Domingo, 13 de Maio de 2012
Recordando... David Mourão-Ferreira

POESIA DE AMOR

 

Vieram as aves negras em teu nome,

Secas folhas de plátano e de tília...

Amargamente, a fonte segredou-me

Tudo quanto eu sabia

Da sorte de Marília;

E que Dirceu

Poderei ser eu

- Tão infeliz! - nesta prisão sombria.

 

Ausente embora, continuo

A endereçar-te mil endechas.

Não sei mais nada: sei amor. Assim destruiu,

Pela canção doentia

Coloração das minhas queixas.

Bárbara escrava?

Que me importava?

Além do amor, o meu amor quer melodia.

 

Cantei às flores do pinho, verde e vivo;

Cantei nas margens verdes das ribeiras.

- Quando hás-de ver que foste só motivo

Para falsas canções tão verdadeiras?

 

 

In “Tempestade de Verão”

Guimarães Editores

 

David Mourão-Ferreira

1927 – 1926



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Segunda-feira, 7 de Maio de 2012
Recordando... Gomes Leal

A UMA ANDORINHA

 

Nas brisas da tardinha

Pára teu vôo um pouco;

Ouve um poeta, um louco,

– Escuta-me andorinha!

 

Um pouco deixa os ninhos;

Attende as vãs loucuras,

–Tambem nas sepulturas

Vôam os passarinhos!

 

Nem sempre o azul ethereo

Quaes flexas vão cortando,

– Também riem, voando,

No chão do cemiterio!

 

Lavam os pés rosados

Nas urnas funeraes;

–Tu, mesmo, nos telhados

Moras das cathedraes!

 

Não fujas d'um poeta,

Que ha nuvens mais sombrias!

– Tu  já moraste uns dias

No nicho d'um propheta!

 

Por tanto, tu que adoras

A primavera e o Sul,

Dize-me, – no alto azul,

Quem faz sempre as Auroras!

 

Quem dá tintas vermelhas

Ao Sol poente que arde?

– Quem  coze as nuvens velhas,

E accende o astro da tarde?

 

Os campos dão renovos

Tambem, n'outras espheras?

– Quem faz as primaveras?

– Quem  faz os astros novos?

 

Quem faz a ave-flor?

Quem tinge o temporal?

– Quem faz a pomba, côr

Do lyrio virginal?

 

No Sol ha violetas,

E rios, campos, vinhas?

– Dize, se nos planetas?...

Tambem ha andorinhas...

 

E tu que mais almejas?

Tens sol, astros e ninhos--

Tens tudo o que desejas...

– Luz, grãos, pelos caminhos!

 

Ó triste ambicionar!

Ó santo e vão delirio!

– Talvez, ó filha do Ar

Quizesses ser um lyrio!

 

 

In “Claridades do Sul”

Braz Pinheiro – Editor

Lisboa – 1875

 

Gomes Leal

1848 – 1921

 

 

MANTEM A GRAFIA ORIGINAL



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Terça-feira, 1 de Maio de 2012
Recordando... José Afonso

TRAZ OUTRO AMIGO TAMBÉM

 

Amigo

Maior que o pensamento

Por essa estrada amigo vem

Não percas tempo que o vento

É meu amigo também

 

Em terras

Em todas as fronteiras

Seja bem-vindo quem vier por bem

Se alguém houver que não queira

Trá-lo contigo também

 

Aqueles

Aqueles que ficaram

(Em toda a parte todo o mundo tem)

Em sonhos me visitaram

Traz outro amigo também

 

 

In ”Textos e Canções”

Relógio d’Água Editores – Out.2000

 

José Afonso

1929 – 1987 



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Segunda-feira, 30 de Abril de 2012
Recordando... Joaquim Pessoa

UM DIA DIFERENTE

 

Amanhã

quando nascer um hino de alegria

em todos os olhares

de todas as crianças

 

quando o meu sangue vermelho

e a minha boca vermelha

se transformarem

 

e quando amadurecerem nos meus braços

as espigas dos meus dedos

e os homens finalmente se encontrarem

e se chamarem de novo irmãos

 

e quando houver em cada pensamento

a raiz futura de um poema

e uma verdade pura em cada beijo

e em cada beijo uma canção de paz

 

amanhã

meu amor minha pátria meu poema

cantaremos a cada aurora

um dia diferente.

 

 

In “O Pássaro no Espelho”

Moraes Editores – 1975

 

Joaquim Pessoa

N. 1948



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Quarta-feira, 25 de Abril de 2012
Recordando... José Saramago

FORÇA CAMARADA...

 

Não direi:
Que o silêncio me sufoca e amordaça.
Calado estou, calado ficarei,
Pois que a língua que falo é de outra raça.

Palavras consumidas se acumulam,
Se represam, cisterna de águas mortas,
Ácidas mágoas em limos transformadas,
Vaza de fundo em que há raízes tortas.

Não direi:
Que nem sequer o esforço de as dizer merecem,
Palavras que não digam quanto sei
Neste retiro em que me não conhecem.

Nem só lodos se arrastam, nem só lamas,
Nem só animais bóiam, mortos, medos,
túrgidos frutos em cachos se entrelaçam
No negro poço de onde sobem dedos.

