Quinta-feira, 19 de Outubro de 2017

Recordando... António de Sousa

FADO DO NAVEGANTE

 

Meu lugre "Vento de Maio",

todo pintado de azul,

comprei-o nos mares do Sul

a um pirata malaio.

 

Lá onde o céu é maior

trafiquei pérola e copra;

a todo o vento que sopra

soube o caminho de cor.

 

Um dia, não sei porquê,

(frágeis que são as memórias...)

fiz-me a águas hiperbóreas

a vr o que lá se vê.

 

No meu regresso do Polo

trouxe uns sorrisos de gelo,

esta neve no cabelo

e duas focas ao colo...

 

Cheguei inteiro a Lisboa,

mas ninguém me conheceu!

Por isso pintei de breu

a minha vela de proa.

 

Triste, vendi o navio;

só uma corda guardei.

Os nós que dei e desdei

até que ficou no fio!

 

o saber verdadeiro

e o gosto do mar amigo

vão para a morte comigo

no meu secreto roteiro.

 

In “Sete Luas”

Edição de 200 exemplares

da Tipografia da Atlântida, 1943

 

António de Sousa

(1898-1981)

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Sexta-feira, 13 de Outubro de 2017

Recordando... Agostinho da Silva

QUERIA QUE OS PORTUGUESES

 

Queria que os portugueses

tivessem senso de humor

e não vissem como génio

todo aquele que é doutor

 

sobretudo se é o próprio

que se afirma como tal

só porque sabendo ler

o que lê entende mal

 

todos os que são formados

deviam ter que fazer

exame de analfabeto

para provar que sem ler

 

teriam sido capazes

de constituir cultura

por tudo que a vida ensina

e mais do que livro dura

 

e tem certeza de sol

mesmo que a noite se instale

visto que ser-se o que se é

muito mais que saber vale

 

até para aproveitar-se

das dúvidas da razão

que a si própria se devia

olhar pura opinião

 

que hoje é uma manhã outra

e talvez depois terceira

sendo que o mundo sucede

sempre de nova maneira

 

alfabetizar cuidado

não me ponham tudo em culto

dos que não citar francês

consideram puro insulto

 

se a nação analfabeta

derrubou filosofia

e no jeito aristotélico

o que certo parecia

 

deixem-na ser o que seja

em todo o tempo futuro

talvez encontre sozinha

o mais além que procuro.

 

In “Poemas”

 

Agostinho da Silva

(1906-1994)

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Sábado, 7 de Outubro de 2017

Recordando... Vitorino Nemésio

FUI HOJE À CAIXA, MARGA

 

Fui hoje à Caixa, Marga, receber

A pensão de reforma.

Coxo e doido, Marga. Muito!

Duro é ser velho, e, então, de ossos a arder?

A minha tíbia engole facas.

Fui hoje à Caixa receber

O troco das pernas fracas.

E lembrei-me de ti, que eras habituée

Lá pela ordem dos trinta, dos cinquenta milhões.

Da formiga à cigarra:

(Iguais ocasiões)

- Que faisiez vous aux temps chaux,

Dit-elle à cette emprunteuse.

Lembrei-me de ti com La Fontaine,

Cigarra, claro, chanteuse.

Formiga fora uma aubaine.

Marga, é tão triste o dinheiro!

Até já o ganhas, como eu,

E andaste coxa, cheia de dores

Tu que o atiravas aos punhados

Como em batalha de flores

Estás como os reformados

À espera dos directores

Mas como ainda és bonita

E há sempre um, pronto aos favores,

Vê bem o que ele te debita

Que descontos te faz

Ê provável que insista

Sabendo-te "petite amie" de um pobre pensionista

A menina bem sabe que há certas coisas que nem mesmo um aperto

(Ai, a minha peminha!)

Comucópia - corno coxo.

 

In "Caderno de Caligraphia e outros poemas a Marga"

IN-CM - Imprensa Nacional-Casa da Moeda

 

Vitorino Nemésio

(1901-1978)

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Domingo, 1 de Outubro de 2017

Recordando... Helga Moreira

NÃO QUERO QUE ME FALTES

 

Não quero que me faltes

na penumbra, não quero

que ao ardor se junte

qualquer senão

 

deito ao desvario,

cinzas, enredos,

paixões,

a solidão,

 

e nem creio entender

a vida

rectilínea. Só em solavancos,

entre o inverno, o outono,

e o verão.

 

In "Desrazões"

Quasi Edições - 2002

 

Helga Moreira

(N. 1950)

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Sábado, 30 de Setembro de 2017

Recordando... Natércia Freire

AH ROSALIA, AH MULLER!

 

Agudas folhas, tão verdes,

Sonido de vozes brandas

Paz de "xa vellas barandas"

Que em sono vens e te perdes.

 

Que em sono vens da Galiza

E na luz do telefone

O sono tornas insone

E o tumulto à voz alisas.

 

In “Natércia Freire - Obra Poética” vol. II

Bib. Aurores Portugueses,

IN-CM - Imprensa Nacional - Casa da Moeda

 

Natércia Freire

(1920-2004)

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Segunda-feira, 25 de Setembro de 2017

Recordando... Edmundo de Bettencourt

O SEGREDO E O MISTÉRIO

 

Mistérios a pouco e pouco vão morrendo

e extenuados de vigília os anjos

são afinal a sussurrantes sibilinas vozes

que desvendam adivinham segredos

atrás de sentinelas

cuja ferocidade é uma ironia de ternura…

Na palidez da luz

cercando uma velha cabeça

a quem um sono de embrião já tolda os olhos

sorriem enigmáticos os sonhos.

