Domingo, 28 de Março de 2010

Recordando... Natália Correia... Poetisa do Séc. XX

FALAVAM-ME DE AMOR

 

Quando um ramo de doze badaladas
se espalhava nos móveis e tu vinhas
solstício de mel pelas escadas
de um sentimento com nozes e com pinhas,

menino eras de lenha e crepitavas
porque do fogo o nome antigo tinhas
e em sua eternidade colocavas
o que a infância pedia às andorinhas.

Depois nas folhas secas te envolvias
de trezentos e muitos lerdos dias
e eras um sol na sombra flagelado.

O fel que por nós bebes te liberta
e no manso natal que te conserta
só tu ficaste a ti acostumado.

 

 

In “O Dilúvio e a Pomba” 
Publicações D. Quixote

 

Natália Correia

1923 – 1993



 

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Quarta-feira, 24 de Março de 2010

Recordando... Maria João Brito de Sousa... Poetisa Contemporânea

RETRATO DIGITAL

 

Sou criança na escola da Razão;

(o mundo à minha espera no recreio...)

Brinquedos de extracto de ilusão,

E mochila com sonhos por recheio.

 

A boneca de trapos numa mão,

Na outra o lápis (só para sonhar...),

Às vezes uma corda ou um pião

E, sempre, o meu pincel para pintar!

 

É este o meu retrato de menina

(arquivado em suporte digital)

Agora que a velhice se aproxima...

 

Do brinquedo e do sonho permanece

O chamamento de Anjo vertical

Porque ao futuro, a esse, Deus mo tece...

 

 

Vivências

 

 

In “Poeta Porque Deus Quer”

Autores Editora

 

Maria João Brito de Sousa

N. 1952

 

 

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Sábado, 20 de Março de 2010

Recordando... Ana Hatherly... Poetisa Contemporânea

O DECIFRADOR DE IMAGENS

 

O decifrador de imagens

persegue um fantasma de vestígios

como Ulisses amarrado

ao querer do conhecer

 

A descoberta é invenção provisória:

         as vozes não se vêem

         o que se vê não se ouve

 

A imaginação

ergue-se do arrepio da sombra

guerrilha entre parênteses

ergue-se da constante chacina

procurando outra coisa

                   outra causa

                   o outro lado do ver

 

 

 

In “O Pavão Negro”

Editora Assírio & Alvim

 

Ana Hatherly

N. 1929

 

 

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Terça-feira, 16 de Março de 2010

Recordando... Sophia de Mello Breyner Andresen... Poetisa do Séc. XX

AS PESSOAS SENSÍVEIS

 

As pessoas sensíveis não são capazes
De matar galinhas,
Porém são capazes
De comer galinhas

 

O dinheiro cheira a pobre e cheira
À roupa do seu corpo
Aquela roupa
Que depois da chuva secou sobre o corpo
Porque não tinham outra
O dinheiro cheira a pobre e cheira
A roupa
Que depois do suor não foi lavada
Porque não tinham outra

 

“Ganharás o pão com o suor do teu rosto”
Assim nos foi imposto
E não:
“Com o suor dos outros ganharás o pão.”

 

Ó vendilhões do templo
Ó construtores
Das grandes estátuas balofas e pesadas
Ó cheiros de devoção e de proveito

 

Perdoai-lhes Senhor
Porque eles sabem o que fazem

 

 

In “Livro Sexto”

Editorial Caminho

 

Sophia de Mello Breyner Andresen

1919 – 2004

 

 

 

 

 

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Sexta-feira, 12 de Março de 2010

Recordando... Ricardo Reis/Fernando Pessoa... Poeta do Séc. XX

AS ROSAS

 

As rosas amo dos jardins de Adónis,

Essas volucres amo, Lídia, rosas,

Que em o dia em que nascem,

Em esse dia morrem.

A luz para elas é eterna, porque

Nascem nascido já o Sol, e acabam

Antes que Apolo deixe

O seu curso visível.

Assim façamos nossa vida um dia,

Inscientes, Lídia, voluntariamente

Que há noite antes e após

O pouco que duramos.

 

 

In “Odes de Ricardo Reis – Fernando Pessoa – Antologia Poética”

3ª. Edição – Biblioteca Ulisses de Autores Portugueses

Editora Ulisses

 

Ricardo Reis/Fernando Pessoa

1887 – 1935

 

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Segunda-feira, 8 de Março de 2010

Recordando... Pedro Homem de Mello... Poeta do Séc. XX

MILAGRE

 

O meu futuro fora aquele instante!

(Leve, subtil, a flor buliu na haste...)

O meu futuro fora aquele instante.

Eu marquei-te uma hora... E tu, faltaste!

 

Com musgo, o pinheiral esteve à espera...

E a flor (tão perto e azul) buliu na haste!

O Inverno do arrabalde? - Primavera!

Com musgo, o pinheiral esteve à espera...

Eu marquei-te uma hora... E tu, faltaste!

 

Então, o olhar da noite fez-se baço;

E a flor, fria talvez, buliu na haste...

- Desertos, lagos, pântanos, cansaço...

O olhar da noite vítrea fez-se baço!

Eu marquei-te uma hora... E tu, faltaste!

 

Prazer? Vício? Prisão? Nódoa? Vergonha?

Estrume sob a flor da minha haste...

Prazer? Vício? Prisão? Nódoa? Verginha?

Poesia indomável e medonha!

Eu marquei-te uma hora... E tu, faltaste!

 

Sangrou demais o meu pecado. Basta!

Buliu demais a flor, dobrando a haste...

Sangrou demais o meu pecado. Basta!

Eu marquei-te uma hora... E tu, faltaste!

 

O vento varreu toda a noite, ardida

E, com o vento, a flor buliu na haste...

Veio chuva depois. Destino, vida...

E o vento varreu toda a noite ardida!

Eu marquei-te uma hora... E tu, faltaste!

 

Os homens não me viram e passaram.

E a flor, distante já, buliu na haste...

Os homens não me viram e passaram...

Ó mãos cegas que, um dia, me salvaram!

Eu marquei-te uma hora... E tu, faltaste!

 

 

In “Bodas Vermelhas”

Porto Editora – 3.ª edição – 1979

 

Pedro Homem de Mello

1904 – 1984

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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Quinta-feira, 4 de Março de 2010

Recordando... António Patrício... Poeta do Séc. XX

A NEVE

 

Feérica nupcial! A neve, a neve,

alegríssimamente vai caindo.

A nossa dor é um elfo que nos segue:

tudo cristalizou num riso lindo.

 

Lembra um conto de fadas a paisagem:

jardins e parques, casas, estão dormindo;

e no seu sonho, pueril miragem,

a neve vai caindo, vai caindo.

 

Mas que jardins se esfolham pela altura? …

É a espuma dum mar pr’álem das nuvens

ou um Outono místico de alvura? …

 

É um Abril de pureza: – é lindo, lindo,

sinto-me estonteado de brancura:

os mortos mesmo devem estar sorrindo.

 

 

In “Poesias Completas”

Assírio & Alvim – 1989

 

António Patrício

1878 – 1930

 

 

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