Segunda-feira, 28 de Julho de 2008

Recordando... Poetas do Séc. XIX (3)... José Duro

TÉDIO

 

Ando às vezes boçal e sinto-me incapaz
De encontrar uma rima ou produzir um verso;
Fazendo de mim mesmo a ideia de um perverso
Capaz de apunhalar à luz do gás.

Incomoda-me a Cor, o sangue do Poente
- Waterloo rubro de que o sol é Bonaparte -;
Não compreendo, Mulher, como inda posso amar-te
Se tenho raiva, muita raiva a toda a gente.

‘Té onde a vista alcança alargo o meu olhar,
E creio quanto existe uma nódoa escura
Que as lágrimas do Choro hão de jamais lavar...

Estranha concepção! Abranjo o mundo todo
E em cada estrela vejo a mesma lama impura,
E em cada boca rubra o mesmo impuro lodo!

José Duro

1873 – 1899

 

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Quinta-feira, 24 de Julho de 2008

Recordando... Poetas do Séc. XIX (3)... João de Deus

AROMA E AVE

Eu digo, quando assoma
O astro criador:
Deus me fizesse aroma
De alguma pobre flor!

E digo, quando passa
uma ave pelo ar:
Deus me fizesse a graça
De asas para voar!

Aroma, da janela
Me evaporava eu,
Me respirava ela
E me elevava ao céu!

E quem, se eu fosse uma ave,
Me havia de privar
A mim da luz suave
Daquele seu olhar?

 

 

In “Amor Idílico”

Estante Editora

 

João de Deus 

1830 – 1896

 

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Domingo, 20 de Julho de 2008

Recordando... Poetas do Séc. XIX (3)... Guilherme Azevedo

O SEU NOME É GRACIOSO E MUITO PRÓPRIO DELA

 

O seu nome é gracioso e muito próprio dela:
Respira um vago tom de música inocente;
E lembra a placidez de um lago transparente;
Recorda a emanação tranquila duma estrela.

 

Lembra um título bom, que logo nos revela
A ideia do poema. E todo o mundo sente
Não sei que afinidade entre o seu ar dolente,
a sua morbideza, e o próprio nome dela.

 

E chego acreditar - ingenuamente o digo -
Que havia um nome em branco, e Deus pensa consigo
Em traduzi-lo enfim numa expressão qualquer:

 

De forma que a mulher suave e graciosa
Faz parte deste nome um tanto cor-de-rosa,
E este nome gentil faz parte da mulher.

 

 

In «366 Poemas Que Falam de Amor»

 

Guilherme Azevedo

1839 – 1882

 

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Quarta-feira, 16 de Julho de 2008

Recordando... Poetas do Séc. XIX (3)... Antero Quental

 

AS FADAS

 

"As fadas... eu creio nelas!

Umas são moças e belas,

Outras, velhas de pasmar...

Umas vivem nos rochedos,

Outras, pelos arvoredos,

Outras, à beira do mar...

 

Algumas em fonte fria

Escondem-se enquanto é dia,

Saem só ao escurecer...

Outras, debaixo da terra,

Nas grutas verdes da serra,

É que se vão esconder..."     

 

In “As Fadas”

 

Antero de Quental,

1842 - 1891

 

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Sábado, 12 de Julho de 2008

Recordando... Poetas do Séc. XIX (3)... Alexandre Herculano

FELICIDADE

 

Mas, enfim, eu te achei, meu consolo;
Eu te achei, oh milagre de amor!
Outra vez, vibrará um suspiro
No alaúde do pobre cantor.

 

Eras tu, eras tu que eu sonhava;
Eras tu quem eu já adorei,
Quando aos pés da mulher enganosa
Meu alento em canções derramei.

 

Se na terra este amor de poeta
Coração há que o possa pagar,
Serás tu, virgem pura dos campos,
Quem virá a minha harpa acordar?

 

 

In “A Geração de 70”

 

Alexandre Herculano

1810 – 1877

 

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Terça-feira, 8 de Julho de 2008

Recordando... Poetas do Séc. XIX (3)... António Feliciano Castilho

OS TREZE ANOS

     (Cantilena)

 

Já tenho treze anos,

que os fiz por Janeiro:

madrinha, casai-me

com Pedro Gaiteiro.

 

Já sou mulherzinha;

já trago sombreiro,

já bailo ao Domingo

com as mais no terreiro.

 

Já não sou Anita,

como era primeiro;

sou a Senhora Ana,

que mora no outeiro.

