Quarta-feira, 7 de Dezembro de 2016

Recordando... Camilo Castelo Branco

POEMA DEDICADO A ANA PLÁCIDO - 1857

 

Querida, o teu viver era um letargo,

Nenhuma aspiração te atormentava;

Afeita já do jugo ao duro cargo,

Teu peito nem sequer desafogava.

Fui eu que te apontei um mundo largo

De novas sensações; teu peito ansiava

Ouvindo-me contar entre caricias,

Do livre e ardente amor tantas delícias!

 

Não te mentia, não. Sentiste-o, filha,

Esse amor infinito e imaculado,

Estrela maga que incessante brilha

Da alma pura ao casto amor sagrado;

Afecto nobre que jamais partilha

O coração de vícios ulcerado.

Não sentes, nem recordas, já sequer?

Quem deste amor te despenhou, mulher ?

 

Eu não! Se muitos crimes me desluzem,

Se pôde transviar-me o seu encanto,

Ao menos uma só não me recusem,

Uma virtude só: amar-te tanto!

Embora injúrias contra mim se cruzem,

Cuspindo insultos neste amor tão santo,

Diz tu quem fui, quem sou, e se é verdade

O opróbrio aviltador da sociedade.

 

In “Citações e Pensamentos de Camilo Castelo Branco”

Org. de Paulo Neves Silva

Casa das Letras

 

Camilo Castelo Branco

(1825-1890)

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Quinta-feira, 1 de Dezembro de 2016

Recordando... António Feijó

PRINCESA ENCANTADA

 

Formosa Princesa dormia ha cem annos;

Dormia ou sonhava... Ninguem o sabia.

Passavam-se os dias, passavam-se os annos,

E a linda Princesa dormia, dormia,

Dormia ha cem annos!

 

Em torno, sentadas, dormiam as Damas,

Cobertas de joias, cobertas de lhamas;

 

Com formas e aspectos de finas imagens,

Esbeltos e loiros, dormiam os pagens.

 

E ás portas de bronze, por terra halabardas,

Num somno profundo dormiam os guardas.

 

Lá fóra, na sombra dos parques discretos,

Nem aves gorgeiam, nem zumbem insectos.

 

As arvores sonham, na sombra dos poentes,

Immoveis, á beira dos lagos dormentes.

 

E as fontes que d'antes sonoras gemiam,

Somnambulas mudas, apenas corriam...

 

Um dia, de longe, de terras distantes,

Com pagens, arautos, donzeis, passavantes,

 

Bandeiras ao vento, clarins, atabales,

Echoando a distancia por montes e valles,

 

– Um principe, herdeiro d'um throno potente,

Com olhos suaves d'aurora nascente,

 

Excelso e formoso, magnanimo e moço,

– Correndo aventuras, num grande alvoroço,

 

Chegou ao Castello, que ha tanto dormia,

Como uma alvorada, prenuncia do dia...

 

E ao ver a princesa, sentada em seu throno,

N'aquelle profundo, extactico somno,

 

Tomado d'estranha, indizivel surpresa,

Na boca entreaberta da linda Princesa,

 

Tremendo e sorrindo, seu labio collou-se

N'um beijo, que ao labio a alma lhe trouxe.

 

Accorda a Princesa; despertam as Damas,

As faces ardentes, os olhos em chamas.

 

Despertam os Pagens, nos seus escabellos,

Com halos de fogo nos loiros cabellos.

 

Accordam os guardas; e, tudo desperto,

A vida renasce no parque deserto.

 

Suspiram as fontes; gorgeiam as aves,

Das áleas profundas nas sombras suaves.

 

As arvores tremem, no ar transparente,

Á brisa que sopra, como halito ardente.

 

Nas torres, os sinos repicam de festa;

O povo em choreias enchia a floresta...

 

E a linda Princesa, seus olhos fitando

No Principe excelso, sorrindo e còrando,

 

– «Sonhava comtigo...» Porque é que tardaste?