 

1935

 

In Revista “Pirâmide”

Nº 3 – Dezembro.1960 – Ano I

Pág. 44

 

Edmundo de Bettencourt

(1889-1973)

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Terça-feira, 19 de Setembro de 2017

Recordando... Célia Moura

NO ÚTERO E NO PÓ

 

Surges

Na cálida brisa da tarde,

Como Deusa

No cume da trave talhada

A ouro

Com rosto de prata,

Boca de serpente mansa,

Vestindo de fogo

O sexo.

 

És a mulher,

A prostituta doce

Dos seios firmes,

Da madrugada,

Dos vãos de escada…

Serpenteias em rituais loucos

Sob a máscara de cristal

Estilhaçada,

Chupando o sangue

Às rosas inventadas

Do Jardim.

 

Quem sabe se não serás a Musa,

Por quem os poetas clamam,

Ou o flagelo dos dias

E dos rostos baços?

Agora,

És somente

A Afrodite dos tempos

E do desalento.

Da carne!

 

Mulher,

Mito ausente

Na verdade e no ventre

Cuspindo a semente da raiva

Ao vento norte.

 

Mulher saudade,

Saudosa do regresso,

Dos hinos ao Sol,

Dos campos férteis do acaso,

E da Festa

Que as crianças sábias comemoram

No hálito das estrelas.

 

Terás talvez

Que encarnar a inocência

Na face uterina da noite,

Quando a voz estrangulada

Já não soar a grito,

Num pedestal de pó descarnado…

 

Uma sombra descerá

Com rosto brando

De anjo,

Sob a pia baptismal

Te despirá!

 

In “Vestida De Silêncio”

Universitária Editora 

 

Célia Moura

(N. 1971)

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Quarta-feira, 13 de Setembro de 2017

Recordando... Pedro Homem de Mello

FONTE

 

Meu amor diz-me o teu nome

- Nome que desaprendi...

Diz-me apenas o teu nome.

Nada mais quero de ti.

Diz-me apenas se em teus olhos

Minhas lágrimas não vi,

Se era noite nos teus olhos,

Só porque passei por ti!

Depois, calaram-se os versos

- Versos que desaprendi...

E nasceram outros versos

Que me afastaram de ti.

Meu amor, diz-me o teu nome.

Alumia o meu ouvido.

Diz-me apenas o teu nome,

Antes que eu rasgue estes versos,

Como quem rasga um vestido!

 

In "Poemas escolhidos"

INCM - Imprensa Nacional-Casa da Moeda

 

Pedro Homem de Mello

(1904-1984)

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Quinta-feira, 7 de Setembro de 2017

Recordando... Afonso Lopes Vieira

SAUDADES NÃO AS QUERO

 

Bateram fui abrir era a saudade

vinha para falar-me a teu respeito

entrou com um sorriso de maldade

depois sentou-se à beira do meu leito

e quis que eu lhe contasse só a metade

das dores que trago dentro do meu peito

 

Não mandes mais esta saudade

ouve os meus ais por caridade

ou eu então deixo esfriar esta paixão

amor podes mandar se for sincero

saudades isso não pois não as quero

 

Bateram novamente era o ciúme

e eu mal me apercebi de que batera

trazia o mesmo ódio do costume

e todas as intrigas que lhe deram

e vinha sem um pranto ou um queixume

saber o que as saudades me fizeram

 

Não mandes mais esta saudade,

ouve os meus ais por caridade,

ou eu então deixo esfriar esta paixão,

amor podes mandar se for sincero,

saudades isso não pois não as quero.

 

In “Antologia Poética"

Guimarães Editores - 1966

 

Afonso Lopes Vieira

(1878 - 1946)

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Sexta-feira, 1 de Setembro de 2017

Recordando... Nuno Júdice

GÉNESIS

 

No princípio era o verbo, e eu traduzia-o

em palavras com um sentido fundo como o poço

de onde as mulheres puxavam os baldes de água,

à tarde, para refrescar o chão de agosto. Nas

cordas de roupa do quintal, eu estendia as palavras

para as secar: e via o sol atravessá-las até ao osso,

dissecando o seu corpo mais vago — as vogais fechadas

do fim, ou a enunciação de um infinito

Até ao limite do verbo.

 

No principio também eram as coisas: umas

sobre as outras, no alinhamento curvo do destino,

corno se não estivessem para cair nessa trepidação

de rimas que um fim de verso pode trazer. Então,

levantava-as do chão onde se tinham partido em pedaços,

as coisas brancas da lua e as coisas vermelhas do sol,

e colava-as na parede, vendo o muro subir

até ao tecto celeste..

 

E no fim, volta a ser o verbo. Arranha-me a língua

com as suas unhas de consoantes; e pego-lhe ao colo,

para que não fira os pés nas pedras do campo, ouvindo

a sua voz de carne e oo escrever-me, no fundo

da cabeça, e a toda a largura da alma, a frase

redonda do amor. Trabalho a sua sintaxe, até

descobrir as articulações do segredo; e abraço

o corpo que nasce na conjugação

das suas pálpebras, abertas até ao fundo

dos olhos, onde te vejo.

 

In “O Estado dos Campos”

Publicações Dom Quixote

 

Nuno Júdice

(N. 1949)

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