Quarta-feira, 13 de Dezembro de 2017

Recordando... Ana Antunes

SOU UMA GOTA PEQUENA

 

Sou uma gota pequena

Correndo rio abaixo

À procura do meu lugar.

Contorno tudo o que se opõe

E continuo o meu caminho

Por vezes sozinha

Às vezes acompanhada de outras gotas

Porque acompanhada ganho força.

 

Corro, pulo, ou sigo serenamente

Límpida e transparente

Quando chegam as enxurradas

Fico turva

Tenho de dar tempo ao tempo

Até voltar a ser.

 

Por vezes evaporo

Fico sem saber onde me encontro

Até que regresso

Numa chuva suave ou numa tempestade

E volto a correr

Para ver se chego ao meu destino

Que nem sempre sei onde fica.

 

O caminho não é fácil

Nesta viagem peregrina

Tantos obstáculos, para transpor

Será que chegarei ao aconchego do oceano?

Se lá chegar, descansarei, ou não

Conforme o seu estado

Contudo sei que tudo farei para chegar

À paz das águas serenas!

 

In “Corações em Silêncio”

Editora MoDocromia

 

Ana Antunes

(N.1962)

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Quinta-feira, 7 de Dezembro de 2017

Recordando... Eugénio de Andrade

RETRATO

 

No teu rosto começa a madrugada.

Luz abrindo,

de rosa em rosa,

transparente e molhada.

 

Melodia

distante mas segura;

irrompendo da terra,

cálida, madura.

 

Mar imenso,

praia deserta, horizontal e calma.

Sabor agreste.

Rosto da minha alma!

 

in "Os Amantes Sem Dinheiro"

8ª Edição 1980

Editora Limiar

 

Eugénio de Andrade **

(1923-2005)

 

** Pseudónimo de José Fontinhas

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Sexta-feira, 1 de Dezembro de 2017

Recordando... Alberto de Serpa

RECREIO

 

Na claridade da manhã primaveril,

Ao lado da brancura lavada da escola,

as crianças confraternizam-se com a alegria das aves....

 

E o sol abre-lhes rosas nas faces saudáveis

A mão doce do vento afaga-lhes os cabelos,

– Um sol discreto que se esconde às vezes entre nuvens brancas...

 

As meninas dançam de roda e cantam

As suas cantigas simples, de sentido obscuro e incerto,

Acompanhadas de gestos senhoris e graves.

 

Os rapazes correm sem tino e travam lutas,

Gritam entusiasmados o amor espontâneo à vida,

À vida que vai chegando despercebida e breve...

 

E a jovem mestra olha todos enlevadamente,

Com um sorriso misterioso nos lábios tristes...

 

In “Poesia de Ontem e de Hoje para o Nosso Povo Ler”

Antologia dirigida por José Régio

Edição da Campanha Nacional de Educação de Adultos

 

Alberto de Serpa

(1906-1992)

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Quinta-feira, 30 de Novembro de 2017

Recordando... Fernanda de Castro

NÃO FORA O MAR!

 

Não fora o mar,

e eu seria feliz na minha rua,

neste primeiro andar da minha casa

a ver, de dia, o sol, de noite a lua,

calada, quieta, sem um golpe de asa.

 

Não fora o mar,

e seriam contados os meus passos,

tantos para viver, para morrer,

tantos os movimentos dos meus braços,

pequena angústia, pequeno prazer.

 

Não fora o mar,

e os seus sonhos seriam sem violência

como irisadas bolas de sabão,

efémero cristal, branca aparência,

e o resto — pingos de água em minha mão.

 

Não fora o mar,

e este cruel desejo de aventura

seria vaga música ao sol pôr

nem sequer brasa viva, queimadura,

pouco mais que o perfume duma flor.

 

Não fora o mar

e o longo apelo, o canto da sereia,

apenas ilusão, miragem,

breve canção, passo breve na areia,

desejo balbuciante de viagem.

