Segunda-feira, 31 de Dezembro de 2007

Recordando... Poetas do Séc. XX (2)... António Ramos Rosa

 

AMO O TEU TÚMIDO CANDOR DE ASTRO

 

Amo o teu túmido candor de astro
a tua pura integridade delicada
a tua permanente adolescência de segredo
a tua fragilidade acesa sempre altiva

Por ti eu sou a leve segurança de um peito
que pulsa e canta a sua chama
que se levanta e inclina ao teu hálito de pássaro
ou à chuva das tuas pétalas de prata

Se guardo algum tesouro não o prendo
porque quero oferecer-te a paz de um sonho aberto
que dure e flua nas tuas veias lentas
e seja um perfume ou um beijo um suspiro solar

Ofereço-te esta frágil flor esta pedra de chuva
para que sintas a verde frescura
de um pomar de brancas cortesias
porque é por ti que vivo é por ti que nasço
porque amo o ouro vivo do teu rosto

 

In "O teu rosto" – 1994

 

António Ramos Rosa

N. 1924


 

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Sexta-feira, 28 de Dezembro de 2007

Recordando... Poetas do Séc. XX (2)... Anrique Paço D'Arcos

 

ESBOÇO

 

O seu perfil de sombra iluminado 
pela agonia rubra do sol-pôr;  
e, ao longe, e ao longe, o seu olhar magoado 
como um olhar de anunciação e amor...

O seu perfil de mágoa, ainda encoberto 
na sombra que este sonho fez maior,  
e o seu olhar sem fim, como um deserto 
de sombra, bem maior que a minha dor...

O seu perfil esguio, o seu perfil 
de Outono e primavera: - o mês de Abril,  
em Outubro, a querer reverdecer...

O seu perfil de noite e de alegria,  
laivado, aqui e além, da luz do dia,  
que no sol-pôr, além, vai a morrer...


Anrique Paço D’Arcos
Henrique Belford Correia da Silva – Conde de Paço D’Arcos

1906 – 1993

 

 

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Terça-feira, 25 de Dezembro de 2007

Recordando... Poetas do Séc. XX (2)... Jorge de Sena

NATAL DE 1971

 

Natal de quê? De quem?

Daqueles que o não têm?

Dos que não são cristãos?

Ou de quem traz às costas

As cinzas de milhões?

Natal de paz agora

Nesta terra de sangue?

Natal de liberdade

Num mundo de oprimidos?

Natal de uma justiça

Roubada sempre a todos?

Natal de ser-se igual

Em ser-se concebido,

Em de um ventre nascer-se,

Em por de amor sofrer-se,

Em de morte morrer-se,

E de ser-se esquecido?

Natal de caridade,

Quando a fome ainda mata?

Natal de qual esperança

Num mundo todo bombas?

Natal de honesta fé,

Com gente que é traição,

Vil ódio, mesquinhez,

E até Natal de amor?

Natal de quê? De quem?

Daqueles que o não têm?

Ou dos que olhando ao longe

Sonham de humana vida

Um mundo que não há?

Ou dos que se torturam

E torturados são

Na crença de que os homens

Devem estender-se a mão?         

 

In “Exorcismos”

 

Jorge de Sena

1919 – 1978

 

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Segunda-feira, 24 de Dezembro de 2007

Recordando... Poetas do Séc. XX (2)... Castro Reis

 

O INVERNO DA VIDA

 

É por dentro de mim que peregrino,

Nesta hora de angústia e de amargor!...

Pois já venho sofrendo. De menino,

Maus Invernos, de morte e de rigor!

 

Deus quer que eu cumpra assim o meu destino

De Poeta e Mendigo do Amor!...

Quem nasceu para os rumos do Divino,

Terá que ser eterno sofredor!

 

Depois de tanto Inverno e tempestade,

Do que fui, vejo assim tombar a árvore,

Só me restando a compaixão de Deus!

 

Quando chegar a hora do meu fim,

Não importa se lembrem mais de mim,

- Mas não deixem morrer os versos meus!

 

 

In “Etéreas Sinfonias de Natal”

 

Castro Reis

1918 – 2007

 

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Sexta-feira, 21 de Dezembro de 2007

Recordando... Poetas do Séc. XX (2)... Eugénio de Andrade

 

O INVERNO

 

 

Velho, velho, velho.

Chegou o Inverno.

 

Vem de sobretudo,

Vem de cachecol,

O chão onde passa

Parece um lençol.

 

Esqueceu as luvas

Perto do fogão:

Quando as procurou,

Roubara-as um cão.

 

Com medo do frio

Encosta-se a nós:

Dai-lhe café quente

Senão perde a voz.

 

Velho, velho, velho.

Chegou o Inverno.

 

 

In "Aquela Nuvem e Outras"

 

Eugénio de Andrade

1923 – 2005 

 

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Segunda-feira, 17 de Dezembro de 2007

Recordando... Poetas do Séc. XX (2)... António Gedeão

 

LÁGRIMA DE PRETA

 

 

Encontrei uma preta

Que estava a chorar,

Pedi-lhe uma lágrima

Para a analisar.

