Sexta-feira, 30 de Setembro de 2016

Recordando... José Luís Peixoto

NA HORA DE PÔR A MESA, ÉRAMOS CINCO

 

na hora de pôr a mesa, éramos cinco:

o meu pai, a minha mãe, as minhas irmãs

e eu. depois, a minha irmã mais velha

casou-se. depois, a minha irmã mais nova

casou-se. depois, o meu pai morreu. hoje,

na hora de pôr a mesa, somos cinco,

menos a minha irmã mais velha que está

na casa dela, menos a minha irmã mais

nova que está na casa dela, menos o meu

pai, menos a minha mãe viúva. cada um

deles é um lugar vazio nesta mesa onde

como sozinho. mas irão estar sempre aqui.

na hora de pôr a mesa, seremos sempre cinco.

enquanto um de nós estiver vivo, seremos

sempre cinco.

 

In “A Criança em Ruínas”

Quetzal Editores

 

José Luís Peixoto

(N. 1974)

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Domingo, 25 de Setembro de 2016

Recordando... Sebastião Alba

NINGUÉM MEU AMOR

 

Ninguém meu amor

ninguém como nós conhece o sol

Podem utilizá-lo nos espelhos

apagar com ele

os barcos de papel dos nossos lagos

podem obrigá-lo a parar

à entrada das casas mais baixas

podem ainda fazer

com que a noite gravite

hoje do mesmo lado

Mas ninguém meu amor

ninguém como nós conhece o sol

Até que o sol degole

o horizonte em que um a um

nos deitam

vendando-nos os olhos.

 

In “Uma Pedra ao Lado da Evidência”

Assírio & Alvim

 

Sebastião Alba **

(1940-2000)

 

** Pseudónimo de Dinis Albano Carneiro Gonçalves

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Segunda-feira, 19 de Setembro de 2016

Recordando... Vitorino Nemésio

SE A NOSSA VOZ CRESCESSE...

 

Se a nossa voz crescesse, onde era a árvore?

Em que pontas, a corola do silêncio?

Coração já cansado, és a raiz:

Uma ave te passe a outro país.

 

Coisas de terra são palavra:

Semeia o que calou.

Não faz sentido quem lavra

Se o não colhe do que amou.

 

Assim, sílaba e folha, porque não

Num só ramo levá-las

Com a graça e o redondo de uma mão?

(Tu não te calas? Tu não te calas?!)

 

5-8-1962

 

In "Canto de Véspera"

Guimarães Editores

 

Vitorino Nemésio

(1901-1978)

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Terça-feira, 13 de Setembro de 2016

Recordando... Natércia Freire

AS CRIANÇAS

 

Então as crianças falaram da Morte.

Sentadas nos degraus de pedra,

Pousadas na manhã cinzenta,

Disseram: – Levava um vestido branco,

As mãos roxas e uma flor cansada.

 

No largo as mulheres cantavam.

Pensavam nos companheiros

E nas noites de amor.

As crianças permaneciam invioladas,

Possuídas de secretas imagens

E de tudo quanto foi antes do próprio nascimento.

 

Sentadas nos degraus de pedra,

As crianças desdobravam-se sucessivamente.

Unidades, dezenas, centenas, milhares, milhões, biliões.

O seu estandarte chama-se nevoeiro.

Mas os olhos repercutiam dobres de sinos

E uma enigmática energia solar.

 

Todavia, as noites das crianças eram templos de solidão

E nos leitos soluçavam o temor dos intrusos.

 

De manhã, invadiram todos os espaços e luzes.

E os adultos, ignorantes e cegos, sorriam.

– São as crianças!, diziam.

E seguiam a ruminar os seus sonhos,

Como se tivessem roçado a paz.

 

Mas as crianças germinavam, mudas e sábias,

As ordens recebidas num sol antigo.

Armavam-se de reservas e paixões,

Faziam planos que os adultos não deixariam depois cumprir.

 

(Depois, quando as crianças fossem adultos.)

Elas sabem que existe o Paraíso

Mas a distância de cada dia, entre os homens,

Escurece-lhes a memória finita.

Abrigam-se então na memória infinita

Que as liberta e possui

E nos leitos soluçam o temor dos intrusos.

