Domingo, 19 de Fevereiro de 2017

Recordando... Sebastião da Gama

NASCI PARA SER IGNORANTE  

 

Nasci para ser ignorante

mas os parentes teimaram

(e dali não arrancaram)

em fazer de mim estudante.

 

Que remédio? Obedeci.

Há já três lustros que estudo.

Aprender, aprendi tudo,

mas tudo desaprendi.

 

Perdi o nome às Estrelas,

aos nossos rios e aos de fora.

Confundo fauna com flora.

Atrapalham-me as parcelas.

 

Mas passo dias inteiros

a ver um rio passar.

Com aves e ondas do Mar

tenho amores verdadeiros.

 

Rebrilha sempre uma Estrela

por sobre o meu parapeito;

pois não sou eu que me deito

sem ter falado com ela.

 

Conheço mais de mil flores.

Elas conhecem-me a mim.

Só não sei como em latim

as crismaram os doutores.

 

No entanto sou promovido,

mal haja lugar aberto,

a mestre: julgam-me esperto,

inteligente e sabido.

 

O pior é se um director

espreita p'la fechadura:

lá se vai licenciatura

se ouve as lições do doutor.

 

Lá se vai o ordenado

de tuta-e-meia por mês.

Lá fico eu de uma vez

um Poeta desempregado.

 

Se me não lograr o fado

porém, com tais directores,

e de rios, aves e flores

somente for vigiado,

 

enquanto as aulas correrem

não sentirei calafrios,

que flores, aves e rios

ignorante é que me querem.

 

In ”Cabo da Boa Esperança”

Ática Editora

 

Sebastião da Gama

(1924-1952)

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Segunda-feira, 13 de Fevereiro de 2017

Recordando... Vasco Graça Moura

SETEMBRO

 

agora o outono chega, nos seus plácidos

meneios pelas vinhas, um dos vizinhos passa

um cabaz de maçãs por sobre a vedação:

redondas, verdes, o seu perfume vai

dentro de quinze dias ser mais forte.

    

a noite cai mais cedo e apetece

guardar certos vermelhos da folhagem

e amarelos e castanhos nas ladeiras

de Setembro. a rádio fala no tempo variável

que vem aí dentro de dias. talvez caia

  

uma chuvinha benfazeja, a pôr no ponto certo

os bagos de uva. e há poalhas morosas, mais douradas.

aproveita-se o outono no macio

enchimento dos frutos para colhê-lo a tempo.

devagar, devagar. é mais doce no outono a tua pele.

  

In "Poesia 2001/2005"

Quetzal Editores

 

Vasco Graça Moura

(1942-2014)

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Terça-feira, 7 de Fevereiro de 2017

Recordando... Bernardo de Passos

SAUDADES...

 

Saudades de amor, são penas

Que nascem do coração...

E como as penas das aves,

Quantas mais, mais brandas são!

 

Meu coração fez um ninho

Como o das aves perfeito,

Juntando todas as penas

De que ele me encheu o peito...

 

E nesse ninho, a sonhar

Dorme, assim, horas serenas,

Como dorme um passarinho

Sobre o seu ninho de penas.

 

In " A Saudade”

 

Bernardo de Passos

(1876-1930)

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Quarta-feira, 1 de Fevereiro de 2017

Recordando... Alexandre O'Neill

A BILHA

 

1

 

Bilha: forma que se casa

Com o meu coração,

A dar-me, simples, a asa,

Como um menino a mão!

 

Bilha que serve, na mesa,

e espera, sobre a tolha,

Que a gente sinta a beleza

de quem trabalha...

 

Bilha: donzela que dançou,

Dançou tanto de roda,

E na «pose» que me agrada,

De repente ficou!

 

2

 

Bilha só para ver...

Parece uma rapariga

Que ninguém quer,

A mostrar a barriga!

 

Bilha: mais bela por servir,

Por nem sempre conter,

por se poder

Partir...

 

Bilha que trabalha, que serve,

Que se enche e esvazia

Com a água e com a sede

De cada dia!

 

3

 

Serás, bilha, só a terna

Parede feminina

Entre o espaço que te cerca

E o espaço que te anima?

 

Mas da própria condição

de só deveres conter

Água para beber

Se forma o teu coração!

 

In “No Reino da Dinamarca”
Editores Guimarães

 

Alexandre O'Neill

(1924-1986)

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Terça-feira, 31 de Janeiro de 2017

Recordando... E. M. de Melo e Castro

UMA CHAMA NÃO CHAMA A MESMA CHAMA

 

uma chama não chama a mesma chama

há uma outra chama que se chama

em cada chama que chama que chama pala chama

que a chama no chamar se incendeia

 

um nome não nome o mesmo nome

um outro nome nome que nomeia

em cada nome o chama pelo nome

que o nome no nome se incendeia

 

uma chama um nome a mesma chama

há um outro nome que se chama

em cada nome o chama pelo nome

que a chama no nome se incendeia

 

um nome uma chama o mesmo nome

há uma outra chama que nomeia

em cada chama o nome que se chama

o nome que na chama se incendeia

 

In “Versus-in-versus”

 

E. M. de Melo e Castro **

(N. 1932)

 

** Nome literário de Ernesto Manuel Geraldes

   de Melo e Castro

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Quarta-feira, 25 de Janeiro de 2017

Recordando... Cesário Verde

CADÊNCIAS TRISTES

 

                           A João de Deus

                       

Ó bom João de Deus, ó lírico imortal,

Eu gosto de te ouvir falar timidamente

Num beijo, num olhar, num plácido ideal;

Eu gosto de te ver contemplativo e crente,

Ó pensador suave, ó lírico imortal!