Mas já nesse instante, formando contraste,

 

Quando isto dizia, erguendo-se a medo,

A voz parecia trahir o segredo

 

De quem, num relance, talvez lamentasse

Que sonho tão lindo tão cedo acabasse!...

 

A linda Princesa sonhava ha cem annos,

E fóra do Sonho só há desenganos...

 

[mantém a grafia original]

 

In “Sol de Inverno”

Livrarias Aillaud e Bertrand - 1922

 

António Feijó

(1859-1917)

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Quarta-feira, 30 de Novembro de 2016

Recordando... Adolfo Casais Monteiro

REALIDADE

 

A realidade é apenas

uma luz por dentro das coisas. Teia

em que se enreda o olhar que traz

dentro de si o amor do mundo.

Vaso que dá forma à

toalha líquida dos instantes. Suspensa

ponte sobre as margens do tempo.

Baste ao amor a adivinhação, ao sorriso

a presença de um sonho.

A luz floresce em qualquer parte.

 

In "Heras e Eras"

 

Adolfo Casais Monteiro

(1908-1972)

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Sexta-feira, 25 de Novembro de 2016

Recordando... António Botto

PASSEI O DIA OUVINDO O QUE O MAR DIZIA

 

Eu ontem passei o dia

Ouvindo o que o mar dizia.

Chorámos, rimos, cantámos.

Falou-me do seu destino,

Do seu fado...

 

Depois, para se alegrar,

Ergueu-se, e bailando, e rindo,

Pôs-se a cantar

Um canto molhado e lindo.

 

O seu hálito perfuma,

E o seu perfume faz mal!

Deserto de águas sem fim.

Ó sepultura da minha raça

Quando me guardas a mim?...

 

Ele afastou-se calado;

Eu afastei-me mais triste,

Mais doente, mais cansado...

Ao longe o Sol na agonia

De roxo as águas tingia.

 

«Voz do mar, misteriosa;

Voz do amor e da verdade!

- Ó voz moribunda e doce

Da minha grande Saudade!

Voz amarga de quem fica,

Trémula voz de quem parte...»

.........................................

 

E os poetas a cantar

São ecos da voz do mar!

 

In “As Canções de António Botto”

Ed. Presença – 1980

 

António Botto

(1897-1959)

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Sábado, 19 de Novembro de 2016

Recordando... Al Berto

RECADO

 

ouve-me

que o dia te seja limpo e

a cada esquina de luz possas recolher

alimento suficiente para a tua morte

 

vai até onde ninguém te possa falar

ou reconhecer - vai por esse campo

de crateras extintas - vai por essa porta

de água tão vasta quanto a noite

 

deixa a árvore das cassiopeias cobrir-te

e as loucas aveias que o ácido enferrujou

erguerem-se na vertigem do voo - deixa

que o outono traga os pássaros e as abelhas

para pernoitarem na doçura

do teu breve coração - ouve-me

 

que o dia te seja limpo

e para lá da pele constrói o arco de sal

a morada eterna - o mar por onde fugirá

o etéreo visitante desta noite

 

não esqueças o navio carregado de lumes

de desejos em poeira - não esqueças o ouro

o marfim - os sessenta comprimidos letais

ao pequeno-almoço

 

In "Horto de Incêndio"

Assírio & Alvim

 

Al Berto **

(1948-1997)

 

** Pseudónimo de Alberto Raposo Pidwell Tavares

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Domingo, 13 de Novembro de 2016

Recordando... Manuela Amaral

TENHO A SAÚDE DOENTE

 

Tenho a saúde doente.

 

Tenho a barriga nos ombros

e a cabeça no ventre.

 

Tenho os pulmões nos ouvidos

e o coração está na boca.

 

Penso com os pés

com as mãos

 

e no meio da confusão

ando de pernas para o ar.

 

Tenho a saúde doente

 

por ser poeta

e ser louca.

 

In "Tempo de Passagem”

Editora Fora do Texto

 

Manuela Amaral

(1934-1995)

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Segunda-feira, 7 de Novembro de 2016

Recordando... Mário Cesariny

FAZ-ME O FAVOR...