 

In “Colóquio/Letras”

N.º 1 – Março.1971

Fundação Calouste Gulbenkian

Pág. 70/71

 

Natércia Freire

(1919-2004)          

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Quarta-feira, 7 de Setembro de 2016

Recordando... Pedro Oom

PODE-SE ESCREVER

 

Pode-se escrever sem ortografia

Pode-se escrever sem sintaxe

Pode-se escrever sem português

Pode-se escrever numa língua sem saber essa língua

Pode-se escrever sem saber escrever

Pode-se pegar numa caneta sem haver escrita

Pode-se pegar na escrita sem haver caneta

Pode-se pegar na caneta sem haver caneta

Pode-se escrever sem caneta

Pode-se sem caneta escrever caneta

Pode-se sem escrever escrever plume

Pode-se escrever sem escrever

Pode-se escrever sem sabermos nada

Pode-se escrever nada sem sabermos

Pode-se escrever sabermos sem nada

Pode-se escrever nada

Pode-se escrever com nada

Pode-se escrever sem nada

 

Pode-se não escrever

 

In "Actuação Escrita"

Editora & etc (1980)

 

Pedro Oom

(1926-1974)

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Quinta-feira, 1 de Setembro de 2016

Recordando... Saúl Dias

SOFRO

 

Sofro

de não te ver,

de perder

os teus gestos

leves, lestos,

a tua fala

que o sorriso embala,

a tua alma

límpida, tão calma...

 

Sofro

de te perder.

durante dias que parecem meses,

durante meses que parecem anos...

 

Quem vem regar o meu jardim de enganos,

tratar das árvores de tenrinhos ramos?

 

In “Tarde Azul”

Editora Bonecos Rebeldes - 2008

 

Saúl Dias **

(1902-1983)

 

** Pseudónimo de Júlio Maria dos Reis Pereira

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Quarta-feira, 31 de Agosto de 2016

Recordando... António Sem

HÁ DIAS ASSIM

 

Há dias assim

cinzentos de sol

a amarelecerem as folhas da melancolia

 

Há dias assim

com sorrisos imóveis

quando tombam os ramos da noite

 

Há dias assim

onde o instante quebra

a aliança entre o homem e as coisas

 

E nesta sucessão dos dias

deslizo como uma gota sem contactos

que abro entre formas cegas que me ignoram

 

In “Momentos e Fragmentos”

Universitária Editora

 

António Sem **

(N. 1945)

 

** Pseudónimo de António Manuel Gonçalves Filipe

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Quinta-feira, 25 de Agosto de 2016

Recordando... A. Dasilva O.

MALDITO SEJA EU

 

Hoje acordei dividido

na impossibilidade

de me transformar numa metáfora

 

Assim preso

a um muro de vídeo

cheio de imagens

feridas pelo impessoal

 

Restos de mim

espalhados pelo chão

de uma época

que não consigo destruir

 

In “Revista A Mar Arte”

Nº 5 - Outono de 1996

Pág. 32

 

A. Dasilva O. **

(N. 1958)

 

** Pseudónimo de António S. Oliveira

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Sexta-feira, 19 de Agosto de 2016

Recodando... Luís Veiga Leitão

CORREDOR

 

Cem metros à sombra – temperatura

de tantos corpos e almas em rodagem.

neste muro cercado, a maior viagem

sob um céu de pedra escura.

 

Sombras em fila, espectros talvez,

desplantam ecos da raiz do chão.

Lembram comboios que vêm e vão

sob túneis de pez.

 

E vêm e vão com pés humanos

ressoando movimentos tardos,

levando fardos, trazendo fardos

das horas sem dias e meses sem anos.

 

E vêm e vão, sempre, sempre a rodar

na linha dos railes espectrais,

sem descarregadores na gare,

sem guindastes no cais.

 

E vêm e vão pela via larga

das redes do sonho e da lembrança,

levando a carga, trazendo a carga

de toneladas de esperança.

 

In “Surrealismo Abjeccionismo”

Antologia organizada por Mário Cesariny

Edições Salamandra

 

Luís Veiga Leitão **

(1912-1987)

 

** Pseudónimo de Luís Maria Leitão

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Sábado, 13 de Agosto de 2016

Recordando... Fernando Assis Pacheco

TENTAS, DE LONGE...

 

Tentas, de longe, dizer que estás aqui.

Com peso triste caminha na rua o Outono.

O meu coração debruça-se à janela

a ver pessoas e carros, e as folhas caíndo.

 

Mastigo esta solidão

como quando era pequeno e jantava

diante dos pais zangados:

devagar, ausente.

 

In "A musa irregular"

Ed. Asa - 1997

 

Fernando Assis Pacheco

(1937-1995)

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