POESIA DE AMOR
Vieram as aves negras em teu nome,
Secas folhas de plátano e de tília...
Amargamente, a fonte segredou-me
Tudo quanto eu sabia
Da sorte de Marília;
E que Dirceu
Poderei ser eu
- Tão infeliz! - nesta prisão sombria.
Ausente embora, continuo
A endereçar-te mil endechas.
Não sei mais nada: sei amor. Assim destruiu,
Pela canção doentia
Coloração das minhas queixas.
Bárbara escrava?
Que me importava?
Além do amor, o meu amor quer melodia.
Cantei às flores do pinho, verde e vivo;
Cantei nas margens verdes das ribeiras.
- Quando hás-de ver que foste só motivo
Para falsas canções tão verdadeiras?
In “Tempestade de Verão”
Guimarães Editores
David Mourão-Ferreira
1927 – 1926
A UMA ANDORINHA
Nas brisas da tardinha
Pára teu vôo um pouco;
Ouve um poeta, um louco,
– Escuta-me andorinha!
Um pouco deixa os ninhos;
Attende as vãs loucuras,
–Tambem nas sepulturas
Vôam os passarinhos!
Nem sempre o azul ethereo
Quaes flexas vão cortando,
– Também riem, voando,
No chão do cemiterio!
Lavam os pés rosados
Nas urnas funeraes;
–Tu, mesmo, nos telhados
Moras das cathedraes!
Não fujas d'um poeta,
Que ha nuvens mais sombrias!
– Tu já moraste uns dias
No nicho d'um propheta!
Por tanto, tu que adoras
A primavera e o Sul,
Dize-me, – no alto azul,
Quem faz sempre as Auroras!
Quem dá tintas vermelhas
Ao Sol poente que arde?
– Quem coze as nuvens velhas,
E accende o astro da tarde?
Os campos dão renovos
Tambem, n'outras espheras?
– Quem faz as primaveras?
– Quem faz os astros novos?
Quem faz a ave-flor?
Quem tinge o temporal?
– Quem faz a pomba, côr
Do lyrio virginal?
No Sol ha violetas,
E rios, campos, vinhas?
– Dize, se nos planetas?...
Tambem ha andorinhas...
E tu que mais almejas?
Tens sol, astros e ninhos--
Tens tudo o que desejas...
– Luz, grãos, pelos caminhos!
Ó triste ambicionar!
Ó santo e vão delirio!
– Talvez, ó filha do Ar
Quizesses ser um lyrio!
In “Claridades do Sul”
Braz Pinheiro – Editor
Lisboa – 1875
Gomes Leal
1848 – 1921
MANTEM A GRAFIA ORIGINAL
TRAZ OUTRO AMIGO TAMBÉM
Amigo
Maior que o pensamento
Por essa estrada amigo vem
Não percas tempo que o vento
É meu amigo também
Em terras
Em todas as fronteiras
Seja bem-vindo quem vier por bem
Se alguém houver que não queira
Trá-lo contigo também
Aqueles
Aqueles que ficaram
(Em toda a parte todo o mundo tem)
Em sonhos me visitaram
Traz outro amigo também
In ”Textos e Canções”
Relógio d’Água Editores – Out.2000
José Afonso
1929 – 1987
UM DIA DIFERENTE
Amanhã
quando nascer um hino de alegria
em todos os olhares
de todas as crianças
quando o meu sangue vermelho
e a minha boca vermelha
se transformarem
e quando amadurecerem nos meus braços
as espigas dos meus dedos
e os homens finalmente se encontrarem
e se chamarem de novo irmãos
e quando houver em cada pensamento
a raiz futura de um poema
e uma verdade pura em cada beijo
e em cada beijo uma canção de paz
amanhã
meu amor minha pátria meu poema
cantaremos a cada aurora
um dia diferente.
In “O Pássaro no Espelho”
Moraes Editores – 1975
Joaquim Pessoa
N. 1948
FORÇA CAMARADA...
Não direi:
Que o silêncio me sufoca e amordaça.
Calado estou, calado ficarei,
Pois que a língua que falo é de outra raça.
Palavras consumidas se acumulam,
Se represam, cisterna de águas mortas,
Ácidas mágoas em limos transformadas,
Vaza de fundo em que há raízes tortas.
Não direi:
Que nem sequer o esforço de as dizer merecem,
Palavras que não digam quanto sei
Neste retiro em que me não conhecem.
Nem só lodos se arrastam, nem só lamas,
Nem só animais bóiam, mortos, medos,
túrgidos frutos em cachos se entrelaçam
No negro poço de onde sobem dedos.