 

Não fora o mar

e, resignada, em vez de olhar os astros

tudo o que é alto, inacessível, fundo,

cimos, castelos, torres, nuvens, mastros,

iria de olhos baixos pelo mundo.

 

Não fora o mar

e o meu canto seria flor e mel,

asa de borboleta, rouxinol,

e não rude halali, garra cruel,

Águia Real que desafia o sol.

 

Não fora o mar

e este potro selvagem, sem arção,

crinas ao vento, com arreio,

meu altivo, indomável coração,

 

Não fora o mar

e comeria à mão,

não fora o mar

e aceitaria o freio.

 

In "Trinta e Nove Poemas"

Edições Ocidente - Editorial Império

 

Fernanda de Castro

(1900-1994)

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Sábado, 25 de Novembro de 2017

Recordando... Glória de Sant'Anna

AFIRMAÇÃO

 

A essência das coisas é senti-las

tão densas e tão claras,

que não possam conter-se por completo

nas palavras.

 

A essência das coisas é nutri-las

tão de alegria e mágoa,

que o silêncio se ajuste à sua forma

sem mais nada.

 

In “Um Denso Azul Silêncio”

 

Glória de Sant'Anna  

(1925-2009)

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Domingo, 19 de Novembro de 2017

Recordando... Carlos de Oliveira

CARTA A ÂNGELA

 

Para ti, meu amor, é cada sonho

de todas as palavras que escrever,

cada imagem de luz e de futuro,

cada dia dos dias que viver.

 

Os abismos das coisas, quem os nega,

se em nós abertos inda em nós persistem?

Quantas vezes os versos que te dou

na água dos teus olhos é que existem!

 

Quantas vezes chorando te alcancei

e em lágrimas de sombra nos perdemos!

As mesmas que contigo regressei

ao ritmo da vida que escolhemos!

 

Mais humana da terra dos caminhos

e mais certa, dos erros cometidos,

foste de novo, e sempre, a mão da esperança

nos meus versos errantes e perdidos.

 

Transpondo os versos vieste à minha vida

e um rio abriu-se onde era areia e dor.

Porque chegaste à hora prometida

aqui te deixo tudo, meu amor!

 

In “Trabalho Poético”

Assírio & Alvim

 

Carlos de Oliveira

(1921-1981)

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Segunda-feira, 13 de Novembro de 2017

Recordando... Américo Cortês Pinto

O FESTIM

 

Uns atrás de outros, impertinentes,

(Que estranho mundo de fantasmas tão dif'rentes!)

Ei-los que surgem aos encontrões

No perturbado Mundo Interior...

Uns a puxar por mim aos repelões,

Outros suaves e alicientes

Com falsos gestos de amor...

 

Uns severos, irados,

Desvairados,

Outros grotescos, histriónicos...

E os mais trágicos de todos – quem diria! –

Os fantasmas irónicos

Da Alegria...

 

Insinuam-se gentis,

Com doces falas, música nos gestos,

Promessas de oiro, subtis,

E o riso

De quem traz dentro das mãos o Paraíso

E é só pedi-lo que é pra nós também...

 

Ah! Como são amigos! Quem não há-de

Abrir tranquilo a porta...

Sentá-los à sua mesa!

Beber o vinho ácido às canecas

E entorná-lo perfumado

Com manchas de rubim sobre as toalhas!...

E olhar as nódoas sobre o linho,

A sorrir,

Sem saber distinguir

Se é sangue ou vinho!

 

Quebrar as taças e julgar que o ruído

Das lágrimas cortantes das estilhas

São risos claros de cristal...

 

E coroar a fronte no banquete

Com as coroas de rosas que nos dão,

Sem perceber que as rosas caem, ficam espinhos...

E à saída

Acompanhá-los pelas ruas, a cantar,

E deixar-se arrastar

Indefeso e sozinho,

Como se fosse, ao cabo do caminho,

Ali mesmo o Céu aberto...

