazer, discreta a confiança;

Terá a ingratidão firme lembrança,
Será rude o saber, sábia a rudeza,
Lhana a ficção, sofística a lhaneza,
Áspero o amor, benigna a esquivança;

Será merecimento a indignidade,
Defeito a perfeição, culpa a defensa,
Intrépito o temor, dura a piedade,

Delito a obrigação, favor a ofensa,
Verdadeira a traição, falsa a verdade,
Antes que vosso amor meu peito vença.

 

 

In “Cem Sonetos Portugueses”

(Selecção, organização e introdução de

José Fanha e José Jorge Letria)

Terramar Editores

 

Soror Violante do Céu

1601 – 1693

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Quarta-feira, 1 de Dezembro de 2010

Recordando... Alberto Monsaraz

1º DE DEZEMBRO

 

Tanto rugiu ameaças a tormenta,

Que a Pátria, em sobressalto, abriu o olhar.

Sessenta anos dormíramos, sessenta.

Era já tempo, ao cabo, de acordar!

 

Numa explosão de cólera violenta,

Levantámo-nos trémulos, a arfar...

Quando, em vagas, de súbito rebenta,

Mostra que inda tem músculos o mar!

 

Voltem, sim, podem vir, façam-nos guerra,

E, desde o Oceano aos píncaros da serra,

Será nosso o pão nosso até final...

 

Que esta certeza resta-nos ao menos:

- Ela tão grande e nós, nós tão pequenos,

Não coube nunca em Espanha Portugal!

 

 

«Da saudade e do amor» - 1920

 

In “Portugal Gigante”

 

Alberto Monsaraz

1889 – 1959

 

 

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