 

Nos serões já canto,

nas feiras já feiro,

já não me dá beijos

qualquer passageiro.

 

Quando levo as patas,

e as deito ao ribeiro,

olho tudo à roda,

de cima do outeiro.

 

E só se não vejo

ninguém pelo arneiro,

me banho co’as patas

Ao pé do salgueiro.

 

Miro-me nas águas,

rostinho trigueiro,

que mata de amores

a muito vaqueiro.

 

Miro-me, olhos pretos

e um riso fagueiro,

que diz a cantiga

que são cativeiro.

 

Em tudo, madrinha,

já por derradeiro

me vejo mui outra

da que era primeiro.

 

O meu gibão largo

de arminho e cordeiro,

já o dei à neta

do Brás cabaneiro,

 

dizendo-lhe: "Toma

gibão domingueiro,

de ilhoses de prata,

de arminho e cordeiro.

 

"A mim já me aperta,

e a ti te é laceiro;

tu brincas co’as outras

e eu danço em terreiro."

 

Já sou mulherzinha;

já trago sombreiro,

já tenho treze anos,

que os fiz por Janeiro.

 

Já não sou Anita,

sou a Ana do outeiro;

madrinha, casai-me

com Pedro Gaiteiro.

 

Não quero o sargento,

que é muito guerreiro,

de barbas mui feras

e olhar sobranceiro.

 

O mineiro é velho;

não quero o mineiro:

Mais valem treze anos

que todo o dinheiro.

 

Tão-pouco me agrado

do pobre moleiro,

que vive na azenha

como um prisioneiro.

 

Marido pretendo

de humor galhofeiro,

que viva por festas,

que brilhe em terreiro;

 

Que em ele assomando

co’o tamborileiro,

logo se alvorote

o lugar inteiro.

 

Que todos acorram

por vê-lo primeiro,

e todas perguntem

se ainda é solteiro.

 

E eu sempre com ele,

romeira e romeiro,

vivendo de bodas,

bailando ao pandeiro.

 

Ai, vida de gostos!

ai, céu verdadeiro!

ai, Páscoa florida,

que dura ano inteiro!

 

Da parte, madrinha,

de Deus vos requeiro:

Casai-me hoje mesmo

com Pedro Gaiteiro.

 

 

In "Líricas Portuguesas – Portugália Editora"

 

António Feliciano de Castilho

1800 – 1875

 

 

 

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Sexta-feira, 4 de Julho de 2008

Recordando... Poetas do Séc. XIX (3)... António Nobre

MEMÓRIA

 

Ora isto, Senhores, deu-se em Trás-os-Montes,
Em terras de Borba, com torres e pontes.
Português antigo, do tempo da guerra,
Levou-o o Destino pra longe da terra.
Passaram os anos, a Borba voltou,
Que linda menina que, um dia, encontrou!
Que lindas fidalgas e que olhos castanhos!
E, um dia, na Igreja correram os banhos.
Mais tarde, debaixo dum signo mofino,
Pela lua nova, nasceu um menino.
Ó mães dos poetas! sorrindo em seu quarto,
Que são virgens antes e depois do parto!
Num berço de prata, dormia deitado,
Três moiras vieram dizer-lhe o seu fado
(E abria o menino seus olhos tão doces):
«Serás um Príncipe! mas antes... não fosses.»
Sucede, no entanto, que o Outono veio
E, um dia, ela resolve ir dar um passeio.
Calçou as sandálias, toucou-se de flores,
Vestiu-se de Nossa Senhora das Dores:
«Vou ali adiante, à Cova, em berlinda,
António e já volto...» E não voltou ainda!
Vai o esposo, vendo que ela não voltava,
Vai lá ter com ela, por lá se quedava.
Ó homem egrégio! de estirpe divina,
De alma de bronze e coração de menina!
Em vão corri mundos, não vos encontrei
Por vales que fora, por eles voltei.
E assim se criou um anjo, o Diabo, a lua;
Ai corre o seu fado! a culpa não é tua!
Sempre é agradável ter um filho Virgílio,
Ouvi estes carmes que eu compus no exílio,
Ouvi-os vós todos, meus bons Portugueses!
Pelo cair das folhas, o melhor dos meses,
Mas, tende cautela, não vos faça mal...
Que é o livro mais triste que há em Portugal!

 

 

In “SÓ”

Estante Editora

 

António Nobre

1867 – 1900

 

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