Sexta-feira, 29 de Junho de 2007

Recordando... Vitorino Nemésio

 

SILÊNCIO

 

 

Silêncio é peso de Deus.

Levantar a voz começa

A pôr o homem sozinho

Como o morto numa essa.

 

Só o poeta, calado,

É como a espada dura

E o juízo formado.

Sua mão, no joelho,

Dá a medida pura

De um sonho muito velho.

 

Não dizer nada!

Ter um fato de lã

E a mão nele, apanhada

A maçã

Da promessa...

Mão de meu tio antigo,

Era essa, era essa

Que não trago comigo!

 

 

Vitorino Nemésio

1901 – 1978

 

 

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Quarta-feira, 27 de Junho de 2007

Recordando... Ângelo de Lima

 

EU ONTEM VI-TE…

Andava a luz

Do teu olhar,

Que me seduz

A divagar

Em torno a mim.

E então pedi-te,

Não que me olhasses,

Mas que afastasses,

Um poucochinho,

Do meu caminho,

Um tal fulgor

De medo, amor,

Que me cegasse,

Me deslumbrasse,

Fulgor assim.

 

 

Ângelo de Lima

1872 – 1921

 

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Segunda-feira, 25 de Junho de 2007

Recordando... Fernando Pessoa

AUTOPSICOGRAFIA

 

O poeta é um fingidor,

Finge tão completamente

Que chega a fingir que é dor

A dor que deveras sente.

 

 

E os que lêem o que escreve,

Na dor lida sentem bem

Não as duas que ele teve

Mas só a que eles não têm.

 

 

E assim nas calhas de roda

Gira, a entreter a razão,

Esse comboio de corda

Que se chama coração.

 

 

Fernando Pessoa

Poesias – 1932

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Sexta-feira, 22 de Junho de 2007

Recordando... Elísio de Vasconcelos

 

CONFIDENTE

 

O sol vai a morrer… Cair da tarde

            na serrania agreste.

O vento faz queixumes, sem alarde

            da mágoa que o reveste!

 

 

Triste do vento… Passa no arvoredo

            soprando brandamente;

por entre as franças, canta quási a medo,

            num ritmo dolente.

 

 

Porque entristeço, ouvindo-te soprar,

            ó vento, meu amigo?!

Porque não é teu o meu penar,

            e tu choras comigo!...

 

 

Elísio de Vasconcelos

1907 -1965

A Ternura Que Me Deste – 1945

 

 

 

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Quarta-feira, 20 de Junho de 2007

Recordando... Sofia de Mello Breyner

Ausência

 

Num deserto sem água
Numa noite sem lua
Num país sem nome
Ou numa terra nua

 

Por maior que seja o desespero
Nenhuma ausência é mais funda do que a tua.

 

Sofia de Mello Breyner

1919 – 2004

 

(Remetido por e-mail pela minha amiga a pintora Manuela Graça.)

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Segunda-feira, 18 de Junho de 2007

Recordando... Ary dos Santos

POETA CASTRADO NÃO!

Serei tudo o que disserem
por inveja ou negação:
cabeçudo dromedário
fogueira de exibição
teorema corolário
poema de mão em mão
lãzudo publicitário
malabarista cabrão.
Serei tudo o que disserem:
Poeta castrado não!

Os que entendem como eu
as linhas com que me escrevo
reconhecem o que é meu
em tudo quanto lhes devo:
ternura como já disse
sempre que faço um poema;
saudade que se partisse
me alagaria de pena;
e também uma alegria
uma coragem serena
em renegar a poesia
quando ela nos envenena.

Os que entendem como eu
a força que tem um verso
reconhecem o que é seu
quando lhes mostro o reverso:

Da fome já não se fala
- é tão vulgar que nos cansa -
mas que dizer de uma bala
num esqueleto de criança?

Do frio não reza a história
 – a morte é branda e letal –
mas que dizer da memória
de uma bomba de napalm?

E o resto que pode ser
o poema dia a dia?
- Um bisturi a crescer
nas coxas de uma judia;
um filho que vai nascer
parido por asfixia?!
- Ah não me venham dizer
que é fonética a poesia!

