Sexta-feira, 29 de Outubro de 2010

Recordando... Ana Luísa Amaral

UM CÉU E NADA MAIS

 

Um céu e nada mais - que só um temos,

como neste sistema: só um sol.

Mas luzes a fingir, dependuradas

em abóbada azul - como de tecto.

E o seu número tal, que deslumbrados

eram os teus olhos, se tas mostrasse,

amor, tão ribalta azul, como de

circo, e dança então comigo no

trapézio, poema em alto risco,

e um levíssimo toque de mistério.

Pega nas lantejoulas a fingir

de sóis mal descobertos e lança

agora a âncora maior sobre o meu

coração. Que não te assuste o som

desse trovão que ainda agora ouviste,

era de deus a sua voz, ou mito,

era de um anjo por demais caído.

Mas, de verdade: natural fenómeno

a invadir-te as veias e o cérebro,

tão frágil como álcool, tão de

potente e liso como álcool

implodindo do céu e das estrelas,

imensas a fingir e penduradas

sobre abóbada azul. Se te mostrasse,

amor, a cor do pesadelo que por

aqui passou agora mesmo, um céu

e nada mais -que nada temos,

que não seja esta angústia de

mortais (e a maldição da rima,

já agora, a invadir poema em alto

risco), e a dança no trapézio

proibido, sem rede, deus, ou lei,

nem música de dança, nem sequer

inocência de criança, amor,

nem inocência. Um céu e nada mais.

 

 

In “Às Vezes o Paraíso”

Quetzal Editores – Lisboa – 1998  

 

Ana Luísa Amaral

N. 1956

 

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Segunda-feira, 25 de Outubro de 2010

Recordando... Mário Henrique Leiria

RIFÃO QUOTIDIANO

 

Uma nêspera

Estava na cama

Deitada

Muito calada

A ver

O que acontecia

 

Chegou uma Velha

E disse

Olha uma nêspera

E zás comeu-a

 

É o que acontece

Às nêsperas

Que ficam deitadas

Caladas

A esperar

O que acontece

 

 

In “Novos Contos do Gin” – 3.ª Edição

Editorial Estampa

 

Mário Henrique Leiria

1923 – 1980

 

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Quinta-feira, 21 de Outubro de 2010

Recordando... Virgínia Victorino

RENÚNCIA

Fui nova, mas fui triste... Só eu sei
Como passou por mim a mocidade...
Cantar era o dever da minha idade,
Devia ter cantado e não cantei...

Fui bela... Fui amada e desprezei...
Não quis beber o filtro da ansiedade.
Amar era o destino, a claridade...
Devia ter amado e não amei...

Ai de mim!... Nem saudades, nem desejos...
Nem cinzas mortas... Nem calor de beijos...
Eu nada soube, eu nada quis prender...

E o que me resta?! Uma amargura infinda...
Ver que é, para morrer, tão cedo ainda...
E que é tão tarde já, para viver!...

 

 

In “Namorados”

Portugália  Editora – 1924

 

Virgínia Victorino

1895 – 1968

 

 

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Domingo, 17 de Outubro de 2010

Recordando... Sophia de Mello Breyner Andresen

RESSURGIREMOS

 

Ressurgiremos ainda sob os muros de Cnossos
E em Delphos centro do mundo
Ressurgiremos ainda na dura luz de Creta

Ressurgiremos ali onde as palavras
São o nome das coisas
E onde são claros e vivos os contornos
Na aguda luz de Creta

Ressurgiremos ali onde pedra estrela e tempo
São o reino do homem
Ressurgiremos para olhar para a terra de frente
Na luz limpa de Creta

Pois convém tornar claro o coração do homem
E erguer a negra exactidão da cruz
Na luz branca de Creta


In “Livro Sexto”

Editorial Caminho

 

Sophia de Mello Breyner Andresen

1919 – 2004

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Quarta-feira, 13 de Outubro de 2010

Recordando... Sebastião da Gama

BALADA DAS QUATRO MENINAS

 

As quatro meninas têm quinze anos.

Têm nas gavetas cadernos de escola

fechados à chave… Têm nas gavetas

(que ninguém o sonhe!) as tranças cortadas

há dois ou três dias… Têm quinze anos.