 

Faz-me o favor de não dizer absolutamente nada!

Supor o que dirá

Tua boca velada

É ouvir-te já.

 

É ouvir-te melhor

Do que o dirias.

O que és não vem à flor

Das caras e dos dias.

 

Tu és melhor - muito melhor! -

Do que tu. Não digas nada. Sê

Alma do corpo nu

Que do espelho se vê.

 

In "O Virgem Negra"

Assírio & Alvim

 

Mário Cesariny

(1923-2006)

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Terça-feira, 1 de Novembro de 2016

Recordando... João Rasteiro

A DANÇA DAS MÃES

 

Na beleza incurável das feridas

alimentam-se mães sem trégua.

Nos rios secos, batem e batem os corações

alimentados em sangue frio e espesso.

Que é lívido. Que procura as raízes.

O coração é um bicho estranho, que vai

caminhando gota a gota. E as feridas incautas

aproximam-se das mães, imprudentes ao peso

de cada sopro. O amor eternamente feroz.

E as feridas das mães, são cada vez mais belas.

O medo caminha violentamente mais perto,

no corpo, na cara, nas vértebras e no ventre

onde se abriga com seu volúvel volume,

o silencioso amor de mãe.

Sob a folhagem da água, mães cansadas

da aridez que as toca, incendeiam-se através

dos filhos. E os filhos, esse chumbo cravado

nas asas, esse projecto que sobre o mar se estende,

alimenta as feridas pelos tendões.

As mães debicam sobre a areia a sua rota clara,

até ao fim do mundo. Como pela última vez.

Sobre a montanha, um filho incorpora-se na beleza

incurável das feridas, enquanto mães tacteiam

a pedra, até ser flor.

Por vezes sangram e cantam, secam os olhos,

arrancam os sexos e em permanente luta, corpo

a corpo, o amor estende-se, mas os gestos

são frios, neste caminhar obsceno

de pessoas sem frutos. Há-de caber numa gota,

todo o tempo, todo o amor, de uma vida sem história.

 

In “No Centro do Arco”

Palimage

 

João Rasteiro

(N. 1965)

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Segunda-feira, 31 de Outubro de 2016

Recordando... Vergílio Ferreira

VEIO TER COMIGO HOJE A POESIA

 

Veio ter comigo hoje a poesia.

Há quantos anos? Desde a juventude.

Veio num raio de sol, num murmúrio de vento.

E a ilusão que me trouxe de uma antiga alegria

reinventou-me a antiga plenitude

que já não invento.

 

Fazia-lhe outrora poemas verdadeiros

em fornicações rápidas de galo.

Hoje não sou eu nunca por inteiro

e há sempre no que faço um intervalo.

 

Estamos ambos tão velhos — que vens fazer?

— a cama entre nós da nossa antiga função.

Nublado o olhar só de a ver.

E tomo-lhe em silêncio a mão.

 

In “Conta-Corrente 1”

Livraria Bertrand - 1981

 

Vergílio Ferreira

(1916-1996)

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Terça-feira, 25 de Outubro de 2016

Recordando... Fernando Esteves Pinto

APODERAVA-SE DAS MINHAS PALAVRAS

 

Apoderava-se das minhas palavras

como se fossem uma toalha do seu rosto

alguns utensílios reservados para a sua vida.

Eu escrevia casa e a casa teria de ser a defesa do nosso amor.

Eu escrevia cama e a cama transformava-se num jogo de silêncio.

Vivia por trás da minha escrita

como se preenchesse a alma de tudo o que não entendia.

Queria que eu mobilasse a vida só com palavras

breves imagens que fossem o retrato do meu pensamento.

Eu proporcionava-lhe a felicidade como um enigma

em cada palavra um sentimento formalmente virtual

depois abandonava-a com a ilusão do espaço decorativo.

 

In “Área Afectada”

Editora Temas Originais - 2010

 

Fernando Esteves Pinto

(N. 1961)

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