Só direi,
crispadamente recolhido e mudo,
Que quem se cala quando me calei
Não poderá morrer sem dizer tudo.
In “Os Poemas Possíveis”
Editorial Caminho
José Saramago
1922 – 2010
CONSELHO
Cerca de grandes muros quem te sonhas.
Depois, onde é visível o jardim
Através do portão de grade dada,
Põe quantas flores são as mais risonhas,
Para que te conheçam só assim.
Onde ninguém o vir não ponhas nada.
Faze canteiros como os que outros têm,
Onde os olhares possam entrever
O teu jardim com lho vais mostrar.
Mas onde és teu, e nunca o vê ninguém,
Deixa as flores que vêm do chão crescer
E deixa as ervas naturais medrar.
Faze de ti um duplo ser guardado;
E que ninguém, que veja e fite, possa
Saber mais que um jardim de quem tu és –
Um jardim ostensivo e reservado,
Por trás do qual a flor nativa roça
A erva tão pobre que nem tu a vês...
“Cancioneiro”
In “Fernando Pessoa – Antologia Poética”
3ª. Edição – Biblioteca Ulisses de Autores Portugueses
Editora Ulisses
Fernando Pessoa
1888 – 1935
LIBERDADE
Quem marca uma fronteira
àquela nuvem
a asa que é a sua sombra
onde mora?
Sob as mordaças
calam-se as palavras
mas ninguém te cala
pensamento.
Quem manda à semente
não germines
ao fruto dela
que o não seja?
Amarram-se os pulsos
com algemas
mas ninguém te amarra
pensamento.
Quem impõe ao dia
que não nasça
ao sol que é a sua fonte
que não brilhe?
Fecham-se as janelas
com tapumes
mas ninguém te cega
pensamento.
Quem diz ao amor
é impossível
à lembrança que é seu laço
que o não seja?
Separam-se os amantes
na distância
ninguém te roubará
meu pensamento.
In “A Poesia Necessária”
Vértice – Coimbra
Joaquim Namorado
1914 – 1986
EM LOUVOR DO FOGO
Um dia chega
de uma extrema doçura:
tudo arde.
Arde a luz
nos vidros da ternura.
As aves,
no branco
labirinto da cal.
As palavras ardem,
e a púrpura das naves.
O vento,
onde tenho casa
à beira do outono.
O limoeiro, as colinas.
Tudo arde
na extrema e lenta
doçura da tarde.
In “Obscuro Domínio”
Editorial Inova – 1971
Eugénio de Andrade
1923 – 2005
NA RUA DAS MÓNICAS
Nos meus vinte anos,
almoçar em casa de Sofia
era ouvir ferver em cachão, frigir
na cozinha, arfar a cafeteira da poesia.
Era ver a ama de Sofia,
e de todos os filhos, de muitos versos,
cuidar de muitas gerações de memórias,
no lar desses versos tão caseiros.
E era beber, ali, na mesa, uma água
que, mais do que a da torneira,
concitou o mar para cada copo.
Era olhar um rosto de coral
(o que exorciza as Fúrias, na cozinha)
um rosto de mar novo, de geografia.
Era escutar as palavras da boca
do vocábulo grego para a sabedoria
o que me confirma o poder dos nomes,
ao serem Verbo, sobre os seres e as coisas.
Era sentar-me, lado a lado,
no espaço irradiante da volúvel lareira,
no Outono apagada, na Primavera acesa,
e com o fogaréu alimentado
por papéis venais de outra política
(que não a da sua humanidade),
que a prudência mandava destruir no fogo.
Era entrar e sair pela porta das Mónicas,
a das mulheres congregadas
sob invocação da mãe de Agostinho,
o que para mim celebrava também
o amor da mãe, da velha ama, da Poesia.
In “Cenas Vivas”
Relógio d’Água Editores – 2000
Fiama Hasse Pais Brandão
1938 – 2007
CANÇÃO TÃO SIMPLES
Quem poderá domar os cavalos do vento
quem poderá domar este tropel
do pensamento
à flor da pele?
Quem poderá calar a voz do sino triste
que diz por dentro do que não se diz
a fúria em riste
do meu país?
Quem poderá proibir estas letras de chuva
que gota a gota escrevem nas vidraças
pátria viúva
a dor que passas?
Quem poderá prender os dedos farpas
que dentro da canção fazem das brisas
as armas harpas
que são precisas?
In “O Canto e as Armas”
Publicações Dom Quixote
Manuel Alegre
N. 1936
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