Domingo, 19 de Março de 2017

Recordando... Nuno Júdice

PARA ESCREVER O POEMA

 

O poeta quer escrever sobre um pássaro:

e o pássaro foge-lhe do verso.

O poeta quer escrever sobre a maçã:

e a maçã cai-lhe do ramo onde a pousou.

O poeta quer escrever sobre uma flor:

e a flor murcha no jarro da estrofe.

Então, o poeta faz uma gaiola de palavras

para o pássaro não fugir.

Então, o poeta chama pela serpente

para que ela convença Eva a morder a maçã.

Então, o poeta põe água na estrofe

para que a flor não murche.

Mas um pássaro não canta

quando o fecham na gaiola.

A serpente não sai da terra

porque Eva tem medo de serpentes.

E a água que devia manter viva a flor

escorre por entre os versos.

E quando o poeta pousou a caneta,

o pássaro começou a voar,

Eva correu por entre as macieiras

e todas as flores nasceram da terra.

O poeta voltou a pegar na caneta,

escreveu o que tinha visto,

e o poema ficou feito.

 

In “A Matéria do Poema”

Publicações D. Quixote

 

Nuno Júdice

(N. 1949)

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Segunda-feira, 13 de Março de 2017

Recordando... Ruy Belo

DECLARAÇÃO DE AMOR A UMA ROMANA DO SÉCULO SEGUNDO

 

Um dia passaste pelos meus versos

Como eu agora passo por diante destas esculturas

que não merecem mais que um apressado olhar

Mas na tua presença eu tenho de parar

dama desconhecida com certeza viva mais aqui

que no segundo século em Roma onde viveste

Moldaram-te esse rosto abriram-te esse olhar

decerto impressionante para que uns dezoito séculos mais tarde

te pudesse encontrar quem mais que tu morreu

mas te ama ó mulher perdidamente

Não mais te esquecerei hei-de sonhar contigo

sei que te conquistei e libertei

de qualquer compromisso que tivesses

Ninguém sabe quem eras nem eu próprio

não tens sequer um nome uns apelidos

nada se sabe acerca do teu estado civil

Sei mais que tudo isso porque sei

que atravessaste séculos na forma de escultura

só para um dia nós nos encontrarmos

Tenho mulher e filhos sou de longe

a lei é rígida e severa a sociedade

Não te importes mulher deixa-te estar

não penses não te mexas podes estar certa

de que me deste mais do que tudo o demais que me pudesses dar

pois para ser diferente de quem era

bastou-me ver teu rosto e mais que ver olhar

 

In “Transporte no Tempo”

Editora Presença

 

Ruy Belo

(1933-1978)

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Terça-feira, 7 de Março de 2017

Recordando... Adília Lopes

PEDRO DE SANTARÉM

 

Querida

rapariga

primitiva

que eu sou

fui

e hei-de ser

 

Minha

querida

rapariga

para ti

os girassóis

são giros

e giram

 

E

é o amor

que move

o Sol

que move

o girassol

 

E

é o girassol

que move

o Sol

 

Querida

rapariga

imperativa:

gira, Sol

gira, girassol

 

E

Deus

é

o girassol

 

In "César a César"

Edições &etc

 

Adília Lopes **

(N.1960)

 

** Pseudónimo de Maria José da Silva Viana Fidalgo de Oliveira

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Quarta-feira, 1 de Março de 2017

Recorando... Cecília Vilas Boas

SER FELIZ

 

Permaneço além de mim, muito além

Num sítio onde a felicidade sorri

Onde os dias são feitos de espuma

Onde a bruma se dissipou enfim

 

Sou asa, neste caminho de além

Que paz tem este azul da manhã!

Que sonho é este d’onde não acordo?

Que chama arde em mim…?!

 

Vivo? Sonho? O que é de mim?!

Começo? Fim? O que tenho em mim?

Encantamento, vejo olhos brilhantes

 

Ou será o meu contentamento?

Já não sei se sou mar ou sol

Mas sei que sou feliz!

 

In “O Tempo da Alma”

Chiado Editora

 

Cecília Vilas Boas

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Sábado, 25 de Fevereiro de 2017

Recordando... Anrique Paço d'Arcos

ÓPIO

 

Se o sofrimento, um dia,

Se mudasse em prazer,

Então eu sofreria

Da dor de não sofrer...

 

Ao ver o sofrimento

Gerar nova alegria,

Ainda em tal momento

Decerto eu sofreria...

 

Círculos Concêntricos

 

In "Poesia Completas de Anrique Paço D'arcos"

Colecção Biblioteca de Autores Portugueses

INCM - Imprensa Nacional - Casa da Moeda - 1993

 

Anrique Paço d'Arcos **

(1906-1993)

 

** Heterónimo de Henrique Belford Correia da Silva – Conde de Paço D’Arcos

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Domingo, 19 de Fevereiro de 2017

Recordando... Sebastião da Gama

NASCI PARA SER IGNORANTE  

 

Nasci para ser ignorante

mas os parentes teimaram

(e dali não arrancaram)

em fazer de mim estudante.

