Segunda-feira, 30 de Abril de 2007

Recordando... Vitorino Nemésio

ANJOS

 

Os anjos são rijos como as pedras
E leves como as plumas.
Na leira rasa das aves, Tu que redras
Terra, névoas e espumas,
-Deus, de teu nome! - sabes
que um anjo é pouco e imenso:
Por isso cabes
No cabes no anjo e ergues o incenso.

Desfaleço a pensar-te
Ó ser de anjos e Deus
Que baixa em mim:
Sobe-me na alma, que ando a procurar-te
E dizendo-te Deus
Acho-te assim.

Lívidos, sem respiração
Ficávamos do toque
Da primeira asa vinda;
Mas eles rondam apenas a oração
Que murmura os evoque
E vão-se e tornam ainda.

Deles para cima, ainda mais graus de glória
Relutam ao sentido
Que deles vem á memória
Como uma bolha de ar na água de olvido:
No mais, são tão pesados,
Os anjos leves ao justo...
Tão alados,
Mas desgostosos do nosso susto!

É isso! Disse-mo agora
O verbo súbito surpreso:
Ser anjo é espanto da demora
Nossa e do peso pávido
Que nos estende.
Terrível é quem toca terra
Para a levar, e não a rende.

Que o anjo de si é ávido
De transe e rapidez,
E é ele que chora
Nosso chumbo hora a hora
É ele que não entende
A nossa estupidez.

Vitorino Nemésio

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Recordando... António Gedeão

 

 

 HOMEM

 

 

Inútil definir este animal aflito.

Nem palavras,

nem cinzéis,

nem acordes,

nem pincéis

são gargantas deste grito.

Universo em expansão.

Pinceladas de zarcão

desde mais infinito a menos infinito.

 

 

António Gedeão, Movimentos Perpétuos, 1956

 

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Sexta-feira, 27 de Abril de 2007

De um passado recente...

ORAÇÃO

 

 

Oh, Senhor, que beleza, que harmonia!

As graças nós Vos damos, porque agora,

Aqui, onde o canhou troou outrora,

Reina a bendita Paz e a alegria!

 

 

Os campos já floriram - que magia!

E o rosto do cruzeiro já não chora

Pois brincam as crianças ali fora

Enquanto os pais rezam: Avé Maria.

 

 

Já lá vão os rebanhos a pastar

E voltam as ceifeiras a cantar...

... Tanta alegria e fé que o mundo tem!

 

 

Oh, Senhor! Não deixeis que volte a guerra

A destruir a Paz que há na Terra.

- Bendito seja Deus, faz que assim seja:

                                                                  - Amen.

Oliveira Estêvão - Porto, Maio de 1945

In Livro "Pedaços da minha alma"

Edição do Autor - 1ª Edição 1971

 

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Continuando no passado...

Saudades de Portugal

 

 

Quando o Sol já vem cansado

de vencer tanto caminho,

e busca a sombra dum ninho,

setinoso aconchegado,

vê Portugal num cantinho,

envolto em graça louçã...

e quer parar no caminho,

abrindo a luz da manhã!

 

 

Vai o Sol meio da estrada...

- brilha então com mais fulgor,

sempre a beijar com amor

terra por Deus bem-fadada!

E na luz cariciosa

dum inefável carinho,

dá vida e perfume à rosa,

aquece as penas do ninho.

 

 

Á tarde, o Sol sôbre o mar

vai descendo lentamente...

e na luz dum tom dolente

tem a sombra dum pesar...

Saudades!... quem as não sente?!

também o Sol leva mágoas...

e vai assim, lentamente,

descendo além, sôbre as águas...

 

 

Campos Teixeira

In Livro "Trovas Portuguesas" - 1924

Editora de A. Figueirinhas

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Quarta-feira, 25 de Abril de 2007

De volta ao passado...

A um poeta

 

Tu, que dormes, espírito sereno,

Posto à sombra dos cedros seculares,

Como um levita à sombra dos altares,

Longe da luta e do fragor terreno,

Acorda! É tempo! O sol, já alto e pleno,

Afugentou as larvas tumulares...

Para surgir do meio desses mares,

Um mundo novo espera só um aceno...

Escuta! É a grande voz das multidões!

São teus irmãos, que se erguem! São canções...

Mas de guerra... e são vozes de rebate!

Ergue-te pois, soldado do Futuro,

E dos raios de luz do sonho puro,

Sonhador, faze espada de combate!

