Segunda-feira, 17 de Abril de 2017

Recordando... Edgardo Xavier

ÉS A SEDE

 

Basta crer que és o mar

para me sentir barco ou falua

para ser peixe ou morrer

na rua

em excesso de azul

 

És a sede

que arde nos meus olhos

e não te sabia

 

In “Corpo de Abrigo”

Temas Originais - 2011

 

Edgardo Xavier

(N. 1946)

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Quinta-feira, 13 de Abril de 2017

Recordando... Antónia da Conceição Louro Dionísio do Rosário

O QUE É A VIDA

 

A vida é fortaleza indefiendida,

Construída sobre quiméricas ilusões,

A vida é tragédia iludida,

Cheia de saber, maldade e ambições.

 

A vida é tão leve como a brisa

Que vem do mar em dias de calor;

A vida é estrada que se pisa,

Para alcançar o ódio e o amor.

 

A vida é uma chama que nos queima,

Que nos abrasa sem dó nem piedade;

A vida é nuvem só de fumo,

Que se desfaz no ar, na imensidade.

 

A vida é eterna brincadeira

Que a todos leva de mãos dadas,

A dançar em redor duma fogueira.

A vida é lindo conto de fadas!

 

A vida é puro cântico de Amor!

É musica tocada em doce arpejo.

A vida é perfume e graça de flor,

A vida é tão bela como um beijo!

 

A vida é escada que se sobe,

E que ainda ninguém a deu subida;

A vida é sonho que nos envolve,

E que a morte leva de vencida.

 

In “Pétalas ao Vento”

 

Antónia da Conceição Louro Dionísio do Rosário

(1927-1977)

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Sexta-feira, 7 de Abril de 2017

Recordando... Graça Pires

A NOITE

 

À altura de todas as estrelas

coloco as mãos para tocar o vento.

A lua é um fascínio que deixa atónito

o meu corpo, e lhe dá um cheiro

de fêmea fecundada ; um fogo posto

a deixar um luar, pleno, detido nos meus olhos.

Passeio-me, longamente,

pelo lado mais insensato das palavras

e digo o nome do último pássaro nocturno,

como se nele repetisse um primeiro adeus,

tão súplice, tão magoado.

Um tango exausto sobe-me pelas pernas.

Há, na minha boca, uma rua silenciosa,

por onde se chega à fragilidade dos lábios.

 

In “Ortografia do olhar”

Editora Éter

 

Graça Pires

(N. 1947)

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Sábado, 1 de Abril de 2017

Recordando... Florival de Passos

VAGABUNDO

 

E já sem alma, morto o sentimento

No seu destino incerto pelo mundo

Tem o amargo sorrir do vagabundo

Que despreza o seu próprio sofrimento.

 

E já não sente algum encantamento,

E não o aquece a luz do sol fecundo.

Morreu no seu olhar, triste e profundo,

O sonho que durou um só momento.

 

Existe na aridez da sua vida

Uma mágoa sem nome, incompreendida,

Que o faz tão só, seguindo para além…

 

É destino cruel não ser amado.

Mas sofre mais, é mais atormentado

Aquele que não pode amar ninguém.

 

In “Para além…“

Edição do Autor

Funchal - 1942

 

Florival de Passos

(1915-1989)

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Sexta-feira, 31 de Março de 2017

Recordando... Nicolau Saião

NAZARÉ (vila e praia)

 

Não a outra, mas essa: a que do Sítio nos aponta o ocidente

E depois outras rotas para todos os quadrantes:

a praia de dentro

o jardim de fora e do fundo da nossa pequena

silhueta

- morte que se negou.

 

A solidão da praia do Norte

o assombro da luz

que alimenta a penumbra

Tudo o que por alegria calamos num passo estugado e

um pouco temeroso

Não importa, dizias tu, além é o mundo e ouve-nos

- pequeno veraneante de roupas coloridas que a alguém entregou

sua voz seu segredo

seu nítido momento.

 

E agora

não a outra mas tu

a que não entra nessa história sagrada em que Ester

colocou seu cântaro perto do muro caiado

e que em Azarias achou seu derradeiro refrigério

A mão a asa perfeitamente modelada

e depois seu abalar para sempre, seu

trespassado e imperfeito corpo até à claridade

- bóias barcos refluir de vagas as máquinas

fotográficas ao ritmo do que de longe a serra da Pederneira

conserva e permite.

 

Não a outra mas tu

a que outrora vi entre céus e uma sombra fugaz

Meu íntimo refúgio igual a mil a cem a um apenas.

As flores os fogareiros para o trabalho do peixe a jorna entregue

a quem na memória retém surpresa e saudade

 

ou simplesmente no cimo da falésia avistou

horizontes ruas incólumes a escuridão das dunas.