 

Recolhi a lágrima

Com todo o cuidado

Num tubo de ensaio

Bem esterilizado.

 

Olhei-a de um lado,

Do outro e de frente:

Tinha um ar de gota

Muito transparente.

 

Mandei vir os ácidos,

As bases, os sais,

As drogas usadas

Em casos que tais.

 

Ensaiei a frio,

Experimentei ao lume,

De todas as vezes

Deu-me o que é costume:

 

Nem sinais de negro,

Nem vestígios de ódio,

Água (quase tudo)

E cloreto de sódio.

 

 

In "Poesias Completas"

 

António Gedeão

1906 – 1997

 

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Sexta-feira, 14 de Dezembro de 2007

Recordando... Poetas do Séc. XX (2)... Álvaro Feijó

 

OS DOIS SONETOS DE AMOR
                              DA HORA TRISTE

 

 

Quando eu morrer – e hei-de morrer primeiro 
do que tu – não deixes fechar-me os olhos,  
meu Amor. Continua a espelhar-te nos meus olhos 
e ver-te-ás de corpo inteiro 

como quando sorrias no meu colo.  
E, ao veres que tenho toda a tua imagem 
dentro de mim, se então tiveres coragem,  
fecha-me os olhos com um beijo.  

Eu, Marco Pólo,  
farei a nebulosa travessia,  
e o rastro da minha barca 
segui-lo-ás em pensamento.

 

Abarca nele o mar inteiro, o porto, a ria... 
E, se me vires chegar ao cais dos céus,  
ver-me-ás, debruçado sobre as ondas, para dizer-te adeus. 


II

Não um adeus distante 
ou um adeus de quem não torna cá 
nem espera tornar. Um adeus de até já,  
como a alguém que se espera a cada instante.  

Que eu voltarei. Eu sei que hei-de voltar 
de novo para ti, no mesmo barco 
sem remos e sem velas, pelo charco 
azul, do céu, cansado de lá estar.  

E viverei em ti como um eflúvio, uma recordação 
E não quero que chores para fora,  
Amor, que tu bem sabes que quem chora 

assim, mente. E se quiseres partir e o coração 
to peça, diz-mo. A travessia é longa... Não atino 
talvez na rota. Que nos importa, aos dois, ir sem destino?

Álvaro Feijó

1916 – 1941

 

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Segunda-feira, 10 de Dezembro de 2007

Recordando... Poetas do Séc. XX (2)... Herberto Hélder

 

FONTE – I

 

Ela é a fonte. Eu posso saber que é

a grande fonte

em que todos pensaram. Quando no campo

se procurava o trevo, ou em silêncio

se esperava a noite,

ou se ouvia algures na paz da terra

o urdir do tempo – 

cada um pensava na fonte. Era um manar

secreto e pacífico.

Uma coisa milagrosa que acontecia

ocultamente.

 

Ninguém falava dela, porque

era imensa. Mas todos a sabiam

como a teta. Como o odre.

Algo sorria dentro de nós.

 

Minhas irmãs faziam-se mulheres

suavemente. Meu pai lia.

Sorria dentro de mim uma aceitação

do trevo, uma descoberta muito casta.

Era a fonte.

 

Eu amava-a dolorosa e tranquilamente.

A lua formava-se

com uma ponta subtil de ferocidade,

e a maçã tomava um princípio

de esplendor.

 

Hoje o sexo desenhou-se. O pensamento

perdeu-se e renasceu.

Hoje sei permanentemente que ela

é a fonte.

 

 

Herberto Hélder

N. 1930

 

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Sexta-feira, 7 de Dezembro de 2007

Recordando... Poetas do Séc. XX (2)... Manuel Alegre

 

E ALEGRE SE FEZ TRISTE

 

 

Aquela clara madrugada que

Viu lágrimas correrem do teu rosto

E alegre se fez triste como se

Chovesse de repente em pleno Agosto.

 

Ela só viu meus dedos nos teus dedos

Meu nome no teu nome. E demorados

Viu nossos olhos juntos nos segredos

Que em silêncio dissemos separados.

 

A clara madrugada em que parti.

Só ela viu teu rosto olhando a estrada

Por onde um automóvel se afastava.

 

E viu que a Pátria estava toda em ti.

E ouviu dizer-me adeus: essa palavra

Que fez tão triste a clara madrugada.

 

 

In "O Canto e as Armas"

 

Manuel Alegre

N. 1936

 

 

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Segunda-feira, 3 de Dezembro de 2007

Recordando... Poetas do Séc. XX (2)... Manuel da Fonseca

 

ALDEIA

 

Nove casas,

Duas ruas,

Ao meio das ruas

Um largo,

Ao meio do largo

Um poço de água fria.

 

Tudo isto tão parado

E o céu tão baixo

Que quando alguém grita para longe

Um nome familiar

Se assustam pombos bravos

E acordam ecos no descampado.     

 

 

In "Poemas Completos"

 

Manuel da Fonseca

1911 – 1993

 

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