Segunda-feira, 28 de Janeiro de 2008

Recordando... Poetas séc. XIX (2)... José Duro

 

EM BUSCA

 

Ponho os olhos em mim, como se olhasse um estranho,

E choro de me ver tão outro, tão mudado…

Sem desvendar a causa, o íntimo cuidado

Que sofro do meu mal — o mal de que provenho.

 

Já não sou aquele Eu do tempo que é passado,

Pastor das ilusões perdi o meu rebanho,

Não sei do meu amor, saúde não na tenho,

E a vida sem saúde é um sofrer dobrado.

 

A minh’alma rasgou-ma o trágico Desgosto

Nas silvas do abandono, à hora do sol-posto,

Quando o azul começa a diluir-se em astros…

 

E à beira do caminho, até lá muito longe,

Como um mendigo só, como um sombrio monge,

Anda o meu coração em busca dos seus rastros…

 

 

In “Antologia de Poetas Alentejanos”

 

José Duro

1876 – 1899

 

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Sexta-feira, 25 de Janeiro de 2008

Recordando... Poetas séc. XIX (2)... António Nobre

 

AQUI, SOBRE ESTAS ÁGUAS...

 

Aqui, sobre estas águas cor de azeite,
Cismo em meu lar, na paz que lá havia:
Carlota, à noite, ia ver se eu dormia
E vinha de manhã, trazer-me o leite.

 

Aqui, não tenho um único deleite!
Talvez... baixando, em breve, à água fria,
Sem um beijo, sem uma ave-maria,
Sem uma flor, sem o menor enfeite!

 

Ah, pudesse eu voltar à minha infância!
Lar adorado, em fumos, a distância,
Ao pé da minha irmã, vendo-a bordar:

 

Minha velha aia! Conta-me essa história
Que principiava, tenho-a na memória,
“Era uma vez...”
                           Ah! deixem-me chorar!

 

 

Canal da Mancha, 1891

In “SÓ” – Sonetos – 16

 

António Nobre

1867 – 1900

 

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Segunda-feira, 21 de Janeiro de 2008

Recordando... Poetas séc. XIX (2)... João de Lemos

 

NÃO TE ENTENDO CORAÇÃO

 

Mas se não amo, nem posso,
Que pode então isto ser?
Coração, se já morreste,
Porque te sinto bater?
Ai, desconfio que vives
Sem tu nem eu o saber.

 

Porque a olho quando a vejo?
Porque a vejo sem a olhar?
Porque longe dos meus olhos
Me andam os seus a lembrar?
Porque levo tantas horas
Nela somente a pensar?

 

Porque tímido lhe falo,
E dantes não era assim?
Porque mal a voz lhe escuto
Não sei o que sinto em mim?
Porque nunca um não me acode
Em tudo que ela diz sim?

 

Porque estremeço contente
Quando ela me estende a mão,
E se aos outros faz o mesmo
Porque é que não gosto e não?
Deveras que não me entendo,
Nem te entendo, coração.

 

Ou me enganas, ou te engano;
Se isto amor não pode ser,
Não atino, não conheço
Que outro nome possa ter;
Ai, coração, que vivemos
Sem tu nem eu o saber.

 

 

In ”366 Poemas Que Falam de Amor”

 

João de Lemos

1819 – 1890

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Sexta-feira, 18 de Janeiro de 2008

Recordando... Poetas séc. XIX (2)... Antero de Quental

 

SONHO

 

Sonhei – nem sempre o sonho é coisa vã –

Que um vento me levava arrebatado,
Através desse espaço constelado
Onde uma aurora eterna ri louçã...

As estrelas, que guardam a manhã,
Ao verem-me passar triste e calado,
Olhavam-me e diziam com cuidado:
Onde está, pobre amigo, a nossa irmã?

Mas eu baixava os olhos, receoso
Que traíssem as grandes mágoas minhas,
E passava furtivo e silencioso,

Nem ousava contar-lhes, às estrelas,
Contar às tuas puras irmãzinhas
Quanto és falsa, meu bem, e indigna delas!

