Sábado, 28 de Março de 2009

Recordando... Poetisas Naturais do Porto - Portugal... Inês Lourenço

DOMINGO

 

Hoje é o dia dos senhores

e dos sóis em algumas línguas. Noutras

já foi ontem ou será depois, conforme

o cansaço divino sucedeu ou

não ao sétimo dia. Vária

gente irá aos templos ou ao parque

passear o cão. É dia de

visitar o lar de idosos ou de

abastecer a nossa arca

congeladora. Os pais solteiros levam

os filhos a comer pizza e outros

putativos progenitores recuperam

as horas de sono convivialmente

líquidas. O ar das ruas

é mais leve devida à pausa de

domingo. Ao menos hoje acontece

algo de bom em nome de Deus.

 

 

In “Logros Consentidos”

&etc – 2005

 

Inês Lourenço

N. 1942

 

 

 

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Terça-feira, 24 de Março de 2009

Recordando... Poetisas Naturais do Porto - Portugal... Maria Andresen de Sousa

FOTOGRAFIA DOS MEUS AVÓS

 

Ela tem o corpo levemente inclinado
acompanhando, também com a cabeça,
a bela doçura do olhar que a tarde continua
e que mistura, ao rumor da alegria,
para cujo lado o rosto se inclina,
a sombra já, como conjura, de uma
quase visível nostalgia;
nele há um pouco mais de desajuste,
de susto, corpo grande e no entanto pueril,
no fruste meneio das mãos atrapalhadas,
aos atoleiros da vida desatreito, cerrado,
viverá entre caçadas e cães
e morrerá na Ria

 

 

In “Lugares”

Relógio d'Água Editores

 

Maria Andresen de Sousa

N. 1951

 

 

 

 

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Sexta-feira, 20 de Março de 2009

Recordando... Poetisas Naturais do Porto - Portugal... Ana Paula Inácio

OLHO À VOLTA

Olho à volta
em flecha sobre as coisas
à procura desse ladrão excepcional
que me roubou o livro inventado
pra me poupares o coração
à mágoa dos vivos
mas sei que é inútil
trago em alvo
apenas alfaias dométicas
com que trabalho a terra
aquela que escolhi
e sei que é inútil porque o mal tem asas
e só o vento nos salva
e nos transporta
ao lugar da árvore
junto ao rio onde me banharei três vezes
até que o galo cante
e me lembre do meu pai
a quem devo ceia e roupa branca


In “As Vinhas de Meu Pai”

Quasi Edições


Ana Paula Inácio

1966

 

 

 

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Segunda-feira, 16 de Março de 2009

Recordando... Poetisas Naturais do Porto - Portugal... Fernanda Botelho

AMNÉSIA

Posso pedir, em vão, a luz de mil estrelas,
apenas obtenho este desenho pardo
que a lâmpada de vinte e cinco velas
estende no meu quarto.

Posso pedir, em vão, a melodia, a cor,
e uma satisfação imediata e firme:
(a lúbrica face do despertador
é quem me pesa e oprime).

E peço, em vão, uma palavra exacta,
uma fórmula sonora, que resuma
este desespero de não esperar nada,
esta esperança real em coisa nenhuma.

E nada consigo, por muito que peça!
E tamanha ambição de nada vale!
Que eu fui deusa e tive uma amnésia,
esqueci quem era e acordei mortal.

 

 

In “Cem Poemas Portugueses no Feminino”

Selecção e Org. de José Fanha e José Jorge Letria

Editora Terramar

 

Fernanda Botelho

1926 – 2007

 

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Quinta-feira, 12 de Março de 2009

Recordando... Poetisas Naturais do Porto - Portugal... Ana Hatherly

OS SUMÁRIOS ERAM ASSIM

 

Os sumérios eram sumários

    e por isso foram sumírios

    daí vem que foram semírios

    mírios de se ou de si

 

    os sumírios eram sumários sendo sumério

    e daí vem que foram sumiros

    sumaros e sumêros

  

    os sumários eram suma dos

    é daí que vem o sumo

    a soma e a suma-a-uma

 

    os sumórios eram sumêdos

    porque eram semudos

    e mudos de se ou de si

    eram sumúrios

 

    os sumúrios eram semílicos

    simólicos e simulados

    daí vem que amaram a sêmula

    a súmula

    e o tacão alto

 

 

In “Um Calculador de Improbabilidades”

Quimera Editores

 

Ana Hatherly

N. 1929

 

 

 

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Domingo, 8 de Março de 2009

Recordando... Poetisas Naturais do Porto - Portugal... Sophia de Mello Breyner Andresen

QUANDO

 

Quando o meu corpo apodrecer e eu for morta
Continuará o jardim, o céu e o mar,
E como hoje igualmente hão-de bailar
As quatro estações à minha porta.

Outros em Abril passarão no pomar
Em que eu tantas vezes passei,
Haverá longos poentes sobre o mar,
Outros amarão as coisas que eu amei.

Será o mesmo brilho a mesma festa,
Será o mesmo jardim à minha porta,
E os cabelos doirados da floresta,
Como se eu não estivesse morta.



In “Dia do Mar” – 5ª edição revista

Editorial Caminho – 2005

 

Sophia de Mello Breyner Andresen

1919 – 2004

 

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Quarta-feira, 4 de Março de 2009

Recordando... Poetisas Naturais do Porto - Portugal... Maria José Queiroz Viana

RESUMA DA AULA OU FOLK DOURO

 

Tenho que fugir rumo ao azul

Tenho que fugir, fugir e ser duende dentro de mim

Corpos enlaçados?

Ternuras, mágoas?

Tenho que fugir, rumo ao rio sinuoso que curva e

            [descurva em mim.

Em vales, ora apertados, ora mais largos

Tenho que fugir rumo às partes verdes que des-

            [cem das colinas

E abraçar a água densa e tensa.

Tenho que fugir, fugir e ser sol que caminha nas

[nas nuvens que cobrem de manto branco

A fonte da alma da minha alma

Que jorra sangue da boa terra

De olhos leais

À noite cheios de luar…

 

Mãos finas? Delgadas? Sedosas?

Tenho que fugir aos foguetes e morteiros

Onde o sol de olhos pintados

Onde as esponjas deitam mel

Onde a procissão passa

E cura o pus dos pinheiros

Templos de líquenes

De fontes gorgolejantes

E ser mais um tísico que reza as «ave-marias»

Enquanto na igreja as ladainhas ecoam

Nas vertentes rochosas e abruptas

Onde milhafres rasam

E, tenho que fugir, fugir e ser ferida dentro de mim.

 

 

In “Cem Poetas Portugueses no Feminino”

Editora Terramar

 

Maria José Queiroz Viana

N. 1952

 

 

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