Segunda-feira, 19 de Junho de 2017

Recordando... Ricardo Reis

AMO O QUE VEJO PORQUE DEIXAREI

 

Amo o que vejo porque deixarei

Qualquer dia de o ver.

Amo-o também porque é.

 

No plácido intervalo em que me sinto,

Do amar, mais que ser,

Amo o haver tudo e a mim.

 

Melhor me não dariam, se voltassem,

Os primitivos deuses,

Que também, nada sabem.

11-10-1934

 

In “Poemas de Ricardo Reis”

Edição Crítica de Luiz Fagundes Duarte

Imprensa Nacional - Casa da Moeda - 1994

 

Ricardo Reis

 

Heterónimo de Fernando Pessoa (1888-1935)

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Terça-feira, 13 de Junho de 2017

Recordando... Fernando Pessoa

O GRANDE ESPECTRO, QUE FAZ SOMBRA E MEDO

 

O grande espectro, que faz sombra e medo,

Ergueu-se ao pé de mim, e eu temi-o;

Não porém com pavor, que nasce cedo,

Mas com um negro medo, oco e tardio.

 

Trajava o corpo seu vácuo e segredo

E o espaço irreal, onde formava frio,

Era como os desertos do degredo,

Um não-ser mais vazio que o vazio.

 

Não mais o vi, mas sinto a cada hora

Ao pé da alma, que teme e já não chora,

A álgida consequência e o vulto nada,

 

E cada passo em minha senda incerta

Um eco o acompanha, que deserta

Da atenção fria, inutilmente dada.

 

9-2-1930

 

In “Poemas Esotéricos - Fernando Pessoa” – 1ª edição

Edição de Fernando Cabral Martins e Richard Zenith

Assírio & Alvim

 

Fernando Pessoa

(1888-1935)

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Quarta-feira, 7 de Junho de 2017

Recordando... Álvaro de Campos

NÃO ESTOU PENSANDO EM NADA

 

Não estou pensando em nada

E essa coisa central, que é coisa nenhuma,

É-me agradável como o ar da noite,

Fresco em contraste com o Verão quente do dia.

 

Não estou pensando em nada, e que bom!

 

Pensar em nada

É ter a alma própria e inteira.

Pensar em nada

É viver intimamente

O fluxo e o refluxo da vida...

 

Não estou pensando em nada.

É como se me tivesse encostado mal.

Uma dor nas costas, ou num lado das costas.

Há um amargo de boca na minha alma:

É que, no fim de contas,

Não estou pensando em nada,

Mas realmente em nada,

Em nada...

 

6-7-1935

 

In “Os Grandes Clássicos da Literatura Portuguesa

Fernando Pessoa – Poesia de Álvaro Campos – Vol. II”

Assírio & Alvim e Herdeiros de Fernando Pessoa

(edição de Teresa Rita Lopes), Lisboa, 2002

Da presente edição: Editora Planeta DeAgostini, S.A. – Lisboa

Colecção dirigida por Vasco Graça Moura

 

Álvaro de Campos

 

Heterónimo de Fernando Pessoa (1888-1935)

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Quinta-feira, 1 de Junho de 2017

Recordando... Alexander Search

HORROR

 

Em minha alma, na sua escuridão,

Tão escura como a alma em cada ser,

Por bênção de sua eterna maldição

Lampeja qual vampiro sem corpo tido

Em rara plenitude além saber,

Do universo o íntimo sentido.

 

E tão cobarde é meu pensamento,

Toda a vida e tudo em mim absorvendo

E me tomando, mais fel do que o fel,

Que eu tenho medo de abrir os meus olhos

E a mente a uma surpresa horrível,

E sinto meu ser quase em supressão

Num horror além da Imaginação.

 

Mais do que a mais cobarde das feras

Diante do raio em que o céu se fen

Mais do que o ébrio na sua aflição

Que tem visões que o temor transcende,

Mais do que o medo pode conceber,

Mais que a loucura pode fazer crer,

Mais do que o nem sequer imaginado,

O mistério de tudo, o seu sentido

Quando em mim, em plenitude vislumbrado,

Faz aterrar meu ser enlouquecido.

 

Não fales — não há palavra a ser dita —

Não, nem a sombra dessa sensação,

Da corda da sanidade partida

Em mim, na angústia daquele momento

E na intensidade da negação;

Não penses, não é capaz o pensar

De um tal horror poder expressar.

 

A mínima coisa fica terrível

E sublime o ínfimo pensamento —

Tudo no mundo fica mais horrível

Do que o sentido da alma do tempo,

Do que o medo da morte profunda,

Do que o remorso em que o crime se afunda.

 

É como que trazer o conhecimento

De que o mistério é só um jogo tolo.

Contudo se assim o viessem trazer,

Morto estaria o meu pensamento

E morto, como tudo, todo o meu ser:

É isto o que os homens sabem nomear,

Olhando o rosto de Deus, grosseiramente.

E esse sentir pode mais que mutilar

O espírito, mais que embrutecer;

Ele mataria total e prontamente,

Com um susto nem no inferno provado,

Mais do que do terror é conhecido,

Mais do que do medo é imaginado.

 

1907

 

In “Poesia”

Edição e tradução de Luísa Freire

Assírio & Alvim – 1999

 

Alexander Search

 

Heterónimo de Fernando Pessoa (1888-1935)

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Quarta-feira, 31 de Maio de 2017

Recordando... Guerra Junqueiro

REGRESSO AO LAR

 

Ai, há quantos anos que eu parti chorando

deste meu saudoso, carinhoso lar!...

Foi há vinte?... Há trinta?... Nem eu sei já quando!...