 

E agradecer-lhes iludido

Ao vê-los construir pra nosso bem

As fantásticas miragens do Deserto...

 

E ao acordar, ver-se perdido,

No árido isolamento

Do intérmino areal...

 

A miragem desfeita como um fumo!...

E pra o regresso ao lar,

Um céu sem Sol nem Estrela Polar...

 

Uma bússola doida!...

 

E um chão de areia, sem rumo!...

 

E partir, e sofrer,

E ao cabo, enfim,

Chegar

Exausto, ao lar...

E não ver mais que os restos do festim...

 

O pão alvo, espezinhado...

A golpear-nos as mãos, taças partidas...

As bilhas entornadas no sobrado...

Cinzas no chão! Lume apagado...

As flores emurchecidas...

 

O doce leite derramado e agre...

E em vez de mel:

– Favos de cera e fel

E o vinho nos cristais trocado por vinagre!

 

E através das janelas e dos vidros partidos

Da nossa alma,

Sentir numa agonia,

A sacudir-nos, a risada dos fantasmas

Cruel e fria.

 

In “A Alma e o Deserto”

Portugália Editora

 

Américo Cortês Pinto

(1896-1979)

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Terça-feira, 7 de Novembro de 2017

Recordando... Vítor Nogueira

SE TUDO ACONTECER COMO PREVISTO

 

Se tudo acontecer como previsto,

o Senhor Gouveia acordará

um pouco antes do almoço, mesmo a tempo

de descer as escadas e esperar pelo carteiro.

Se acaso receber correspondência,

há-de tirar o chapéu a uma senhora.

Se não lhe chegar nenhuma carta,

fará exactamente a mesma coisa.

Na vida como na escrita, o Senhor Gouveia

utiliza sempre a mesma rima. Os seus gestos

são alexandrinos medidos ao milímetro,

coisas dificilmente publicáveis

já em meados da década de cinquenta,

quando pela primeira vez tirou o chapéu

a uma senhora

 

(e nunca mais lho devolveu).

 

In "Senhor Gouveia"

Averno - 2006

 

Vítor Nogueira

(N.1966)

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Quarta-feira, 1 de Novembro de 2017

Recordando... Ana Luísa Amaral

ANIVERSÁRIO

 

Será comovedor os quatro anos

e a festa colorida

as velas mal sopradas entre um rissol

no chão e os parabéns:

quatro anos de vida.

Serão comovedores os sumos de

laranja concentrados (proporções

por defeito) e os gostos tão

diversos, o bolo de ananás,

os pés inchados.

Será soberbamente comovente

toda a gente cantando,

o mau comportamento dos adultos

conversas-gelatinas e os anos

só pretexto.

Mas eu gostei. E contra mim gostei

mesmo no resto:

este prazer pequeno do silêncio

um sapato apertando descalçado

guardanapo e rissol por arrumar

no chão e um copo

olhando o nada

em restos de champanhe

 

(Minha Senhora de Quê)

 

In “Inversos – Poesias 1990 – 2010”

Publicações Dom Quixote

 

Ana Luísa Amaral

(N. 1956)

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Terça-feira, 31 de Outubro de 2017

Recordando... Guerra Junqueiro

A LÁGRIMA

 

Manhã de Junho ardente. Uma encosta escavada,  
Seca, deserta e nua, à beira duma estrada.  

 

Terra ingrata, onde a urze a custo desabrocha,  
Bebendo o sol, comendo o pó, mordendo a rocha.  

 

Sobre uma folha hostil duma figueira brava,  
Mendiga que se nutre a pedregulho e lava, 

 

A aurora desprendeu, compassiva e divina, 
Uma lágrima etérea, enorme e cristalina. 

 

Lágrima tão ideal, tão límpida que, ao vê-la,  
De perto era um diamante e de longe uma estrela.  