 

As quatro meninas têm namorados.

(Como gostam delas!...) As quatro meninas

sabem que são belas, que o juram aquelas

cartas escondidas entre os seios tímidos.

 

As quatro meninas sabem-se miradas.

Sabem da inveja que têm na praia

os outros rapazes dos quatro rapazes

que à tarde lhes dizem… as coisas que dizem.

E as quatro meninas sentem-se felizes.

 

Chove… chove… chove… Esbeltas, à janela,

por detrás dos vidros, cismam as meninas.

– que palavras meigas estarão escrevendo,

por detrás dos vidros, escutando a chuva,

os quatro rapazes, os quatro mais belos,

martes, mais ágeis, que existem no Mundo?

 

As quatro meninas sorriem: bem sabem.

 

 

In “Campo Aberto” – 1951

Portugália Editora

 

Sebastião da Gama

1924 – 1952

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Sábado, 9 de Outubro de 2010

Recordando... Fiama Hassa Pais Brandão

A PORTA BRANCA

 

Por detrás desta porta,

uma de todas as portas que para mim se abrem e se fecham,

estou eu ou o universo que eu penso.

Deste meu lado, dois olhos que vigiam

os fenómenos naturais, incluindo a celeste mecânica

e as sociedades humanas, sedentárias e transumantes.

 

Mas podem os olhos fazer a sua enumeração,

e pode o pensado universo infindamente ir-se,

que para mim o que hoje importa

é aquela olhada vaga porta.

 

Que ela seja só como a vejo, a porta branca,

com duas almofadas em recorte,

lançada devagar sobre o vão do jardim,

onde o gato, por uma fenda aberta

pela sua pata, tenta ver-me,

tão alheio a versos e a universos.

 

 

In “Cenas Vivas”

Editora Relógio d´Água

 

Fiama Hassa Pais Brandão

1938 – 2007

 

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Terça-feira, 5 de Outubro de 2010

Recordando... D. Francisco Manuel de Melo

SAUDADES

Serei eu alguma hora tão ditoso,

Que os cabelos, que amor laços fazia,

Por prémio de o esperar, veja algum dia

Soltos ao brando vento buliçoso?

 

Verei os olhos, donde o sol formoso

As portas da manhã mais cedo abria,

Mas, em chegando a vê-los, se partia

Ou cego, ou lisonjeiro, ou temeroso?

 

Verei a limpa testa, a quem a Aurora

Graça sempre pediu? E os brancos dentes,

por quem trocara as pérolas que chora?

 

Mas que espero de ver dias contentes,

Se para se pagar de gosto uma hora,

Não bastam mil idades diferentes?

 

In “Poemas de Amor”

Antologia de Poesia Portuguesa

Org. de Inês Pedrosa

Publicações Dom Quixote

 

D. Francisco Manuel de Melo

1608 – 1666

 

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Sexta-feira, 1 de Outubro de 2010

Recordando... Azinhal Abelho

COMOÇÃO RURAL

 

Já não há quem queira dar

uma filha a um ganhão…

Senhor Pai, senhora mãe,

que grande desolação.

 

Já bati a sete portas

por mais de mil e uma vez;

Vá-se embora seu ganhão,

disseram com altivez…

A minha filha é prendada,

não é para qualquer tunante,

sabe ler, sabe escrever

e todo o seu consoante.

O que é que tem um ganhão?

Um azinho dum pau torto;

só vive das tristes ervas,

não tem onde cair morto.

 

Os olhos já não são olhos,

estão desfeitos em chorar,

porque a um pobre ganhão

já não há quem queira dar

nem mulher para dormir

nem a filha para mulher;

nem quem o ajude a vestir,

nem quem o ajude a morrer.

 

Ramos secos, estéreis flores,

pedras de arestas cortantes

perdidas num vendaval,

perdidas numa aflição…

Eu já não posso gritar;

Senhor Pai, senhora Mãe,

que grande desolação

nestes matagais com longes,

aonde os anjos se afundam

em humus e punição!

 

 

In “Antologia de Poetas Alentejanos”

Edição Câmara Municipal de Vila Viçosa – 1984

 

Azinhal Abelho

1916 – 1979

 

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