Quinta-feira, 25 de Agosto de 2016

Recordando... A. Dasilva O.

MALDITO SEJA EU

 

Hoje acordei dividido

na impossibilidade

de me transformar numa metáfora

 

Assim preso

a um muro de vídeo

cheio de imagens

feridas pelo impessoal

 

Restos de mim

espalhados pelo chão

de uma época

que não consigo destruir

 

In “Revista A Mar Arte”

Nº 5 - Outono de 1996

Pág. 32

 

A. Dasilva O. **

(N. 1958)

 

** Pseudónimo de António S. Oliveira

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Sexta-feira, 19 de Agosto de 2016

Recodando... Luís Veiga Leitão

CORREDOR

 

Cem metros à sombra – temperatura

de tantos corpos e almas em rodagem.

neste muro cercado, a maior viagem

sob um céu de pedra escura.

 

Sombras em fila, espectros talvez,

desplantam ecos da raiz do chão.

Lembram comboios que vêm e vão

sob túneis de pez.

 

E vêm e vão com pés humanos

ressoando movimentos tardos,

levando fardos, trazendo fardos

das horas sem dias e meses sem anos.

 

E vêm e vão, sempre, sempre a rodar

na linha dos railes espectrais,

sem descarregadores na gare,

sem guindastes no cais.

 

E vêm e vão pela via larga

das redes do sonho e da lembrança,

levando a carga, trazendo a carga

de toneladas de esperança.

 

In “Surrealismo Abjeccionismo”

Antologia organizada por Mário Cesariny

Edições Salamandra

 

Luís Veiga Leitão **

(1912-1987)

 

** Pseudónimo de Luís Maria Leitão

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Sábado, 13 de Agosto de 2016

Recordando... Fernando Assis Pacheco

TENTAS, DE LONGE...

 

Tentas, de longe, dizer que estás aqui.

Com peso triste caminha na rua o Outono.

O meu coração debruça-se à janela

a ver pessoas e carros, e as folhas caíndo.

 

Mastigo esta solidão

como quando era pequeno e jantava

diante dos pais zangados:

devagar, ausente.

 

In "A musa irregular"

Ed. Asa - 1997

 

Fernando Assis Pacheco

(1937-1995)

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Domingo, 7 de Agosto de 2016

Recordando... José Duro

DOENTE

 

Que negro mal o meu! estou cada vez mais rouco!

Fogem de mim com asco as virgens d'olhar cálido...

E os velhos, quando passo, vendo-me tão pálido,

Comentam entre si: - coitado, está por pouco!...

 

Por isso tenho ódio a quem tiver saúde,

Por isso tenho raiva a quem viver ditoso,

E, odiando toda a gente, eu amo o tuberculoso.

E só estou contente ouvindo um alaúde.

 

Cada vez que me estudo encontro-me diferente,

Quando olham para mim é certo que estremeço;

E vai, pensando bem, sou, como toda a gente,

O contrário talvez daquilo que pareço...

 

Espírito irrequieto, fantasia ardente,

Adoro como Poe as doidas criações,

E se não bebo absinto é porque estou doente,

Que eu tenho como ele horror às multidões.

 

E amando doudamente as formas incompletas

Que às vezes não consigo, enfim, realizar,

Eu sinto-me banal ao pé dos mais poetas,

E, achando-me incapaz, deixo de trabalhar...

 

São filhos do meu tédio e duma dor qualquer

Meus sonhos de neurose horrivelmente histéricos

Como as larvas ruins dos corpos cadavéricos,

Ou como a aspiração de Charles Baudelaire.

 

Apraz-me o simbolismo ingénito das coisas...

E aos lábios da Mulher, a desfazer-se em beijos,

Prefiro os lábios maus das negregadas loisas,

Abrindo num ancelar de mórbidos desejos.

 

E é vão que medito e é em vão que sonho:

Meu coração morreu, minha alma é quase morta...

Já sinto emurchecer no crânio a flor do Sonho,

E oiço a Morte bater, sinistra, à minha porta...

 

Estou farto de sofrer, o sofrimento cansa,

E, por maior desgraça e por maior tormento,

Chego a julgar que tenho - estúpida lembrança -

Uma alma de poeta e um pouco de talento!

 

A doença que me mata é moral e física!

De que me serve a mim agora ter esperanças,

Se eu não posso beijar as trémulas crianças,

Porque ao meu lábio aflui o tóxico da tísica?