 

Antero de Quental

(1842-1891)

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À minha mãe que hoje completa 86 anos...

MÃE PRECISO DE TI!

 

Mãe preciso de ti!

 

Preciso dos teus olhos

para me ensinares

a ver e a respeitar

aquilo que não tendo forma

eu não consigo tocar.

 

Mãe preciso de ti!

 

Preciso dos teus braços

para me abraçares

quando a chorar

vou aninhar-me no teu colo

e me fazes esquecer

o desgosto que acabei de ter.

 

Mãe preciso de ti!

 

Preciso das tuas mãos

para me ensinares

a colher uma margarida

sem destruir as outras

ou deixar a planta ferida.

 

Mãe preciso de ti!

 

Preciso da tua paciência

para me ouvires

contar as fantasias

que consigo imaginar

sem o meu sonho destruíres.

 

Mãe preciso de ti!

 

Preciso da tia inteligência

para deixares

que eu faça, sem interferências,

as minhas próprias experiências

e que te descreva aquilo

que para ti é evidente

de maneira completamente

diferente.

 

Mãe preciso de ti!

 

Preciso da tua presença

para poder compreender

as forças da Natureza

e ter realmente existência

na tua ausência.

 

Mãe preciso de ti!

 

Preciso que sejas adulta

para que eu possa crescer

com esperança

e ser agora apenas

Criança.

 

Ana Bela

In Livro "Fala a Meus Amigos"

 

 

 

 

sinto-me: Muito feliz...
: Xaile de minha mãe.
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Segunda-feira, 23 de Abril de 2007

Continuando no passado...

A máscara

 

Esta luz animada e desprendida

Duma longínqua estrela misteriosa

Que, vindo reflectir-se em nosso rosto,

Acende nele estranha claridade;

Esta lâmpada oculta, em nossa máscara

Tomada transparente e radiante

De alegria, de dor ou desespero

E de outros sentimentos emanados

Do coração de um anjo ou de um demónio;

Este retrato ideal e verdadeiro,

Composto de alma e corpo e de que somos

A trágica moldura, errando à sorte,

É ela, é ela, a nossa aparição,

Feita de estrelas, sombras, ventanias

E séculos sem fim, surgindo, enfim,

Cá fora, sobre a Terra. à luz do Sol.

 

Teixeira de Pascoaes

(1877-1952)

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De regresso ao passado...

Pára-me de repente o pensamento

 

Pára-me de repente o pensamento

Como que de repente refreado

Na doida correria em que levado

Ia em busca da paz do esquecimento.

 

Pára surpreso, escrutador, atento,

Como pára um cavalo alucinado

Ante um abismo súbito rasgado,

Pára e fica, e demora-se um momento.

 

Pára e fica, na doida correria.

Pára à beira do abismo, e se demora

E mergulha na noite escura e fria

 

Um olhar de aço, que essa noite explora.

Mas a espera da dor seu flanco estria

E ele galga e prossegue sob a espora...

 

Ângelo de Lima

(1872-1921)

 

"Posso muitas vezes não sentir nem pensar

no que digo, mas o que escrevo, sinto-o sempre,

e sempre o penso." (Ângelo de Lima)

Poeta muito estimado, mas infeliz, foi internado

no Hospital Psiquiátrico de Rilhafoles .

 

 

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Quinta-feira, 19 de Abril de 2007

Viagem ao passado...

Antre mim mesmo e mim

 

Antre mim mesmo e mim

nam sei que s'alevantou

que tam meu imigo sou.

Uns tempos com grand'engano

vivi eu mesmo comigo;

agora no mor perigo

se me descobre o mor dano.

Caro custa um desengano,

e, pois m'este nam matou,

quam caro que me custou.

Bernardim Ribeiro

(séc. XVI)

Nada se sabe da biografia do autor,

apenas que colaborou no Cancioneiro Geral

de Garcia de Resende.

Este é o português da época.

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Recordando...

IMPOSSÍVEL

 

Pudesse, alguma vez, est'alma inquieta,

Conhecer da Verdade a transcendência!

Dar-lhe, depois, a simples aparência

Duma coisa concreta...

Conseguisse atingir, do Sonho, a meta;

Em cada verso, revelar a Essência,

- Como a luz nos revela a transparência -

E seria um Poeta!

Mas, não! É bem melhor este impossível,

Que me deixa sentir, dentro do peito,

O coração a latejar, sensível,

A dor humana, eterna, incoercível,

- Embora insatisfeito!

 

Carlos Queirós

(1907/1949)

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