 

 

Antero de Quental

1842 – 1891

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Segunda-feira, 14 de Janeiro de 2008

Recordando... Poetas séc. XIX (2)... João de Deus

CRUCIFIXO

 

"Minha mãe, quem é aquelle

Pregado n'aquella cruz?

- Aquelle, filho é Jesus...

É a santa imagem d'elle!

 

"E quem é Jesus? - É Deus!

"E quem é Deus? - Quem nos cria,

Quem nos manda a luz do dia

E fez a terra e os céos;

 

E veiu ensinar à gente

Que todos somos irmãos,

E devemos dar as mãos

Uns aos outros irmamente:

 

Todo Amor, toda bondade!

"E morreu? - Para mostrar

Que a gente pela Verdade

Se deve deixar matar.

 

In “Campo de Flores”

Imprensa Nacional – Lisboa

1896 – 2ª. Edição

 

João de Deus

1830 – 1896

 

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Sexta-feira, 11 de Janeiro de 2008

Recordando... Poetas séc. XIX (2)... Camilo Castelo Branco

 

ANEL

 

Dá-me um anel; mas que seja
Como o anel em que cingida
Tem gemido toda a minha vida.
Dá-me um anel; mas de ferro,
Negro, bem negro, da cor
Desta minha acerba dor,
Deste meu negro desterro!

 

Dá-me um anel; mas de ferro...
Sempre comigo hei-de tê-lo;
Há-de ser o negro elo,
Que me prenda à sepultura.
Quero-o negro...seja o estigma,
que decifre o escuro enigma,
Duma grande desventura.

 

Dá-me um anel; mas de ferro,
Que resista mais que os ossos
Dum cadáver aos destroços
Do roaz verme do pó.
Entre as cinzas alvacentas,
como espólio das tormentas
Apareça o ferro só.

 

E o teu nome impresso nele,
Falará dum grande amor,
Nutrido em ânsias de dor,
Pelo fel da sociedade...
Que teu nome nele escrito,
Nesse padrão infinito,
Vá comigo à Eternidade.

 

In “366 Poemas Que Falam de Amor”

 

Camilo Castelo Branco

1825 – 1890

 

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Segunda-feira, 7 de Janeiro de 2008

Recordando... Poetas séc. XX (2)... António Fogaça

 

DESGOSTOSA

 

 

O seu riso gentil que ainda me arrasta,
Como quem vai seguindo no deserto
Os raios dum clarão que julga perto,
Mas que a segui-lo toda a vida gasta;

 

Sua voz, seu olhar, sua alma casta
Todo esse altivo e festival concerto
— Brancas formas de luz que ao seio aperto
Sonhadamente, numa dor nefasta...

 

Esse porte de brilho e majestade
E o seu modo sincero, doce e honesto,
Tudo a sombra da Mágoa, sem piedade,

 

Velou, tocando-a com seu ar funesto!
Nunca eu sonhasse, ó íntima saudade,
Seu riso, voz, olhar e alma e gesto!...

                                                              

 

In "Líricas Portuguesas"

Portugália Editora – 1957 – Portugal

 

António Fogaça

1863 – 1888

 

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Sexta-feira, 4 de Janeiro de 2008

Recordando... Poetas séc. XIX (2)... Soares Passos

BALADA

 

O NOIVADO DO SEPULCRO

 

Vai alta a lua! na mansão da morte
Já meia-noite com vagar soou;
Que paz tranquila; dos vaivéns da sorte
Só tem descanso quem ali baixou.

 

Que paz tranquila!... mas eis longe, ao longe
Funérea campa com fragor rangeu;
Branco fantasma semelhante a um monge,
D'entre os sepulcros a cabeça ergueu.


Ergueu-se, ergueu-se!... na amplidão celeste
Campeia a lua com sinistra luz;
O vento geme no feral cipreste,
O mocho pia na marmórea cruz.