 

E morro assim tão novo! Ainda não há um mês,

Perguntei ao Doutor: - Então?...- Hei-de curá-lo...

Porém já não me importo, é bom morrer, deixá-lo!

Que morrer - é dormir... dormir... sonhar talvez...

 

Por isso irei sonhar debaixo dum cipreste

Alheio à sedução dos ideais perversos...

O poeta nunca morre embora seja agreste

A sua aspiração e tristes os seus versos!

 

In “Fel”

Libânio & Cunha Editores - 1898

 

José Duro

(1875-1899)

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Segunda-feira, 1 de Agosto de 2016

Recordando... Albano Martins

PALETA

 

Tens uma paleta

a que faltam

algumas cores. Talvez

porque há substâncias

a que não soubeste

dar expressão. Ou porque elas

são incolores. Ou porque

em toda a realidade

há fendas

que nem pela palavra

nem pela cor

alguma vez

saberás preencher.

 

In "Escrito a vermelho"

Editora Campo das Letras

 

Albano Martins

(N. 1930)

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Domingo, 31 de Julho de 2016

Recordando... António Crespo

O VELHINHO

 

A J. Cesar Machado

 

Aquele que ali vai triste e cansado

E mais tremente que os juncais do brejo.

Foi outrora o mais belo e o mais amado

Entre os moços do antigo lugarejo.

 

Nas fitas desse lábio desmaiado

Quantas mulheres trémulas de pejo

Não sorveram os néctares do beijo

Dos trigais sobre o leito perfumado!

 

Hoje é velhinho, e fala dos franceses

Aos rapazes da escola, e às raparigas

Que não cansam de ouvi-lo... As mais das vezes

 

Sobre a ponte, sozinho, ouve as cantigas

Das que lavam no rio, e o olhar estende

Ao sol que ao longe na agonia esplende.

 

In “Nocturnos”

 

António Crespo

(1846-1883)

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Segunda-feira, 25 de Julho de 2016

Recordando... Pedro Tamen

NÃO SEI,  AMOR,  SEQUER,  SE TE CONSINTO

 

Não sei, amor, sequer, se te consinto

ou se te inventas, brilhas, adormeces

nas palavras sem carne em que te minto

a verdade intemida em que me esqueces.

 

Não sei, amor, se as lavas do vulcão

nos lavam, veras, ou se trocam tintas

dos olhos ao cabelo ou coração

de tudo e de ti mesma. Não que sintas

 

outra coisa de mais que nos feneça;

mas só não sei, amor, se tu não sabes

que sei de certo a malha que nos teça,

 

o vento que nos leves ou nos traves,

a mão que te nos dê ou te nos peça,

o princípio de sol que nos acabes.

 

In «Tábua das Matérias - Poesia 1956-1991»,

Tertúlia - 1991

 

Pedro Tamen

(N. 1934)

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Terça-feira, 19 de Julho de 2016

Recordando... António Gedeão

AURORA BOREAL

 

Tenho quarenta janelas

nas paredes do meu quarto.

Sem vidros nem bambinelas

posso ver através delas

o mundo em que me reparto.

Por uma entra a luz do Sol,

por outra a luz do luar,

por outra a luz das estrelas

que andam no céu a rolar.

Por esta entra a Via Láctea

como um vapor de algodão,

por aquela a luz dos homens,

pela outra a escuridão.

Pela maior entra o espanto,

pela menor a certeza,

pela da frente a beleza

que inunda de canto a canto.

Pela quadrada entra a esperança

de quatro lados iguais,

quatro arestas, quatro vértices,

quatro pontos cardeais.

Pela redonda entra o sonho,

que as vigias são redondas,

e o sonho afaga e embala

à semelhança das ondas.

Por além entra a tristeza,

por aquela entra a saudade,

e o desejo, e a humildade,

e o silêncio, e a surpresa,

e o amor dos homens, e o tédio,

e o medo, e a melancolia,

e essa fome sem remédio

a que se chama poesia,

e a inocência, e a bondade,

e a dor própria, e a dor alheia,

e a paixão que se incendeia,

e a viuvez, e a piedade,

e o grande pássaro branco,

e o grande pássaro negro

que se olham obliquamente,

arrepiados de medo,

todos os risos e choros,

todas as fomes e sedes,

tudo alonga a sua sombra

nas minhas quatro paredes.

 

Oh janelas do meu quarto,

quem vos pudesse rasgar!