 

E fico descansada, à noite, quando cismo

Que tentam proscrever a sensibilidade,

E querem denegrir o cândido lirismo;

Porque o teu rosto exprime uma serenidade,

Que vem tranquilizar-me, à noite, quando cismo!

 

O enleio, a simpatia e toda a comoção

Tu mostras no sorriso ascético e perfeito;

E tens o edificante e doce amor cristão,

Num trono de bondade, a iluminar-te o peito,

Que é toda a melodia e toda a comoção!

 

Poeta da mulher! Atende, escuta, pensa,

Já que és o nosso irmão, já que és o nosso mestre.

Que ela, ou doente sempre ou na convalescença,

É como a flor de estufa em solidão silvestre,

Ao tempo abandonada! Atende, escuta, pensa.

 

E, ó meigo visionário, ó meu devaneador,

O sentimentalismo há-de mudar de fases;

Mas só quando morrer a derradeira flor

É que não hão-de ler-se os versos que tu fazes,

Ó bom João de deus, ó meu devaneador!

 

In “Cânticos do Realismos e Outros Poemas - 32 Cartas”

Edição Teresa Sobral Cunha

Relógio de Água Editores

 

Cesário Verde

(1855-1886)

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Quinta-feira, 19 de Janeiro de 2017

Recordando... Hélia Correia

PARA QUÊ, PERGUNTOU ELE

 

Para quê, perguntou ele, para que servem

Os poetas em tempo de indigência?

Dois séculos corridos sobre a hora

Em que foi escrita esta meia linha,

Não a hora do anjo, não: a hora

Em que o luar, no monte emudecido,

Fulgurou tão desesperadamente

Que uma antiga substância, essa beleza

Que podia tocar-se num recesso

Da poeirenta estrada, no terror

Das cadelas nocturnas, na contínua

Perturbação, morada da alegria;

 

In “A Terceira Miséria”

Relógio d’Água - 2012

 

Hélia Correia

(N. 1949)

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Sexta-feira, 13 de Janeiro de 2017

Recordando...

TINHA DEIXADO A TORPE ARTE DOS VERSOS

 

Tinha deixado a torpe arte dos versos

e de novo procuro esse exercício

de soluços

 

Devo agora rever a noite que te oculta

como pude esquecer que de tal modo

teria de exprimir

 

tudo o que já esquecera e sopra sobre

mim

como numa planície o crepúsculo

 

Tinha esquecido a arte dos tercetos

e toda a

outra

mas fechaste-te nela e eu descubro

no seu esse veneno esse discurso

 

Devo pois ver de novo como muda

como os sinais da voz a noite que perdura

tu deitas-te eu ensino à minha vida

esse extinto exercício

 

In “Teoria da Fala”

Pub. Dom Quixote

 

Gastão Cruz

(N. 1941)

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Sábado, 7 de Janeiro de 2017

Recordando... David Mourão-Ferreira

E POR VEZES

 

E, por vezes, as noites duram meses

E, por vezes, os meses oceanos

E, por vezes, os braços que apertamos

Nunca mais são os mesmos. E, por vezes,

 

Encontramos de nós em poucos meses

O que a noite nos fez em muitos anos

E, por vezes, fingimos que lembramos

E, por vezes, lembramos que, por vezes

 

Ao tomarmos o gosto aos oceanos

Só o sarro das noites, não dos meses

Lá no fundo dos copos encontramos

 

E, por vezes, sorrimos ou choramos

E, por vezes, por vezes, ah! Por vezes,

num segundo se evolam tantos anos.

 

In “Matura Idade”

Editora Arcádia

 

David Mourão-Ferreira

(1927-1996)

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Domingo, 1 de Janeiro de 2017

Recordando... Abel Neves

UMAS COISAS ATRÁS DE OUTRAS

 

Umas coisas atrás de outras

fixou na parede a tabuleta e lê-se

proibida a afixação

quem plantou aquela nespereira sabia o que fazia

agora há mais pássaros atrás das nêsperas

muito para além dos frutos alguém

escreveu numa parede do cais do sodré

a fatinha tem sida

aviso enorme

de enormidade

e ali perto outra inscrição

num prédio do corpo santo

paredes brancas povo mudo

 

In “Deitar a língua de fora”

Edições Língua Morta - 2012

 

Abel Neves

(N. 1956)

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