Minha velha ama, que me estás fitando,

canta-me cantigas para me eu lembrar!...

 

Dei a volta ao mundo, dei a volta à vida...

Só achei enganos, decepções, pesar...

Oh, a ingénua alma tão desiludida!...

Minha velha ama, com a voz dorida.

canta-me cantigas de me adormentar!...

 

Trago de amargura o coração desfeito...

Vê que fundas mágoas no embaciado olhar!

Nunca eu saíra do meu ninho estreito!...

Minha velha ama, que me deste o peito,

canta-me cantigas para me embalar!...

 

Pôs-me Deus outrora no frouxel do ninho

pedrarias de astros, gemas de luar...

Tudo me roubaram, vê, pelo caminho!...

Minha velha ama, sou um pobrezinho...

Canta-me cantigas de fazer chorar!...

 

Como antigamente, no regaço amado

(Venho morto, morto!...), deixa-me deitar!

Ai o teu menino como está mudado!

Minha velha ama, como está mudado!

Canta-lhe cantigas de dormir, sonhar!...

 

Canta-me cantigas manso, muito manso...

tristes, muito tristes, como à noite o mar...

Canta-me cantigas para ver se alcanço

que a minha alma durma, tenha paz, descanso,

quando a morte, em breve, ma vier buscar!

 

In “Os Simples”

 

Guerra Junqueiro

(1850-1923)

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Quinta-feira, 25 de Maio de 2017

Recordando... Francisco José Viegas

ESSA VELHA CIÊNCIA…

 

Essa velha ciência, a de esperar, escreve-la

em cadernos retirados a cada viagem. Neles

anotaste os movimentos do mundo, o balanço

do mar. São só velhos, os cadernos; ainda

 

escreves à mão, ainda respiras por ele,

ciência antiga - onde a conservas? Linha

a linha as viagens vão passando por eles como

um mapa: aqui as ilhas, ali pequenos continentes,

 

provas de que o mundo não acaba à tua porta

quando o jardim desaparece entre os granitos.

Levantas a voz uma vez por outra, mas não é

 

isso que te interessa. Gostavas apenas que

os cadernos ficassem, gravados de ti e de quem amas,

guardados em gavetas, guardando o mundo.

 

In “O Puro e o Impuro”

Quasi Edições

 

Francisco José Viegas

(N.1952)

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Sexta-feira, 19 de Maio de 2017

Recordando... António Cândido Franco

Ó SAUDADE DAS TREVAS

 

Ó Saudade das trevas

que hoje são luz.

Ó Saudade do silêncio

que é hoje canto.

 

Ó Saudade de nada

que é hoje tudo.

Ó Saudade da criança

que eu hoje sou.

 

Canto

porque fiquei em silêncio.

Vejo

já que na escuridão me perdi.

 

Sou

porque sei.

Cresci

já que parei.

 

E tudo é assim

para que

sem remédio

as trevas

o silêncio e o nada

sejam dentro de mim.

 

In “Estâncias Reunidas” (1977-2002)

Edições Quasi

 

António Cândido Franco

(N. 1956)

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Sábado, 13 de Maio de 2017

Recordando... David Mourão-Ferreira

TERNURA

 

Desvio dos teus ombros o lençol,

que é feito de ternura amarrotada,

da frescura que vem depois do sol,

quando depois do sol não vem mais nada...

 

Olho a roupa no chão: que tempestade!

Há restos de ternura pelo meio,

como vultos perdidos na cidade

nde uma tempestade sobreveio...

 

Começas a vestir-te, lentamente,

e é ternura também que vou vestindo,

para enfrentar lá fora aquela gente

que da nossa ternura anda sorrindo...

 

Mas ninguém sonha a pressa com que nós

a despimos assim que estamos sós!

 

In "Infinito Pessoal"

Guimarães Editores

 

David Mourão-Ferreira

(1927-1996)

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Domingo, 7 de Maio de 2017

Recordando... Manuela Amaral

NO DIA DE AMANHÃ

 

No dia de amanhã eu estarei acordada à minha espera.

 

NÃO QUERO QUE MAIS NINGUÉM ME ACORDE

SENÃO EU

 

Vou receber-me condignamente com todas as honras de um hóspede ilustre

 

Tomo um banho ou tomo um duche (não sei bem)

e ponho aquele vestido cor de luto eroticamente triste

 

À mesa ficarei sentada à minha direita (em sinal de respeito e educação) Vou falar sozinha de coisas que não existem Vou ter um sorriso social Hei-de falar do tempo do teatro do ballet da moda de Paris ou do último modelo do Toyota Vou ser cretina e idiota mas vou receber condignamente o meu hóspede ilustre - EU

 

No dia de amanhã eu estarei acordada à minha espera

 

e

 

NÃO QUERO QUE MAIS NINGUÉM ME ACORDE

SENÃO EU

 

In "Amor Geométrico"

Edição da Autora – 1979

 

Manuela Amaral

(1934-1995)

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Segunda-feira, 1 de Maio de 2017

Recordando... Adolfo Casais Monteiro

FADO

 

Música triste

desenganado

canto nocturno

a pouco e pouco

vai penetrando

meu coração

 

Nocturna prece

ou pesadelo

não sei que sombra

aquele canto

em mim deixou.

 

Febre ou cansaço?

Não sei! Nem quero.

Lúgubre pranto

de roucas vozes

não tem beleza

– só emoção.

 

É como um eco

de noites mortas

de vidas gastas

ao deus dará.

 

Mas eu o recebo

dentro de mim.

Entendo. Choro.

Eu o recebo

Como um irmão.

 

In "Heras e Eras"

 

Adolfo Casais Monteiro

(1908-1972)

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