Com tanta janela aberta

falta-me a luz e o ar.

 

In “Poesias completas”

Edições João Sá da Costa

 

António Gedeão **

(1906-1997)

 

** Pseudónimo de Rómulo de Carvalho

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Quarta-feira, 13 de Julho de 2016

Recordando... Ana Daniel

PARÁFRASE

 

«Se me derem dois pães

vendo um e compro um lírio.»

Um lírio casto

onde canto a voz do sofrimento.

Pedaços arrulhantes duma ave caída...

Fico apenas com um

- um pão de vida-

e várias raízes e mais lírios

para enterrar na terra adormecida.

 

Faço então duma hora

o meu jardim.

Um jardim grácil, inédito:

um bocado de sol,

três quartos do teu céu,

um metro de varanda...

uns tantos rouxinóis

à minha espera...

Somente

um flor em cada primavera.

 

É tudo quanto é meu!

Um lírio, um pão

a cada refeição.

 

Sua em mim duramente

a terra trabalhada.

Sofro EM MIM

os gritos do jardim

o rio folgadamente

as suas largas horas de alegria.

 

Do lírio que ganhei

e do pão que vendi

quero dar

dois pães a muita gente!

 

In “Momento Vivo”

 

Ana Daniel **

(1928-2011)

 

** Pseudónimo de Maria de Lourdes d’Oliveira Canellas De Assunção Sousa

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Quinta-feira, 7 de Julho de 2016

Recordando... António Feijó

HINO À BELEZA

 

Onde quer que o fulgor da tua glória apareça,

– Obra de génio, flor d’heroísmo ou santidade,

Da Gioconda imortal na radiosa cabeça,

Num acto de grandeza augusta ou de bondade,

 

– Como um pagão subindo à Acrópole sagrada,

Vou de joelhos render-te o meu culto piedoso,

Ou seja o Herói que leva uma aurora na Espada,

Ou o Santo beijando as chagas do Leproso.

 

Essa luz sem igual com que sempre iluminas

Tudo o que existe em nós de grande e puro, veio

Do mesmo foco em mil parábolas divinas:

– Raios do mesmo olhar, ânsias do mesmo seio.

 

Alta revelação que, baixando em segredo,

O prisma humano quebra em ângulos dispersos,

Como a água a cair de rochedo em rochedo

Repete o mesmo som, mas em modos diversos.

 

É audácia no Herói; resignação no Santo;

Som e Cor, ondulando em formas imortais;

No mármore rebelde abre em folhas de acanto,

E esmalta de candura a flora dos vitrais.

 

Oh Beleza! Oh Beleza! as Horas fugitivas

Passam diante de ti, aladas como sonhos...

Que importa onde elas vão, doutra força cativas,

Se o Infinito luz nos teus olhos risonhos?!

 

Abrem flores, cantando, ao teu hálito ardente,

Brilham as aves como estrelas, e as estrelas,

Como flores enchendo a noite refulgente,

Deixam-se resvalar sobre quem vai colhê-las...

 

És tu que às ilusões dás juventude e forma,

Tu, que talvez do céu, d’onde vens, te recordes

Quando, a ouvir-nos chorar, a tua voz transforma

Dissonâncias de dor em imortais acordes.

 

Vejo-te muita vez, – luz d’aurora ou de raio, –

Como um gládio de fogo a avançar no horizonte;

Ou então, em manhãs transparentes de maio,

Náiade toda nua a fugir d’uma fonte.

 

Outras vezes, de noite e a ocultas, apareces,

Como ovelha que Deus do seu redil tresmalha,

Trazendo no regaço inesgotáveis messes,

Que Ele por tuas mãos sobre a miséria espalha...

 

Pudesse eu revelar-te em estrofes aladas,

Que partissem ao sol refulgindo em lavores,

Com rimas d’oiro, em blau e púrpura engastadas,

Como versos que vão desabrochando em flores!

 

Mas a língua não é sumptuosa bastante

Para nela deixar teu génio circunscrito;

Trago-te dentro em mim, sinto-te a cada instante,

E a voz nem mesmo tem a eloquência d’um grito!

 

Mas se para o teu culto, em esplendor externo,

Não encontro uma prece altamente expressiva,

Por ti meu coração arde d’um fogo eterno,

Como chama a tremer de lâmpada votiva!

 

In “Sol de Inverno”

 

António Feijó

(1859-1917)

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