Serei tudo o que disserem
por temor ou negação:
Demagogo mau profeta
falso médico ladrão
prostituta proxeneta
espoleta televisão.
Serei tudo o que disserem:
Poeta castrado não!

 

Ary dos Santos

1937 – 1984

 

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Sexta-feira, 15 de Junho de 2007

Recordando... Zeca Afonso

MENINO DE OIRO

 

O meu menino é d'oiro
É d'oiro fino
Não façam caso que é pequenino
O meu menino é d'oiro
D'oiro fagueiro
Hei-de levá-lo no meu veleiro.

 

Venham aves do céu
Pousar de mansinho
Por sobre os ombros do meu menino
Do meu menino, do meu menino
Venha comigo venham
Que eu não vou só
Levo o menino no meu trenó.

 

Quantos sonhos ligeiros
p'ra teu sossego
Menino avaro não tenhas medo
Onde fores no teu sonho
Quero ir contigo
Menino de oiro sou teu amigo

 

Venham altas montanhas
Ventos do mar
Que o meu menino
Nasceu p'r'amar
Venha comigo venham
Que eu não vou só
Levo o menino no meu trenó.

 

José Afonso

(1929 – 1987)

In "As primeiras canções"

 

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Quarta-feira, 13 de Junho de 2007

Recordando... Augusto Gil

BALADA DA NEVE

 

Batem leve, levemente,

Como quem chama por mim...

Será chuva? Será gente?

Gente não é, certamente

E a chuva não bate assim...

 

É talvez a ventania;

Mas há pouco, há poucochinho,

Nem uma agulha bulia

Na quieta melancolia

Dos pinheiros do caminho...

 

Quem bate, assim, levemente,

Com tão estranha leveza,

Que mal se ouve, mal se sente?

Não é chuva, nem é gente,

Nem é vento, com certeza.

 

Fui ver. A neve caía

Do azul cinzento do céu,

Branca e leve, branca e fria...

- Há quanto tempo a não via!

E que saudade, Deus meu!

 

Olho-a através da vidraça.

Pôs tudo da cor do linho.

Passa gente e, quando passa,

Os passos imprimem e traça

Na brancura do caminho...

 

Fico olhando esses sinais

Da pobre gente que avança

E noto, por entre os mais,

Os traços miniaturais

Duns pezitos de criança...

 

E descalcinhos, doridos...

A neve deixa inda vê-los

Primeiro bem definidos,

- Depois em sulcos compridos,

Porque não podia erguê-los!...

 

Que quem já é pecador

Sofra tormentos, enfim!

Mas as crianças, Senhor,

Porque lhes dais tanta dor?!...

Porque padecem assim?!...

 

E uma infinita tristeza,

Uma funda turbação

Entra em mim, fica em mim presa.

Cai neve na natureza

- E cai no meu coração.

 

Augusto Gil – In "Luar de Janeiro" 

1873 – 1929

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Segunda-feira, 11 de Junho de 2007

Recordando... José Gomes Ferreira

VIVAM APENAS

 

Vivam, apenas

Sejam bons como o sol.

Livres como o vento.

Naturais como as fontes

 

Imitem as árvores dos caminhos

que dão flores e frutos

sem complicações.

 

Mas não queiram convencer os cardos

a transformar os espinhos

em rosas e canções.

 

E principalmente não pensem na Morte.

Não sofram por causa dos cadáveres

que só são belos

quando se desenham na terra em flores.

 

Vivam, apenas.

A Morte é para os mortos!  

 

 

José Gomes Ferreira

1900 – 1985

 

 

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Domingo, 10 de Junho de 2007

Dia de Portugal... Dia de Camões...

CAMÕES

 

Camões comparado

Aos mais escritores,

Nem entre os maiores

Foi sempre igualado:

 

Qual deles deu brado

Com tantos primores,

Tais frutos e flores

De engenho inspirado?

 

Com graças tão finas,

Ciência tamanha?

Estâncias divinas!

 

Qual deles ganha?

Os mais são colinas,

Ele é a montanha.

 

 

João de Deus

1830 – 1896

 

 

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