 

Ergueu-se, ergueu-se!... com sombrio espanto
Olhou em roda... não achou ninguém...
Por entre as campas, arrastando o manto,
Com lentos passos caminhou além.

 

Chegando perto duma cruz alçada,
Que entre ciprestes alvejava ao fim,
Parou, sentou-se e com a voz magoada
Os ecos tristes acordou assim:

 

"Mulher formosa, que adorei na vida,
"E que na tumba não cessei d'amar,
"Por que atraiçoas, desleal, mentida,
"O amor eterno que te ouvi jurar?

 

"Amor! engano que na campa finda,
"Que a morte despe da ilusão falaz:
"Quem d'entre os vivos se lembrara ainda
"Do pobre morto que na terra jaz?

 

"Abandonado neste chão repousa
"Há já três dias, e não vens aqui...
"Ai, quão pesada me tem sido a lousa
"Sobre este peito que bateu por ti!

 

"Ai, quão pesada me tem sido!" e em meio,
A fronte exausta lhe pendeu na mão,
E entre soluços arrancou do seio
Fundo suspiro de cruel paixão.

 

 

"Talvez que rindo dos protestos nossos,
"Gozes com outro d'infernal prazer;
"E o olvido cobrirá meus ossos
"Na fria terra sem vingança ter!

 

– "Oh nunca, nunca!" de saudade infinda
Responde um eco suspirando além...
– "Oh nunca, nunca!" repetiu ainda
Formosa virgem que em seus braços tem.

 

Cobrem-lhe as formas divinas, airosas,
Longas roupagens de nevada cor;
Singela c'roa de virgínias rosas
Lhe cerca a fronte dum mortal palor.

 

"Não, não perdeste meu amor jurado:
"Vês este peito? reina a morte aqui...
"É já sem forças, ai de mim, gelado,
"Mas inda pulsa com amor por ti.

 

"Feliz que pude acompanhar-te ao fundo
"Da sepultura, sucumbindo à dor:
"Deixei a vida... que importava o mundo,
"O mundo em trevas sem a luz do amor?

 

"Saudosa ao longe vês no céu a lua?
– "Oh vejo sim... recordação fatal!
– "Foi à luz dela que jurei ser tua
"Durante a vida, e na mansão final.

 

"Oh vem! se nunca te cingi ao peito,
"Hoje o sepulcro nos reúne enfim...
"Quero o repouso de teu frio leito,
"Quero-te unido para sempre a mim!"

 

E ao som dos pios do cantor funéreo,
E à luz da lua de sinistro alvor,
Junto ao cruzeiro, sepulcral mistério
Foi celebrada, d'infeliz amor.

 

Quando risonho despontava o dia,
Já desse drama nada havia então,
Mais que uma tumba funeral vazia,
Quebrada a lousa por ignota mão.

 

Porém mais tarde, quando foi volvido
Das sepulturas o gelado pó,
Dois esqueletos, um ao outro unido,
Foram achados num sepulcro só.

 

 

In “POESIAS” – 1858 – 1ª ed. 1856

 

Soares de Passos

1826 – 1860

 

 

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Terça-feira, 1 de Janeiro de 2008

FELIZ ANO 2008!

ANO NOVO

 

Transformem-se:

 

os canhões

em carrilhões de catedral.

As metralhadoras

em  sinos de aldeia.

As granadas

em órgãos de capela.

Os tanques

em tractores.

O frio

em calor.

O ódio

em amor.

A indiferença

em cooperação.

As mãos que destroem

em  mãos que constroem.

 

 

Que a Catedral

deste Natal

perdure todo o ano.

 

 

Que o Homem

seja um verdadeiro irmão

dos outros homens.

Que a mão

só se levante,

para ajudar outras mãos.

 

Que nunca mais se busque

justificação para matar

qualquer irmão

e muito menos, qualquer Criança.

 

Que o Ano Novo

seja concretização

da nossa Esperança.

 

In "Fala a Meus Amigos" – Edição da Autora – 1977 – Lisboa

 

Ana Bela Pita da Silva

N. 1939

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