Só direi,
crispadamente recolhido e mudo,
Que quem se cala quando me calei
Não poderá morrer sem dizer tudo.


In “Os Poemas Possíveis”

Editorial Caminho

 

José Saramago

1922 – 2010



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Terça-feira, 17 de Abril de 2012
Recordando... Fernando Pessoa

CONSELHO

 

Cerca de grandes muros quem te sonhas.

Depois, onde é visível o jardim

Através do portão de grade dada,

Põe quantas flores são as mais risonhas,

Para que te conheçam só assim.

Onde ninguém o vir não ponhas nada.

 

Faze canteiros como os que outros têm,

Onde os olhares possam entrever

O teu jardim com lho vais mostrar.

Mas onde és teu, e nunca o vê ninguém,

Deixa as flores que vêm do chão crescer

E deixa as ervas naturais medrar.

 

Faze de ti um duplo ser guardado;

E que ninguém, que veja e fite, possa

Saber mais que um jardim de quem tu és –

Um jardim ostensivo e reservado,

Por trás do qual a flor nativa roça

A erva tão pobre que nem tu a vês...

 

 

“Cancioneiro”

 

In “Fernando Pessoa – Antologia Poética”

3ª. Edição – Biblioteca Ulisses de Autores Portugueses

Editora Ulisses

 

Fernando Pessoa

1888 – 1935



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Sexta-feira, 13 de Abril de 2012
Recordando... Joaquim Namorado

LIBERDADE

 

Quem marca uma fronteira
àquela nuvem
a asa que é a sua sombra
onde mora?

 

Sob as mordaças
calam-se as palavras
mas ninguém te cala
pensamento.

 

Quem manda à semente
não germines
ao fruto dela
que o não seja?

 

Amarram-se os pulsos
com algemas
mas ninguém te amarra
pensamento.

 

Quem impõe ao dia
que não nasça
ao sol que é a sua fonte
que não brilhe?

 

Fecham-se as janelas
com tapumes
mas ninguém te cega
pensamento.

 

Quem diz ao amor
é impossível
à lembrança que é seu laço
que o não seja?

 

Separam-se os amantes
na distância
ninguém te roubará
meu pensamento.

 

 

In “A Poesia Necessária”

Vértice – Coimbra      

 

Joaquim Namorado

1914 – 1986



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Sábado, 7 de Abril de 2012
Recordando... Eugénio de Andrade

EM LOUVOR DO FOGO

Um dia chega
de uma extrema doçura:
tudo arde.

Arde a luz
nos vidros da ternura.

As aves,
no branco
labirinto da cal.

As palavras ardem,
e a púrpura das naves.

O vento,

onde tenho casa
à beira do outono.

O limoeiro, as colinas.

Tudo arde

na extrema e lenta
doçura da tarde.


In “Obscuro Domínio”

Editorial Inova – 1971

 

Eugénio de Andrade

1923 – 2005  



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Domingo, 1 de Abril de 2012
Recordando... Fiama Hasse Pais Brandão

NA RUA DAS MÓNICAS

Nos meus vinte anos,
almoçar em casa de Sofia
era ouvir ferver em cachão, frigir
na cozinha, arfar a cafeteira da poesia.
Era ver a ama de Sofia,
e de todos os filhos, de muitos versos,
cuidar de muitas gerações de memórias,
no lar desses versos tão caseiros.
E era beber, ali, na mesa, uma água
que, mais do que a da torneira,
concitou o mar para cada copo.
Era olhar um rosto de coral
(o que exorciza as Fúrias, na cozinha)
um rosto de mar novo, de geografia.
Era escutar as palavras da boca
do vocábulo grego para a sabedoria
o que me confirma o poder dos nomes,
ao serem Verbo, sobre os seres e as coisas.
Era sentar-me, lado a lado,
no espaço irradiante da volúvel lareira,
no Outono apagada, na Primavera acesa,
e com o fogaréu alimentado
por papéis venais de outra política
(que não a da sua humanidade),
que a prudência mandava destruir no fogo.
Era entrar e sair pela porta das Mónicas,
a das mulheres congregadas
sob invocação da mãe de Agostinho,
o que para mim celebrava também
o amor da mãe, da velha ama, da Poesia.


In “Cenas Vivas”

Relógio d’Água Editores – 2000

 

Fiama Hasse Pais Brandão

1938 – 2007



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Sábado, 31 de Março de 2012
Recordando... Manuel Alegre

CANÇÃO TÃO SIMPLES

 

Quem poderá domar os cavalos do vento
quem poderá domar este tropel
do pensamento
à flor da pele?

Quem poderá calar a voz do sino triste
que diz por dentro do que não se diz
a fúria em riste
do meu país?

Quem poderá proibir estas letras de chuva
que gota a gota escrevem nas vidraças
pátria viúva
a dor que passas?

Quem poderá prender os dedos farpas
que dentro da canção fazem das brisas
as armas harpas
que são precisas?

 

 

In “O Canto e as Armas”

Publicações Dom Quixote

 

 

Manuel Alegre

N. 1936

 



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