 

Que remédio? Obedeci.

Há já três lustros que estudo.

Aprender, aprendi tudo,

mas tudo desaprendi.

 

Perdi o nome às Estrelas,

aos nossos rios e aos de fora.

Confundo fauna com flora.

Atrapalham-me as parcelas.

 

Mas passo dias inteiros

a ver um rio passar.

Com aves e ondas do Mar

tenho amores verdadeiros.

 

Rebrilha sempre uma Estrela

por sobre o meu parapeito;

pois não sou eu que me deito

sem ter falado com ela.

 

Conheço mais de mil flores.

Elas conhecem-me a mim.

Só não sei como em latim

as crismaram os doutores.

 

No entanto sou promovido,

mal haja lugar aberto,

a mestre: julgam-me esperto,

inteligente e sabido.

 

O pior é se um director

espreita p'la fechadura:

lá se vai licenciatura

se ouve as lições do doutor.

 

Lá se vai o ordenado

de tuta-e-meia por mês.

Lá fico eu de uma vez

um Poeta desempregado.

 

Se me não lograr o fado

porém, com tais directores,

e de rios, aves e flores

somente for vigiado,

 

enquanto as aulas correrem

não sentirei calafrios,

que flores, aves e rios

ignorante é que me querem.

 

In ”Cabo da Boa Esperança”

Ática Editora

 

Sebastião da Gama

(1924-1952)

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Segunda-feira, 13 de Fevereiro de 2017

Recordando... Vasco Graça Moura

SETEMBRO

 

agora o outono chega, nos seus plácidos

meneios pelas vinhas, um dos vizinhos passa

um cabaz de maçãs por sobre a vedação:

redondas, verdes, o seu perfume vai

dentro de quinze dias ser mais forte.

    

a noite cai mais cedo e apetece

guardar certos vermelhos da folhagem

e amarelos e castanhos nas ladeiras

de Setembro. a rádio fala no tempo variável

que vem aí dentro de dias. talvez caia

  

uma chuvinha benfazeja, a pôr no ponto certo

os bagos de uva. e há poalhas morosas, mais douradas.

aproveita-se o outono no macio

enchimento dos frutos para colhê-lo a tempo.

devagar, devagar. é mais doce no outono a tua pele.

  

In "Poesia 2001/2005"

Quetzal Editores

 

Vasco Graça Moura

(1942-2014)

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Terça-feira, 7 de Fevereiro de 2017

Recordando... Bernardo de Passos

SAUDADES...

 

Saudades de amor, são penas

Que nascem do coração...

E como as penas das aves,

Quantas mais, mais brandas são!

 

Meu coração fez um ninho

Como o das aves perfeito,

Juntando todas as penas

De que ele me encheu o peito...

 

E nesse ninho, a sonhar

Dorme, assim, horas serenas,

Como dorme um passarinho

Sobre o seu ninho de penas.

 

In " A Saudade”

 

Bernardo de Passos

(1876-1930)

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Quarta-feira, 1 de Fevereiro de 2017

Recordando... Alexandre O'Neill

A BILHA

 

1

 

Bilha: forma que se casa

Com o meu coração,

A dar-me, simples, a asa,

Como um menino a mão!

 

Bilha que serve, na mesa,

e espera, sobre a tolha,

Que a gente sinta a beleza

de quem trabalha...

 

Bilha: donzela que dançou,

Dançou tanto de roda,

E na «pose» que me agrada,

De repente ficou!

 

2

 

Bilha só para ver...

Parece uma rapariga

Que ninguém quer,

A mostrar a barriga!

 

Bilha: mais bela por servir,

Por nem sempre conter,

por se poder

Partir...

 

Bilha que trabalha, que serve,

Que se enche e esvazia

Com a água e com a sede

De cada dia!

 

3

 

Serás, bilha, só a terna

Parede feminina

Entre o espaço que te cerca

E o espaço que te anima?

 

Mas da própria condição

de só deveres conter

Água para beber

Se forma o teu coração!

 

In “No Reino da Dinamarca”
Editores Guimarães

 

Alexandre O'Neill

(1924-1986)

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Terça-feira, 31 de Janeiro de 2017

Recordando... E. M. de Melo e Castro

UMA CHAMA NÃO CHAMA A MESMA CHAMA

 

uma chama não chama a mesma chama

há uma outra chama que se chama

em cada chama que chama que chama pala chama

que a chama no chamar se incendeia

 

um nome não nome o mesmo nome

um outro nome nome que nomeia

em cada nome o chama pelo nome

que o nome no nome se incendeia

 

uma chama um nome a mesma chama

há um outro nome que se chama

em cada nome o chama pelo nome

que a chama no nome se incendeia

 

um nome uma chama o mesmo nome

há uma outra chama que nomeia

em cada chama o nome que se chama

o nome que na chama se incendeia

 

In “Versus-in-versus”

 

E. M. de Melo e Castro **

(N. 1932)

 

** Nome literário de Ernesto Manuel Geraldes

   de Melo e Castro

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