Segunda-feira, 28 de Setembro de 2009

Recordando... João Luís Barreto Guimarães... Poeta Contemporâneo

DENTRO DA PEDRA

 

Cedo ao rastro de restos que

me tenta até ti

(pernas de nylon vazias

sapatos

desafogados)

metades desirmanadas que

arrumo no poema. Posso

disturbar

o teu espaço? Entrar e ficar a ver?

Estás

sob a linha d'água

(gume

que fere o mamilo)

como um escultor pergunto

com a precisão de poros

pela

mulher dentro da pedra.

Desenrolas da torneira o

novelo que te veste

(o

corpo em repouso contem

a soma dos movimentos)

lavo-te

até ao teu cheiro até

respirar de ti

o

perfume verdadeiro.

 

 

In “Rés-do-Chão”

Editora Gótica

 

João Luís Barreto Guimarães

N. 1967

 

 

 

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Quinta-feira, 24 de Setembro de 2009

Recordando... Maria João Brito de Sousa... Poetisa Contemporânea

A JANGADA

 

Eis a minha Jangada em Mar-Eterno!

As ondas que se amansem pois vou só...

A minh’alma fechada como um nó

Renunciou ao mundo em desgoverno...

 

Eis-me Navegador ou Marinheiro

E Náufrago por pura vocação!

O mar nunca me nega o meu quinhão

Dos versos que lhe dou a tempo inteiro...

 

O meu destino é líquido, infinito,

(se não lhe encontro o fim, nunca o terá...)

Perpetuado em raios de luar...

 

Porque me beija a lua enquanto a fito,

Aquilo que escrevi não morrerá

Enquanto a Lua-Mãe assim me olhar!

 

 

In “Poeta Porque Deus Quer”

Autores Editora

 

Maria João Brito de Sousa

N. 1952

 

 

 

 

 

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Domingo, 20 de Setembro de 2009

Recordando... Natércia Freire... Poetisa do Séc. XX

ASSIM

 

Assim por muito mais e muito menos
Assim por heroísmo e cobardia.
Assim a tarde a noite no momento,
Assim pensar em mim quando vivias.

Assim os dedos longos nos cabelos
Dos mortos abraçados e cativos.
Assim esta miséria de estar viva
E não saber estar viva quando vivo.

Assim nas brancas árvores o tempo
Assim ter acabado o meu destino
E ler-me noutros versos, noutros nomes,
Assim desconhecer aonde habito.

Assim por muito mais e muito menos
Se acaba, em vida, a vida ao suicida.

Assim por ser a hora mais cinzenta,
O desamparo assim da minha vida.

 

 

(Os Intrusos – 1971)

 

In "Antologia Poética"

Assírio & Alvim

 

Natércia Freire

1919 – 2004

 

 

 

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Quarta-feira, 16 de Setembro de 2009

Recordando... Joaquim Pessoa... Poeta Contemporâneo

DE BRUÇOS ME DEBRUÇO MAIS AINDA

 

De bruços me debruço mais ainda

até sentir os olhos tumefactos

para saber até que ponto é linda

a intrigante cor desses sapatos

 

que às tuas pernas dão um brilho tal

e uma leveza tal ao teu andar,

que eu penso (embora aches anormal)

que nunca te devias descalçar.

 

Também porquê, se já não há verdura

nem tu és Leonor para correr

descalça, no poema, à aventura?

 

O mais difícil, hoje, é antever

quem é que vai à fonte em literatura

e que água dá aos versos a beber.

 

 

In “Cem Sonetos Portugueses”

(Selecção, organização e introdução de

José Fanha e José Jorge Letria)

Terramar Editores

 

Joaquim Pessoa

N. 1948

 

 

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Sábado, 12 de Setembro de 2009

Recordando... Herberto Helder... Poeta Contemporâneo

TRANSFORMA-SE O AMADOR NA COISA AMADA

 

Transforma-se o amador na coisa amada, com seu
feroz sorriso, os dentes,
as mãos que relampejam no escuro. Traz ruído
e silêncio. Traz o barulho das ondas frias
e das ardentes pedras que tem dentro de si.
E cobre esse ruído rudimentar com o assombrado
silêncio da sua última vida.
O amador transforma-se de instante para instante,
e sente-se o espírito imortal do amor
criando a carne em extremas atmosferas, acima
de todas as coisas mortas.

 

Transforma-se o amador. Corre pelas formas dentro.
E a coisa amada é uma baía estanque.
É o espaço de um castiçal,
a coluna vertebral e o espírito
das mulheres sentadas.

Transforma-se na noite extintora.
Porque o amador é tudo, e a coisa amada
é uma cortina
onde o vento do amador bate no alto da janela
aberta. O amador entra
por todas as janelas abertas. Ele bate, bate, bate.
O amador é um martelo que esmaga.
Que transforma a coisa amada.

 

Ele entra pelos ouvidos, e depois a mulher
que escuta
fica com aquele grito para sempre na cabeça
a arder como o primeiro dia do verão. Ela ouve
e vai-se transformando, enquanto dorme, naquele grito
do amador.
Depois acorda, e vai, e dá-se ao amador,
dá-lhe o grito dele.
E o amador e a coisa amada são um único grito
anterior de amor.

 

E gritam e batem. Ele bate-lhe com o seu espírito
de amador. E ela é batida, e bate-lhe
com o seu espírito de amada.
Então o mundo transforma-se neste ruído áspero
do amor. Enquanto em cima
o silêncio do amador e da amada alimentam
o imprevisto silêncio do mundo e do amor.

 

(Poesia Toda – Assírio & Alvim – Lisboa)

 

In “Ler Por Gosto”

Areal Editores

 

Herberto Hélder

N. 1930

 

 

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Terça-feira, 8 de Setembro de 2009

Recordando... Alfredo Guisado... Poeta do Séc. XX

A BAILADEIRA

 

I.

 

Olhou-se nos espelhos. Uma arcada…

Julgou-se Salomé. E em oração,

De João a cabeça ensanguentada

Supôs que era o seu próprio coração.

 

Meu olhar, de tapete lhe serviu.

No meu imaginá-la ajoelhou.

E nos seus olhos gastos refloriu

O pranto antigo que Jesus chorou.

 

Enamorou-se um dia de seus dedos

Tristes, esguios, mortos de segredos,

Que na cor dessas mãos inda sorriam.

 

E pediram-lhe o mar. E ela desceu

Entre o Sonho e o Longe e endoideceu

Por não lhes poder dar o que pediam.

 

 

In “Cem Sonetos Portugueses”

(Selecção, organização e introdução de

José Fanha e José Jorge Letria)

Terramar Editores

 

Alfredo Guisado

1891 – 1975

 

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Sexta-feira, 4 de Setembro de 2009

Recordando... Al Berto... Poeta do Séc. XX

OFÍCIO DE AMAR

 

Já não necessito de ti
tenho a companhia nocturna dos animais e a peste
tenho o grão doente das cidades erguidas no princípio doutras

galáxias, e o remorso

um dia pressenti a música estelar das pedras abandonei-me ao silencio
é lentíssimo este amor progredindo com o bater do coração
não, não preciso mais de mim
possuo a doença dos espaços incomensuráveis
e os secretos poços dos nómadas

ascendo ao conhecimento pleno do meu deserto
deixei de estar disponível, perdoa-me
se cultivo regularmente a saudade do meu próprio corpo.

 

(O MedoContexto – Lisboa)

 

 

In “Ler Por Gosto”

Areal Editores

 

Al Berto

1948 – 1997

 

 

 

 

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