 

In “Antologia Canto de Mar”

Colecção Bico da Memória

Biblioteca Municipal da Nazaré

 

Nicolau Saião **

(N. 1946)

 

** Pseudónimo literário/artístico de Francisco Ludovino Cleto Garção

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Sábado, 25 de Março de 2017

Recordando... José Saramago

NÃO ME PEÇAM RAZÕES...

 

Não me peçam razões, que não as tenho,

Ou darei quantas queiram: bem sabemos

Que razões são palavras, todas nascem

Da mansa hipocrisia que aprendemos...

Não me peçam razões por que se entenda

A força de maré que me enche o peito,

Este estar mal no mundo e nesta lei:

Não fiz a lei e o mundo não aceito.

Não me peçam razões, ou que as desculpe,

Deste modo de amar e destruir:

Quando a noite é de mais é que amanhece

A cor de primavera que há-de vir.

 

In "Os Poemas Possíveis"

Editorial Caminho

 

José Saramago

(1922-2010)

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Domingo, 19 de Março de 2017

Recordando... Nuno Júdice

PARA ESCREVER O POEMA

 

O poeta quer escrever sobre um pássaro:

e o pássaro foge-lhe do verso.

O poeta quer escrever sobre a maçã:

e a maçã cai-lhe do ramo onde a pousou.

O poeta quer escrever sobre uma flor:

e a flor murcha no jarro da estrofe.

Então, o poeta faz uma gaiola de palavras

para o pássaro não fugir.

Então, o poeta chama pela serpente

para que ela convença Eva a morder a maçã.

Então, o poeta põe água na estrofe

para que a flor não murche.

Mas um pássaro não canta

quando o fecham na gaiola.

A serpente não sai da terra

porque Eva tem medo de serpentes.

E a água que devia manter viva a flor

escorre por entre os versos.

E quando o poeta pousou a caneta,

o pássaro começou a voar,

Eva correu por entre as macieiras

e todas as flores nasceram da terra.

O poeta voltou a pegar na caneta,

escreveu o que tinha visto,

e o poema ficou feito.

 

In “A Matéria do Poema”

Publicações D. Quixote

 

Nuno Júdice

(N. 1949)

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Segunda-feira, 13 de Março de 2017

Recordando... Ruy Belo

DECLARAÇÃO DE AMOR A UMA ROMANA DO SÉCULO SEGUNDO

 

Um dia passaste pelos meus versos

Como eu agora passo por diante destas esculturas

que não merecem mais que um apressado olhar

Mas na tua presença eu tenho de parar

dama desconhecida com certeza viva mais aqui

que no segundo século em Roma onde viveste

Moldaram-te esse rosto abriram-te esse olhar

decerto impressionante para que uns dezoito séculos mais tarde

te pudesse encontrar quem mais que tu morreu

mas te ama ó mulher perdidamente

Não mais te esquecerei hei-de sonhar contigo

sei que te conquistei e libertei

de qualquer compromisso que tivesses

Ninguém sabe quem eras nem eu próprio

não tens sequer um nome uns apelidos

nada se sabe acerca do teu estado civil

Sei mais que tudo isso porque sei

que atravessaste séculos na forma de escultura

só para um dia nós nos encontrarmos

Tenho mulher e filhos sou de longe

a lei é rígida e severa a sociedade

Não te importes mulher deixa-te estar

não penses não te mexas podes estar certa

de que me deste mais do que tudo o demais que me pudesses dar

pois para ser diferente de quem era

bastou-me ver teu rosto e mais que ver olhar

 

In “Transporte no Tempo”

Editora Presença

 

Ruy Belo

(1933-1978)

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Terça-feira, 7 de Março de 2017

Recordando... Adília Lopes

PEDRO DE SANTARÉM

 

Querida

rapariga

primitiva

que eu sou

fui

e hei-de ser

 

Minha

querida

rapariga

para ti

os girassóis

são giros

e giram

 

E

é o amor

que move

o Sol

que move

o girassol

 

E

é o girassol

que move

o Sol

 

Querida

rapariga

imperativa:

gira, Sol

gira, girassol

 

E

Deus

é

o girassol

 

In "César a César"

Edições &etc

 

Adília Lopes **

(N.1960)

 

** Pseudónimo de Maria José da Silva Viana Fidalgo de Oliveira

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Quarta-feira, 1 de Março de 2017

Recorando... Cecília Vilas Boas

SER FELIZ

 

Permaneço além de mim, muito além

Num sítio onde a felicidade sorri

Onde os dias são feitos de espuma

Onde a bruma se dissipou enfim

 

Sou asa, neste caminho de além

Que paz tem este azul da manhã!

Que sonho é este d’onde não acordo?

Que chama arde em mim…?!

 

Vivo? Sonho? O que é de mim?!

Começo? Fim? O que tenho em mim?

Encantamento, vejo olhos brilhantes

 

Ou será o meu contentamento?

Já não sei se sou mar ou sol

Mas sei que sou feliz!

 

In “O Tempo da Alma”

Chiado Editora

 

Cecília Vilas Boas

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