Segunda-feira, 30 de Julho de 2007

Recordando... Prof. Hernâni Monteiro

O MÉDICO PERFEITO

 

Humilde, não soberbo ou presunçoso;

Com os pobres, então, caritativo;

Benigno e manso, nunca vingativo;

Discreto e nem por sombras invejoso.

 

 

Amigo, sim, das letras e curioso;

Obreiro infatigável, sempre activo;

Desde o nascer do sol, alegre e vivo,

Até ao sol poente, nunca ocioso.

 

 

Sabedor, sem que o mostre envaidecido;

Na sua profissão, um desprendido;

Decente no trajar, morigerado,

 

 

Prudente, cauteloso, não arteiro,

E não murmurador, nem lisonjeiro

– Eis o Perfeito Médico esboçado.

 

 

Soneto – 1948

 

Prof. Hernâni Monteiro

1891 – 1963

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Sexta-feira, 27 de Julho de 2007

Recordando... Cesário Verde

 

DE TARDE

 

Naquele “pic-nic” de burguesas,
Houve uma coisa simplesmente bela,
E que, sem ter história nem grandezas,
Em todo o caso dava uma aguarela.  

 

Foi quando tu, descendo do burrico,
Foste colher, sem imposturas tolas,
A um granzoal azul de grão-de-bico
Um ramalhete rubro de papoulas.  

 

Pouco depois, em cima duns penhascos,
Nós acampámos, indo o Sol se via;
E houve talhadas de melão, damascos,
E pão-de-ló molhado em malvasia.

 

Mas, todo púrpuro, a sair da renda
Dos teus dois seios como duas rolas,
Era o supremo encanto da merenda
O ramalhete rubro das papoulas!

 

Cesário Verde

1855 – 1886

In "O Livro de Cesário Verde"

 

 

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Quarta-feira, 25 de Julho de 2007

Recordando... Francisco de Vasconcelos

A UM ROUXINOL CANTANDO

Ramalhete animado, flor do vento,
Que alegremente teus ciúmes choras
Tu, cantando teu mal, teu mal melhoras,
Eu, chorando meu mal, meu mal aumento.

Eu digo minha dor ao sofrimento
Tu cantas teu pesar a quem namoras,
Tu esperas o bem todas [as] horas,
Eu tenho qualquer mal tudo o momento.

Ambos agora estamos padecendo
Por decreto cruel do deos mínimo;
Mas eu padeço mais só porque entendo.

Que é tão duro e cruel o meu destino
Que tu choras o mal que estás sofrendo,
Eu choro o mal que sofro e que imagino.


IN "Fénix Renascida" III

 

Francisco de Vasconcelos

1665 – 1723

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Segunda-feira, 23 de Julho de 2007

Recordando... Camilo Pessanha

 

FLORIRAM POR ENGANO AS ROSAS BRAVAS

 

Floriram por engano as rosas bravas
No Inverno: vejo o vento desfolhá-las...
Em que cismas, meu bem? Porque me calas
As vozes com que há pouco me enganavas?

Castelos doidos! Tão cedo caístes!...
Onde vamos, alheio o pensamento,
De mãos dadas? Teus olhos, que num momento
Perscrutaram nos meus, como vão tristes!

E sobre nós cai nupcial a neve.
Surda, em triunfo, pétalas, de leve
Juncando o chão, na acrópole de gelos...

Em redor do teu vulto é como um véu!
Quem as esparze – quanta flor! – do céu,
Sobre nós dois, sobre os nossos cabelos?

 

 

Camilo Pessanha

1867 – 1926

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Sexta-feira, 20 de Julho de 2007

Recordando... Fernando Pessoa/Ricardo Reis

SÓ ESTA LIBERDADE NOS CONCEDEM

 

Só esta liberdade nos concedem
Os deuses; submetermo-nos
Ao seu domínio por vontade nossa.
Mais vale assim fazermos
Porque só na ilusão da liberdade
A liberdade existe.

Nem outro jeito os deuses, sobre quem
O eterno fado pesa,
Usam para seu calmo e possuído
Convencimento antigo
De que é divina e livre a sua vida.

Nós, imitando os deuses,
Tão pouco livres como eles no Olimpo,
Como quem pela areia
Ergue castelos para encher os olhos,
Ergamos nossa vida
E os deuses saberão agradecer-nos
O sermos tão como eles.


30/07/1914

 

Fernando Pessoa

Ricardo Reis

1887 – 1935 (?)