 

Passa um rei com o seu cortejo de espavento,  
Elmos, lanças, clarins, trinta pendões ao vento.  

 

- «No seu diadema, disse o rei, quedando a olhar, 
Há safiras sem conta e brilhantes sem par. 

 

«Há rubis orientais, sangrentos e doirados,  
Como beijos d'amor, a arder, cristalizados.  

 

«Há pérolas que são gotas de mágoa imensa,  
Que a lua chora e verte, e o mar gela e condensa.  

 

«Pois, brilhantes, rubis e pérolas de Ofir 
Tudo isso eu dou, e vem, ó lágrima, fulgir 

 

«Nesta c'roa orgulhosa, olímpica, suprema,  
Vendo o Globo a meus pés do alto do teu diadema!» 

 

E a lágrima celeste, ingénua e luminosa,  
Ouviu, sorriu, tremeu, e quedou silenciosa. 

 

Couraçado de ferro, épico e deslumbrante,  
Passa no seu ginete um cavaleiro andante.  

 

E o cavaleiro diz à lágrima irisada:  
«Vem brilhar, por Jesus, na cruz da minha espada!  

 

«Far-te-ei relampejar, de vitória em vitória,  
Na Terra Santa, à luz da Fé, ao sol da Glória!  

 

«E à volta há-de guardar-te a minha noiva, ó astro,  
Em seu colo auroreal de rosa e de alabastro.  

 

«E assim alumiarás com teu vivo esplendor 
Mil combates de heróis e mil sonhos d'amor!» 

 

E a lágrima celeste, ingénua e luminosa,   
Ouviu, sorriu, tremeu e quedou silenciosa.  

 

Montado numa mula escura, de caminho,  
Passa um velho judeu, avarento e mesquinho.  

 

Mulas de carga atrás levavam-lhe o tesoiro:  
Grandes arcas de cedro, abarrotadas d’oiro.  

 

E o velhinho andrajoso e magro como um junco,  
O crânio calvo, o olhar febril, o bico adunco,  

 

Vendo a estrela, exclamou: «Oh Deus, que maravilha!  
Como ela resplandece e tremeluz e brilha!  

 

«Com meu oiro em montão podiam-se comprar 
Os impérios dos reis e os navios do mar.  

 

E por esse diamante esplêndido trocara 
Todo o meu oiro imenso a minha mão avara!»  

 

E a lágrima celeste, ingénua e luminosa,  
Ouviu, sorriu, tremeu, e quedou silenciosa.  

 

Debaixo da figueira então um cardo agreste, 
Já ressequido, disse à lágrima celeste: 

 

«A terra onde o lilás e a balsamina medra 
Para mim teve sempre um coração de pedra.  

 

«Se, a queixar-me, ergo ao céu os braços por acaso,  
O céu manda-me em paga o fogo em que me abraso.  

 

«Nunca junto de mim, ulcerado de espinhos,  
Ouvi trinar, gorjear a música dos ninhos.  

 

«Nunca junto de mim ranchos de namoradas 
Debandaram, cantando, em noites estreladas... 

 

«Voa a ave no azul e passa longe o amor,  
Porque ai, nunca dei sombra e nunca tive flor!... 

 

Ó lágrima de Deus, ó astro, ó gota d’água,  
Cai na desolação desta infinita mágoa!»  

 

E a lágrima celeste, ingénua e luminosa,  
Tremeu, tremeu, tremeu... e caiu silenciosa!... 

 

E algum tempo depois o triste cardo exangue,  
Reverdecendo, dava uma flor cor de sangue, 

 

Dum roxo macerado e dorido e desfeito, 
Como as chagas que tem Nosso Senhor no peito... 

 

E ao cálix virginal da pobre flor vermelha 
Ia buscar, zumbindo, o mel doirado a abelha!...

           

[25 de Março de 1888]  

                                                                                       

In "Poesias Dispersas"

Edições Vercial (2013)

 

Guerra Junqueiro

(1850-1923)

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