 

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Quarta-feira, 18 de Julho de 2007

Recordando... Bernardim Ribeiro

DE MIM ME SOU FEITO ALHEO

 

 

De mim me sou feito alheo;

antr'o cuidado e cuidado

está um mal derramado

que por mal grande me veo.

Nova dor, novo receo

foi este que me tomou:

assi me tem, assi estou.

 

D'esperança em esperança

pouco a pouco me levou

grand'engano ou confiança

que me tam longe leixou.

Se m'isto tomara outrora,

cuidara de ver-lhe fim:

mas qu'ei-de cuidar j'agora

sem esperança e sem mim!

 

 

Bernardim Ribeiro

1482 (?) – 1552 (?)

 

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Segunda-feira, 16 de Julho de 2007

Recordando de novo... Teixeira Pascoaes

POETA

 

Quando a primeira lágrima aflorou

Nos meus olhos, divina claridade

A minha pátria aldeia alumiou

Duma luz triste, que era já saudade.

 

Humildes, pobres cousas , como eu sou

Dor acesa na vossa escuridade...

Sou, em futuro, o tempo que passou

Em num, o antigo tempo é nova idade.

 

Sou fraga da montanha, névoa astral,

Quimérica figura matinal,

Imagem de alma em terra modelada.

 

Sou o homem de si mesmo fugitivo;

Fantasma a delirar, mistério vivo,

A loucura de Deus, o sonho e o nada.

 

 IN "Sempre" (1898)

 

Teixeira de Pascoaes

1877 – 1952

 

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Sexta-feira, 13 de Julho de 2007

Recordando... Camilo Castelo Branco

 

OS AMIGOS

 

Amigos, cento e dez, ou talvez mais,

Eu já contei. Vaidades que sentia:

Supus que sobre a Terra não havia

Mais ditoso mortal entre os mortais!

 

Amigos, cento e dez, tão serviçais,

Tão zelosos das leis da cortesia,

Que já farto de os ver me escapulia

Às suas curvaturas vertebrais.

 

Um dia adoeci profundamente:

Ceguei. Dos cento e dez houve um somente

Que não desfez os laços quase rotos.

 

– Que vamos nós – diziam – lá fazer?

Se ele está cego, não nos pode ver!...

– Que cento e nove impávidos marotos.

 

 

Camilo Castelo Branco

1825 – 1890

 

Gentilmente enviado por minha

Amiga/Irmã Maria Albertina

 

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Quarta-feira, 11 de Julho de 2007

Recordando... Adolfo Casais Monteiro

                                                          

MADRUGADA

Ah! Este poema das madrugadas,
que há tanto tempo enrodilhado
num sem-fim de estados de alma
me obcecava, tirânico,
sem se deixar fixar!...

Madrugada... e esta solidão crescendo,
esta nostalgia maior, e maior, e maior,
de não se sabe o quê
— nunca se sabe o quê...
que haverá nestas horas sozinhas e geladas,
para assim trazer à tona as indefinidas mágoas,
as saudades e as ânsias sem motivo
— de que não sabemos o motivo?...

Vieram as saudades do tempo de menino
— ou dum paraíso lá não sei onde?
Ah! que fantasmas pesaram sobre os ombros,
que sombras desceram sobre os olhos,
que tristeza maior fez maior o silêncio?
A que vem esse calor distante e absorto,
esse calar, esses modos distraídos?
Meu pobre sonhador! a esta hora
porventura se desvenda a Suprema Inutilidade?
e a definitiva ilusão de tantos gestos?

Interroga, interroga...
vai sonhando,
sem que saibas sequer o caminho que segues
vai, distraído e pensativo,
alheio de hoje,
vivendo já o derradeiro segundo...

Que a madrugada tem o pungir das agonias,
mas alheio, como o fim dum pesadelo...

 

 

Adolfo Casais Monteiro

1908 – 1972

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Segunda-feira, 9 de Julho de 2007

Recordando... Campos Teixeira

 

TRINDADES

 

Hora de sonho – Trindades –

toca o sino em voz dolente...

Parece dentro da gente

baterem também saudades!

 

Trindades – hora de prece

volvida pura ao Senhor!

Vem-nos lembrar, com amor,

saudade que não esquece!

 

Trindades – hora infinita

que nos traz, serenamente,

a paz, a calma bendita

das penas de tanta gente!

 

Trindades – luz que esmorece

tristeza que, num carinho,

tem os afagos dum ninho,

dum sonho que se esvaece!...

 

 

Campos Teixeira

In Livro "Trovas Portuguesas" – 1924

Editora de A. Figueirinhas

 

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